Cisne Negro, de Darren Aronofsky (2010)

Em um estudo de personagem interessante (isso é o melhor do filme salvo melhor juízo, que de resto é regular), o diretor Darren Aronofsky nos apresenta Nina (Natalie Portman), uma bailarina que vive obcecada pela perfeição, que luta contra o fracasso de sua mãe quando esta dançava e que, em meio a uma educação rigorosa, deixa de aproveitar a sua juventude, apenas existindo ao invés de viver. Este tema é ilustrado, por exemplo, quando Nina escuta de sua colega em uma boate: “O que você vai fazer? Voltar para a mamãe? Viva um pouco!”, estabelecendo a diferença grande que há entre as duas. Claro que há aqui uma apresentação mastigada do problema, mas sigamos.

Essa dualidade permanece no filme o tempo inteiro. O diretor filma constantemente Nina com reflexos a sua volta, demonstrando assim a outra persona da bailarina a ser confrontada (confronto este que faz uma alusão clara à dança dos cisnes, a batalha entre o cisne branco e o negro ao final, na derradeira apresentação).  Aqui há algo interessante que é a discussão do duplo, algo como uma projeção de si mesma e que gera conflitos internas na personagem – é um assunto vastamente tratado na literatura e no cinema.

A partir dessa premissa, Natalie Portman compõe a personagem muito bem, alterando sua voz de tempos em tempos, às vezes demonstrando sua total infantilidade, outras parecendo expor seu lado mais maduro, ou, já no terceiro ato, gritando completamente transtornada em seu quarto. Quase sempre Nina aparece com o cenho franzido, olhares intensos e inquietantes, a respiração ofegante, e isso, junto à fotografia nervosa do diretor e closes constantes aumentam a intensidade e tensão do filme.

Há cuidado em outros aspectos do filme, desde o figurino (Nina usa muito roupas rosa claro, remetendo à vestimenta infantil); direção de arte (quando Nina está na banheira, vemos no canto direito inferior da tela um desenho de um cisne, exemplificando como a personagem não consegue desligar-se da dança e como isso a consome); trilha sonora, que se mantém no âmbito do ballet durante toda projeção.

Assim, Darren Aronofsky finaliza um bom trabalho, não o seu melhor, mas ainda sim uma obra a ser vista e pensada. Natalie Portman mereceu o grande reconhecimento que teve, pois é a peça-chave que orquestra o filme, merecendo os aplausos que a personagem tanto almejava.

Rodrigo Mendes

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