O estranhamento no cinema

O estranhamento é um conceito usado em várias áreas do conhecimento que significa, grosso modo, uma mudança de perspectiva sobre algum objeto, obra de arte, sociedade etc. Esse novo jeito de olhar as coisas ocasiona um sentimento estranho, que nos faz prestar atenção em coisas que não percebíamos antes nesses objetos, sociedades etc. Ao criar certa distância entre nós e o que vemos, estranhando aquilo que pensávamos conhecer, esse conceito (estranhamento) possibilita entender de maneira mais complexa e completa tal objeto. Alguns exemplos, dos mais complexos aos mais simples: podemos ver todos os dias o mesmo trajeto na rua, mas se paramos para analisar melhor, nos detemos em aspectos não antes notados, se satisfazendo, por exemplo, em perceber como as construções de tal rua são bonitas e históricas, ou analisar melhor a força das raízes e do tronco que sustentam uma grande árvore; ou ainda começar a notar certas relações sociais dentro da família, como machismo, racismo, lgbtfobia, e perceber que são relações que se repetem em toda a sociedade, chegando a conclusão de que são opressões que fazem parte da estrutura de nosso país, contando ainda com a opressão das classes sociais.

Bom, pensar esse conceito em todo o cinema é certamente uma tarefa impossível devido ao número enorme de filmes que são produzidos todos os anos. Aqui me deterei em três filmes em especial, mas esses representam estilos ou escolas cinematográficas. São eles, em ordem cronológica: O gabinete do dr. Caligari (Robert Wiene, 1920), Fargo, dos irmãos Ethan e Joel Coen (1996) e Estação do diabo, de Lav Diaz (2018). Mas o que eles têm em comum? Comungam os três a função do estranhamento como ponto central de funcionamento da narrativa, ou seja, na maneira como filme é contado, a sequência de imagens, etc., visando denunciar uma violência. A escolha é um pouco arbitrária (como disse, são várias as possibilidades de escolha), mas resolvi pegar um de cada país e ver se tem cabimento essa comparação – claro que as especificidades locais dos respectivos momentos históricos não serão discutidas, embora sejam essenciais; aqui se priorizará um alinhamento de comparação pela conjuntura global ou ao menos ocidental em alguns casos.

Falar de estranhamento no cinema já é quase falar sobre o próprio cinema, ou falar sobre as artes num geral. Em geral, as obras de arte causam um estranhamento na gente, causa de muitos momentos prazerosos quando nos deparamos com arte, qualquer que seja. O próprio cinema, quando surgiu na virada do século 19 ao 20, causava tanto estranhamento nas pessoas ao verem imagens projetadas representando o real com tanta veracidade que muitos saiam do cinema com medo. Cenas em que um trem anda em direção à tela, por exemplo, causava pânico por acharem se tratar de um iminente acidente viário. Então, aqui não tratarei do processo de estranhamento enquanto algo próprio das artes, mas sim como método narrativo, como um modo predominante de contar a história.

O primeiro filme, O gabinete do dr. Caligari, se filia ao movimento chamado Expressionismo Alemão. O movimento tinha como uma das características marcantes o gosto pelo horror. São filmes sobre vampiros, robôs, lendas antigas, magia, sempre em uma atmosfera sombria e puxando para o lado do terror. Essa temática representava, de certa forma, uma visão de mundo aterradora da Alemanha pós I Guerra Mundial. Os horrores da guerra parecem ter se materializado no cinema em formas horrendas, disformes, opacas, violentas. Neste filme em especial, os cenários pontiagudos e o protagonista que é quase um morto-vivo (na verdade é uma cobaia de um experimento de hipnose). O estranhamento entra nesse caso em chocar os espectadores com imagens de vampiros, monstros, cenários escuros e disformes, fazendo quem via _estranhar_ aquelas cidades, aquelas sociedades, aquelas personagens. (Talvez seja gerenalizar, mas os filmes fantásticos em geral tendem a usar muito esse processo, com ou sem sucesso.) Última coisa: o movimento, que surge salvo engano em meados da década de 20, parece prever o horror maior ainda da guerra posterior, da ascensão e consolidação do nazismo/fascismo.

Já os irmãos Coen são conhecidos, principalmente, por seu humor ácido, ironia e por suas bizarrices violentas. Desde a caricatura da personagem de Javier Bardem em Onde os fracos não têm vez, que faz o espectador rir, mas o _estranhamento_ acontece quando nos deparamos com a violência desse psicopata. A violência nos irmãos Coen se dá pela piada irônica junto à violência, em geral bizarra, que permeia boa parte da obra dos diretores. Em Fargo talvez tenhamos o ponto máximo desse tipo de procedimento narrativo. Uma relação de bandidos estranha junto a uma história mirabolante são as bases para a violência, às vezes extrema, que acompanhamos ao longo do filme. Violência sempre com o toque do bizarro, do grotesco.

Por último, o grande filme de Lav Diaz, Estação do diabo. Esse é talvez o mais característico os três por se tratar de um musical. O gênero musical surge lá pelos anos 30 nos Estados Unidos, considerada a Era de Ouro do cinema estadunidense, época em que os estúdios faturaram muito com musicais – filmes cantados ou com muitos trechos de música cantados pelos atores. A grande tensão, o grande estranhamento que o filme produz está na forma musical. Sua força reside em o diretor optar por esta forma para contar sua história. O filme trata de uma cidade do interior (talvez das Filipinas, país do diretor) que é tomada por militares. Através de algo meio místico e extremamente violento, o grupo, que cultua seu “presidente” como súditos cegos e alienados quase, oprime a cidade ao começar a implementar outra cultura à força da bala. E a forma musical é o que melhor se encaixa para criar esse impacto, esse estranhamento. Ao ver os personagens felizes e cantando literalmente uma ditadura, com todas as violências e mortes que carrega consigo, temos a noção exata do sadismo militar e de sua real violência. Ao colocar lado a lado coisas opostas (musical e militarismo; alegre e violento) aumenta seu realismo em demonstrar nitidamente aquelas opressões.

Finalizando, talvez seja possível sim alinhar esses três filmes que, mesmo de lugares diferentes, se valem da mesma técnica de composição, uma dentre várias, para contar suas histórias e ao mesmo tempo denunciar as sociedades em que vivem. Porque essa violência brota da sociedade nas quais as obras foram feitas. Aqui no Brasil temos exemplos claros, com filmes como Branco sai, preto fica. São vários os exemplo; aqui trouxe alguns filmes para vermos como funciona esse procedimento, que é muito útil para o cinema, como provam esses grandes filmes.

Rodrigo Mendes

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