O amor no filme ‘Café de Flore’, de Jean-Marc Vallée

Talvez o peso de amar exista de maneira insuportável para quem ainda não tem a dimensão de si. De alguma maneira, amar é estar pelo outro. Atravessado por ele. A fundar um novo horizonte. Novas cores. Dentro dessa dimensão iniciamos essa prosa ouvindo o CD Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. Dessa maneira acabamos por fazer desse texto uma travessia. Atravessado pelos acordes psicodélicos, nos encontramos em uma rua. Um café, com flores.

As flores sem dúvida nos trazem perfumes. Os perfumes podem fazer-nos transportar para locais que podem ser uma recordação ou, nas melhores sensações com flores, transcendências do tempo de nós. O tempo do amor transcende o relógio. Ele pode pesar ou libertar. Leminski já nos advertia do caminho a ser seguido: “haja hoje para tanto ontem”. Daqui seguiremos nossa toada para dizer que o filme “Café de Flore”, de  Jean-Marc Vallée,  caminha exatamente no local de nascimento da flor. Ela ali aparece cheia de suas dimensões. Do espinho. Do cheiro. Do sabor que amarga e junto faz adocicar. O trato com a planta depende da delicadeza do florista. Que é o personagem que cuida da flor. Mas que como sabemos “fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas”. Escolhemos a rosa neste caso. Assim como, por sorte, o CD do Pink Floyd é o nosso preferido. É sorte o amor.

Dizer que amor é sorte não é afirmar ingenuamente que o amor é apenas essa recepção de cheiros sem espinhos. Em primeiro lugar, o filme nos mostra claramente o que Shakespeare já nos dizia em seu Menestrel: “beijos não são contratos”. Da mesma maneira, o grande amador, Vinícius de Moraes, também já advertia: “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. Assim, o florista, esse artista da flor, sabe que ela nasce, cresce e incendeia o ar. Dá frutos. Os frutos brotam da flor. Eles também levam a flor. Mas eles não serão eternos. Assim como não pode existir nota promissória assinada para que o amor não se vá. Ele, inclusive, não deixa de ser amor quando se vai – apenas muda de nome. Talvez o outro lado do nome amor seja saudade. Mas isso é outra história. No entanto, além de saudade, o amor também chama perdão. Não é interessante o verbo chamar também ser chama? O fogo se anuncia assim. A flor também é uma chama que brota. E o amor então “é fogo que arde sem doer”. Essa queimadura do amor é a tatuagem que ele deixa para dizer de sua travessia. Amar é ser atravessado.

No filme, vimos uma mãe em uma dedicação incondicional a seu filho. Ele possuía uma característica especial. Ela nutria por ele e para ele seu tempo. Essa florista encontrou dificuldade quando percebeu que sua flor queria namorar outro jardim. O seu filho especial, que até ali era “só dela”, cria um amor por uma colega na escola. Estaria aí um dos problemas de um amor que espera. Quando há uma cláusula que é um casulo para o outro existir o amor sufoca a si mesmo. Ainda assim é amor? Outro lado do amor seria o egoísmo? Não saber de si pode murchar o amor?

Em simultaneidade a essa história, o filme nos transporta para outro dilema. Uma família que está dividida pelo término do casamento e a nova relação do pai. Vidas que se cruzam nos sonhos da esposa que fora deixada. Nesse momento, a questão fica bastante interessante. Ora, como se fosse na mesma mistura dos acordes de Dark Side, o sonho da ex-esposa traz o namoro interrompido pela mãe na outra história. Como que em uma revelação ela precisa lutar consigo para se libertar do fim do seu próprio relacionamento. Talvez os pesos impostos por carrearmos a cultura em nossos ombros possam estar ali mostrados. Ou seja, quando essa mulher vê o marido a viver com outra e não consegue se libertar desse peso, é como se enxergássemos apenas uma cor. As ideologias fazem isso. Os traumas também. A nova namorada é uma bela jovem. Ela não afronta a ex-esposa, mas está em seu lugar. Aliás, ela não ocupa propriamente o seu lugar. Ora, como dissemos, a flor, mesmo depois que morre, não deixa de ser amor. E assim, outra cor do amor é o perdão. Ao se perdoar a si e perceber que a flor havia avoado a ex-esposa perdoa a todos ao seu redor. O perdão só o é se for impossível, nos ensinaria Derrida. Nesse caso, aquele feixe de luz de uma cor só passa pelo prisma. Se transmuta em arco-íris. O perdão inventa o tempo. O amor é assim, cheio de cores, sons e tempos. Travessia e cheiro de café novo. Lado escuro e colorido da lua.

 

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