Esquecendo o que se lê

Lapsos de memória são comuns em nós, leitores – alguns em níveis maiores, outros em menores. Não é possível decorar todas as linhas de tudo aquilo que se lê, e mesmo quando algo fica gravado em nossa mente, vez ou outra esse registro some – tanto momentaneamente, como também para sempre. Por mais que lembremos de muitas coisas sobre o que lemos, algumas delas se apagam, enquanto muitas outras sequer são registradas.

Os esquecimentos são normais. Claro que a partir do momento em que os lapsos passam de um determinado nível, que pode ser entendido como algo para além do razoável, a coisa pode passar a ser preocupante, pois pelo menos o mínimo de informação obtida com a leitura passa a constituir o acervo da mente do leitor. Os dados sobre determinado problema abordado em um livro, a trajetória do protagonista de um romance, o motivo das aflições de uma personagem de um conto, algumas linhas de um poema ou ainda algumas informações sobre a vida daquela pessoa biografada estão entre esse mínimo que se espera ser absorvido quando da leitura dos livros que abrimos para ler. Acumulam-se mais informações em nossa massa pensante pelo processo das leituras que fazemos. Mas, ainda assim, mesmo quando condicionamos cada vez mais o fomentar desse amontoar de informações, por mais melhorias que façamos para a nossa memória, os espaços vazios se fazem presentes.

Por espaço vazio digo aqui do esquecimento, compreendo-o tanto enquanto não registro de algo lido, como aquilo que se recorda durante um tempo, mas que se esvai com o passar dos dias, dos meses ou dos anos. Para cada detalhe presente em um livro, o tempo de esquecimento (ou a possibilidade disso ocorrer) pode variar, assim como pode se tratar de algo que sequer será registrado por tempo além do necessário para se compreender a dinâmica ali posta em determinado trecho da obra.

Os nomes de personagens presentes em um romance, por exemplo – são recordados todos após o término da leitura? Mesmo para os que possuem excelente memória, dificilmente se terá uma resposta positiva sobre esse ponto. Talvez os nomes dos personagens principais fiquem registrados na mente do leitor por um bom tempo, mas os personagens secundários e terciários, para alguns, muitas vezes são lidos e esquecidos logo na página seguinte.

Ainda sobre os nomes de personagens literários, vale destacar que é comum que esses sumam das nossas mentes. Talvez os eternos jamais serão apagados – como é o caso de Jean Valjean, a mulher do médico, Hamlet, Sherlock Holmes, Capitu, Hercule Poirot, Frodo, Scrooge, entre outros. No entanto, personagens menos marcantes podem ter os seus nomes esquecidos nas nossas mentes, ou ainda inclusive os significativos, mas que, por algum lapso da memória, evaporam-se da nossa cabeça. Pensemos no caso da literatura russa para exemplificar a dificuldade que já é para decorar minimamente alguns dos nomes que surgem a cada página, sem contar ainda a grande luta que se trava para evitar a confusão entre tantos nomes que, por algum motivo, são parecidos. A situação aqui passa a ser mais complicada em decorrência dessa dificuldade.

É possível pensar também sobre aqueles livros lidos há vários anos. Não há casos em que acabamos esquecendo de parte da história? Algumas dessas, lidas há muito tempo, não acabam se apagando aos poucos, restando eventualmente apenas o cerne da obra que há tanto foi lida? Primeiro, vão-se as minúcias. Depois, alguns outros detalhes também viram borrões. Na sequência, o esquecimento toma conta de passagens, de cenários, de personagens e afins, até que acaba abocanhando a história por completo.

O esquecimento sobre aquilo que se lê pode ser analisado pelas mais variadas perspectivas quando à reflexão é dada uma certa atenção. Imagine um cenário hipotético no qual tudo aquilo que é lido é esquecido na sequência. As lembranças sobre a história lida ficariam na mente do leitor somente por algumas horas após o seu término. O prazer da leitura duraria apenas o tempo da própria leitura, além de mais alguns poucos instantes posteriores para que o êxtase que se estabelece após o final de algo lido pudesse ser contemplado minimamente. O livro, com toda a sua história e seus personagens seriam apagados da mente. Para buscar uma nova dose de satisfação, o livro teria que ser lido novamente, sem que existisse qualquer resquício de memória sobre a primeira leitura. Tudo de novo – e de novo, e de novo. Ciente de que assim seria com qualquer obra, valeria a pena ler?

E se o esquecimento fosse opcional, alguém toparia? Talvez determinadas pessoas achassem uma boa ideia poder escolher as lembranças que permaneceriam sobre os livros lidos, enquanto outras recordações deliberadamente pudessem ser apagadas. Mortes inaceitáveis de personagens queridos e histórias tristes e doloridas poderiam ser extirpadas da mente, focando-se nos pontos altos dos livros em seus momentos de alegria. Seria razoável, interessante ou sadio poder escolher quais as lembranças que seriam apagadas?

Kazuo Ishiguro constrói uma bela reflexão sobre o esquecimento no seu romance “O Gigante Enterrado”, expondo as nuances, os meandros e as problemáticas que residem na possibilidade de se poder optar pelo esquecer. Será que com os livros, suas histórias e informações diversas, também seria assim?

Seja como for, dentro do cenário hipotético (com todas as suas viagens possíveis) ou com base na concretude de tudo aquilo que, mais cedo ou mais tarde, em menor ou maior grau, de fato se esquece, o fato é que, vez ou outra, vamos esquecendo daquilo que se lê – e isso faz parte do próprio processo de leitura (seus atos vindouros). O que fazer para evitar que o esquecimento seja um problema é algo que depende de cada um de nós.

Esqueçamos, portanto, do esquecimento. Aproveitemos ao máximo as nossas leituras!


Fonte da imagem:

https://conteudo.imguol.com.br/c/entretenimento/f9/2018/06/11/pergunte-ao-vivabem—esquecimento-1528741969660_v2_1920x1080.jpg

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