Série – A Teoria da Literatura por seus autores: Lucien Goldmann

Goldmann começa seu texto “O sujeito da criação cultural” diferenciando a análise do indivíduo pela sociologia e pela psicanálise. A diferença central é que, para a primeira, o sujeito é coletivo e, para a segunda, é individual. Essa oposição é fundamental para o argumento de Goldmann de que as obras de arte são produzidas por sujeitos coletivos ou transindividuais. Seu pressuposto de análise é que há um enquadramento prévio do sujeito nas estruturas sociais. Isso nos leva a pensar que todas as obras terão traços dessas estruturas sociais nas quais estamos todos inseridos. Os significados das obras dependem, portanto, do entendimento prévio do processo social no qual a obra foi decantada e então perceber como, esteticamente, foi elaborada pelo autor. Aqui novamente há uma ideia de recusar o biografismo como fator de interpretação, aqui sobretudo representado pela psicanálise, em uma abordagem subjetiva das obras a partir do autor.

De certo maneira, brincando com Barthes, poderíamos dizer que aqui também o autor está morto, ao menos o autor enquanto ser individual que cria uma obra, pois o que está em questão é um sujeito coletivo. Algum indivíduo produz certa obra de arte, mas isso não parte do gênio deste autor, interpretação que não mata o autor, pelo contrário, e que também vai pela via do psicologismo como método interpretativo. Esse individuo na verdade canaliza uma obra com traços do processo social. Ele representa uma coletividade porque o que escreve vem de certa conjuntura histórica compartilhada por um grupo de pessoas.

A mudança sutil que opera Goldmann ao dizer que o método materialista histórico e dialético explica as obras de arte tal como as ciências “duras”, e não as compreende, como as ciências humanas, revela-se especificamente no ponto que tocamos: o sujeito da criação cultural é social, está ligado a estruturas sociais reconhecíveis, logo, objetivo, como o mundo no qual vive. Há uma objetividade (depois com Adorno virá conceituado como objetividade da forma estética) que permeia sempre as obras, e descobrindo essas estruturas sociais objetivas do mundo material, explica-se a obra e o processo social.

Rodrigo Mendes

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