O filme ‘O homem duplicado’, inspirado no romance de Saramago

“A história acontece primeiro como tragédia, depois se repete como farsa”. Essa frase de Marx escrita em seu “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, bem como as repetidas falas do professor  Adam Bell  (Jake Gyllenhaal) em suas aulas, talvez sejam um dos fios de Penélope que percorrem as teias de “O homem duplicado” de  Denis Villeneuve. O filme é homônimo e inspirado no romance de José Saramago. Sempre será um olhar sobre o tempo pensar em duplicidade e como  o humano se coloca espacialmente na cidade. O tempo do outro, o tempo do um. Mas e quando se é dois?

Interessante perceber que a foto que apresenta o filme mostra um homem no qual a cidade entra ou sai de sua mente. Ali já uma reflexão interessante. Ora, o humano é sempre um ser de ideologia. Retirá-las dele é, de pronto, retirar a própria humanidade. Nossa colocação no mundo se dá entremeado pelas teias que tecemos e ao mesmo tempo, pelas teias que são tecidas ao nosso redor. Seriam as aranhas do filme um jeito de mostrar nossos medos e ao mesmo tempo, evidenciar que aquilo do que escondemos acaba por nos revelar? Estamos revelados desde sempre a partir de nossas sombras? Há vida na sombra? Quando estamos já duplicados teríamos mais de uma sombra? Temos sombras? A sombra do homem é sempre a mesma?

O enredo do filme não revela totalmente as questões. Mas podemos perceber a questão que acompanha a trama aliada ao problema da ideologia e, ao mesmo tempo, a ideia de que a construção do mundo se dá continuamente dentro de nosso maior segredo. O humano não se dá ao mundo de maneira inerte. Construímos nossas teias e enquanto tecemo-las, elas, quase sempre sem que saibamos, tecem nosso ninho. O mundo está ali dentro das construções do professor. O medo imaginado, nos ensinaria Mia Couto, é sempre maior que o medo vivido. Isso  uma evidência de que há uma construção interna que aprisiona o indivíduo, tornado sua existência uma prisão de si. A razão iluminadora quis resolver esse problema a partir do cogito de Descartes. Freud, Marx e Nietzsche, cada um à sua maneira, inconsciente, luta de classes e vontade de poder, destruíram essas ideias com suas suspeitas. É um filme que honra esses autores.

Pensar um duplo é pensar uma prisão. Assim como a tragédia é aquilo que nos é inescapável. O imponderável. A farsa é de alguma maneira aquilo que “inventamos” para que possamos dar conta de nosso real. Inacessível segundo Lacan. Logo, quando o professor se depara consigo, vivendo relacionamentos extraconjugais, tendo sua mulher grávida. Ele se depara com sua própria tragédia. Com a inevitabilidade daquilo que o acompanha, basta percebermos a cena final do filme. E para que ele dê conta, acaba por inventar sua própria farsa. Seria então um filme a relatar a ausência de autenticidade falada por Heidegger? Mas ao inventar essa farsa, ele de alguma maneira se torna prisioneiro dela também.

Esse o ponto que gostaríamos de chegar. Ora, talvez estejamos a discutir sobre liberdade. O filme se presta a todo tempo em mostrar os fios. A cidade que aprisiona em um tom cinza e claustrofóbico. Não há tempo sem tensão. O sol pouco aparece. Assim, enquanto o professor insiste em repetir em suas aulas acerca da ideologia que aprisiona. Dos sistemas totalitários. Ele ao mesmo tempo vive sua tragédia. Aprisionado pela sua própria mente. Preso em suas fantasias e ao mesmo tempo, com medo delas. E assim, repetindo a história, agora como farsa, cria seu duplo. O filme de alguma maneira nos mostra o quanto nossa construção ideológica, imaginária e emocional se funde com o que chamamos realidade. Assim, coloca-nos a pensar o limite da esquizofrenia científica quando quer a todo modo apreender a existência em seus conceitos.

O tempo do professor é o mesmo tempo do ator. Que junto das teias de sua mãe. Não consegue fugir de um complexo que ronda suas brechas impondo teias. As aranhas constroem suas teias. Habitam nelas. Os humanos por vezes constroem suas vidas, habitam-nas. O tempo, esta senhora que habita a todos, ela sim, talvez tenha a chave para a saída da teia. Mesmo que na porta esteja à espera outra aranha. Nunca se é livre. Estamos sempre vigiados. Ou melhor: duplicados. Fim.

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