Por leituras que nos derrubem

Por livros que nos tirem o chão, que nos deixem sem ar, que perturbem nosso sossego, que nos façam gritar, que nos façam sorrir, que nos façam chorar, que nos façam tremer… Seja como ou o que for o livro, mas que nos faça.

Com todo respeito aos que apreciam uma leitura morna (até mesmo por tudo se tratar de uma questão de gosto literário), mas o que quero são os livros que rompem algo em nosso interior. Não que os livros tépidos careçam de qualquer função. Haruki Murakami, quando dá suas dicas aos pretensos escritores, sugere inicialmente aquela que é a regra mais óbvia de todas, mas que mesmo assim se faz necessário frisar sempre: para se escrever bem, deve se ler – e muito. Nesse muito, o escritor inclui todos os tipos de livros – “até aqueles insignificantes”. Penso que talvez até mesmo para que o leitor possa categorizar o que pode se entender como leitura morna e diferenciar essa das demais, somente assim fará com mais concretude depois de tantas e tantas leituras, aprendendo o que realmente vale ser lido. Compreendendo em que ponto e quando as leituras se diferenciam, o que resta é buscar fugir daquelas de pouca intensidade e ir atrás daquelas que nos nocauteiam.

Temos pouco tempo de vida para leituras frívolas. Além disso, os livros são muitos – tantos a ponto de inexistir uma vida que comporte a leitura de todas as obras assim intentadas. As nossas intermináveis listas de leituras jamais terão todos os livros mencionados riscados. Essa é apenas uma dentre as razões que justificam o foco nos livros que deixam o leitor em estado de torpor quando da leitura. É desse tipo de livro que falo. É o tipo de leitura que quero.

Concordo com o escritor Gustavo Melo Czekster quando fala do tipo de livro pelo qual procura:

Procuro livros que sejam capazes de me matar, de se cravarem no meu espírito como um gládio romano e me fazer sangrar até a última respiração. Livros que façam aflorar o desejo de suicídio na minha alma. Livros que me mostrem aquilo que não tenho coragem de enxergar

Histórias rasas, enredos maçantes, contos tediosos, relatos simplórios, pesquisas insignificantes, embromações literárias, mais do mesmo… de tudo isso quero fuga!

Equívocos na categorização das leituras que realmente valem ser lidas podem acontecer, é claro. Alguém de pouca leitura ou um leitor que esteja acostumado a ler somente livros rasos, sem nunca ter se dado a oportunidade de devorar uma obra mais profunda, pode não possuir muito aparato para definir o que seria um livro escrito para derrubar quem o lê. Mas o fato é que também há livros ruins e livros medianos que, por mais que não sejam ruins, não valem muito empenho e tempo empregado por um bom leitor ávido por uma leitura que rompa os grilhões da sua alma. Muitas vezes o resultado pode ser fruto de um deslize de um bom autor, assim como também o culpado pode ser o próprio responsável pela escrita, pois, conforme muito bem pontuou Stephen King, “não dá para mentir e dizer que não existem escritores ruins” – eles existem. E são muitos.

Clássicos e contemporâneos, vários deles, ocupam esse local de destaque da literatura. Os livros que fazem com que nosso espírito arda em chamas podem pertencer aos mais variados gêneros literários. Obras técnicas, artigos científicos, poesia, romances, contos, quadrinhos… Seja qual for o gosto ou preferência literária do leitor, há um mundo amplo de bons títulos que aguardam serem lidos. Eles estão aí, em todos os cantos – nas prateleiras das livrarias, nas estantes das bibliotecas, no estoque das lojas virtuais, nas cabeceiras das camas, nos banheiros, nas mochilas dos estudantes, nas escrivaninhas das salas de estudos… Basta procurar por eles – acredite, esses são os livros que querem ser lidos. Com a intenção de uma leitura de peso por parte do leitor e a oferta nesse mesmo sentido que essas boas obras proporcionam, esses devem ser os próximos livros a serem lidos.

O tempo precioso que dispomos para a leitura de uma obra deve valer a pena. É um retorno justo que se espera quando nos debruçamos sobre um livro para lê-lo. Quero ficar encantado com as palavras ali presentes, quero que o prazer proporcionado pela história lida seja um verdadeiro êxtase, quero que cada página virada resulte num suspiro, quero que o texto proporcione um sentir verdadeiro. É isso, apenas isso, que quero com um livro!

O que quero, portanto, são livros realmente bons. Bons a ponto de nos fazer estremecer, de romper o nosso solo, de nos lançar para o alto. Clamemos então por leituras que nos paralisem. Por leituras que nos seduzam. Por leituras que nos ofendam. Por leituras que nos tire o sono. Por leituras que nos derrubem.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

CZEKSTER, Gustavo Melo. Escrever é uma forma de oração. Disponível em: <https://homemdespedacado.wordpress.com/2016/04/02/escrever-e-uma-forma-de-oracao/>. Acesso em: 28/05/2019

KING, Stephen. Sobre a Escrita. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. p. 123

MURAKAMI, Haruki. Romancista como Vocação. 1ª Ed. São Paulo: Alfaguara, 2017. p. 64


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