OBRA DE ARTE DA SEMANA: A estela viking Hammar I


Hammar I
ou Lärbro Stora Hammars I, pedra gravada e pintada, século VIII-IX. Localizada em Stora Hammars, paróquia de Lärbro, Gotland, Suécia.

As pedras gravadas e pintadas entre os séculos VII-XI, ou seja, durante a dita era viking, na região de Gotland, na Suécia, são produções específicas desse local, na qual estelas de pedra eram erguidas próximas à sepultura e frequentemente perto de pontes ou estradas – para serem vistas – em memória de um guerreiro falecido, possuindo assim uma relação com o culto do deus Odin, ligado à morte e cultuado pela aristocracia. Sua sobrevivência até os dias atuais, não tendo sido destruídas durante o período de cristianização, foi devida à sua grande importância para a comunidade na época, pois possuía funções de memória, exemplo e culto à divindade.

Muitas dessas pedras massivas medindo entre um e três metros de comprimento possuem a forma próxima a de um cogumelo ou um falo, essa forma fálica podendo ter um significado ligado à fertilidade ou à força guerreira masculina. A pedra pintada que estudaremos, chamada de Hammar I, está entre aquelas que possuem essa forma e faz parte de um grupo de seis estelas localizadas em Stora Hammars, na paróquia de Lärbro, sendo uma das mais famosa e a mais decifradas até hoje.

Acredita-se que as imagens gravadas nesses monumentos fossem pensadas para ser lidas de baixo para cima e, como no exemplo analisado, frequentemente a figura que ocupava o registro inferior era um navio, símbolo tanto da passagem da vida à morte, quanto de prestígio e status social.

Em seguida, no registro acima, podemos ver um cavalo e um homem caído no chão, ladeado de ambos os lados por guerreiros. Imagens de cavalos e guerreiros eram bastante comuns nas pedras gotlandesas, representando batalhas.

No registro superior, há uma das cenas mais discutidas dessa estela que mostra uma mulher entre guerreiros a pé e outros em um navio, que poderia representar três histórias diversas. Primeiramente, temos guerra de Troia, ou seja, Helena entre os espartanos e os troianos, entretanto não se tem certeza se o mito era realmente conhecido na Escandinávia na época – é importante lembrar que os temas representados deviam ser conhecidos tanto pelos que encomendavam os monumentos e os realizavam, tanto pelas pessoas aos quais eram destinados, os observadores que reconheceriam as representações e receberiam a mensagem.

A imagem ainda poderia representar Guðrún Gjúkadóttir, a heroína da saga Völsunga dizendo adeus aos seus irmãos, ou ainda a lenda de Hildr, mencionada em diversas fontes escritas, e na qual Hildr Högnadóttir é raptada/seduzida por Héðinn e levada até uma ilha, indo seu pai buscá-la – portanto, chegando em um barco – e dando de encontro com as tropas do raptor.

Aðalheiður Guðmundsdóttir, em um interessante artigo, defende a hipótese de essa história ser a representada na estela. O mito, segundo ela, poderia ter duas interpretações, uma negativa e uma positiva da imagem de Hildr. Na primeira, a moça piora o conflito entre o amante e o pai, que partem para a violência enquanto ela assiste o derramamento de sangue sem tomar partido, e, ao final do dia, tal qual uma valquíria, reviveria os guerreiros mortos em batalha, criando assim uma batalha eterna, comparável ao que acreditava-se acontecer em Valhalla, onde os guerreiros mortos lutariam diariamente e reviveriam ao final do dia para se juntar em um grande banquete. Nesse caso, a personagem seria vista como uma figura feminina que não aceita obedecer ao patriarcado e gera desestabilidade na sociedade. Já na interpretação positiva da história, o amante e o pai guerreiam e ambos morrem, e Hildr, sofrendo por sua perda, revive-os toda noite através de magia, talvez desejando que a batalha tivesse terminado diferente.

Uma imagem parecida com a que vemos em Hammar I também é encontrada na estela de Stenkyrka Smiss I.


Stenkyrka Smiss I
. Conservada no Gotlands Museum, Visby, Suécia.

Acima dessa história, há uma cena de sacrifício e um enforcado em uma árvore, talvez o episódio no qual Odin em busca do conhecimento se sacrifica na Yggdrasill, à esquerda, e guerreiros, à direita. Sobre e próximo das figuras à esquerda, há três pássaros, possivelmente uma águia e dois corvos – os dois corvos de Odin? – e um símbolo composto de três triângulos chamado de valknut, triquetra, ou ainda nó dos mortos, um símbolo de poder e magia ligado à morte e ao deus Odin, que também representa o destino dos homens subjugado ao destino aos deuses que o atam e desatam.

Os dois últimos registros parecem mostrar, de baixo para cima, os guerreiros caídos chegando a Valhalla, e, possivelmente, suas batalhas após a morte no salão de Odin, tema frequente na parte superior das estelas de Gotland.

Minhas pesquisas, não me esclareceram a ligação entre o registro que mostra a cena do sacrifício e aquele da história de Hildr/ Guðrún/ Helena de Troia, entretanto, o que é evidente nas imagens gravadas nessa estela, assim como nas outras pedras pintadas na região, são os temas guerreiros e aristocráticos, da morte e o culto à Odin.

Bibliografia / Links:

Aðalheiður Guðmundsdóttir, “Saga Motifs on Gotland Picture Stones: The Case of Hildr Högnadóttir” in Gotland’s Picture Stones. Bearers of an Enigmatic Legacy, Gotländkst Arkiv 84, 2012, p. 59-71.
http://uni.hi.is/adalh/files/2013/02/Hildr-Eng.pdf

Johnni Langer, “Hammar” in Johnni Langer (org.), Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos, São Paulo, Hedra, 2015, p. 230-231.

Johnni Langer, “Pedras pintadas de Gotland (estelas)” in Johnni Langer (org.), Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos, São Paulo, Hedra, 2015, p. 361-367.

Johnni Langer, “Valknut (triquetra, coração de Hrungnir)” in Johnni Langer (org.), Dicionário de mitologia nórdica: Símbolos, mitos e ritos, São Paulo, Hedra, 2015, p. 537-538.
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Fontes das imagens:

https://kameratrollet.se/2015/09/13/bildstenen-stora-hammars-1/

https://en.wikipedia.org/wiki/Stora_Hammars_stones

https://en.wikipedia.org/wiki/Hja%C3%B0ningav%C3%ADg

https://www.researchgate.net/figure/Stenkyrka-Smiss-I-now-in-Visby-Gotlands-Museum-GF-3428-Photo-by-Harald-Faith-Ell_fig6_259429813

 

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