O tempo e o amor no filme ‘Time – o amor contra a passagem do tempo’ de Kim Ki-Duk

Há dois labirintos dentro da película “Time – o amor contra a passagem do tempo” de Kim Ki-Duk. Poderíamos dizer que o labirinto do tempo, este que nos enreda desde sempre, que nos armadilha e que anuncia nossa derrota a priori. Mas ao mesmo tempo, nesse lançar de dados da existência dá-nos a ilusão das escolhas. A tragédia grega já nos ensinara dessa ilusão com Édipo. Não aprendemos. Platão em seu diálogo “O Banquete” também quis nos ensinar que as metades perfeitas nunca se encontrariam. O amor é um não se encontrar. O poetinha diria que a vida seria a “arte do encontro, apesar de tantos desencontros”. Como pudemos nos perder assim com tantos bons conselhos?

Os labirintos do tempo e do amor guiam a narrativa de dois jovens que namoram há um tempo, dois anos. Contudo, problemas atinentes a relacionamentos aparecem. Kim Ki-Duk mostra isso. Mas gostaríamos de propor um olhar mais vertical às causas dos problemas. Parece que um passo atrás é importante nessa questão. Quando Seh-Hee (Park Ji-Yeon) inicia uma crise de ciúmes em relação ao namorado Ji-Woo (Ha Jung-Woo) abre-se um mote que não pode ser deixado de lado no filme. Ora, a questão do ciúme aqui figura como uma abertura ou uma evidenciação de um problema constante em nossos dias. O ciúme da garota vem fundado em uma fraqueza de si. Ou seja, o desconhecimento de si e a vida vivida sem reflexão talvez sejam as primeiras questões. Pois o labirinto que é o outro não se nos dá sem suas próprias lacunas. Assim são os labirintos. Assim também os humanos. Os encontros são, em verdade, sorte e ventura, e, portanto, amor. Mas Shakespeare já nos ensinara: “beijos não são contratos”. Nesse sentido, perder-se no outro seria nossa tragédia, posto que condição de nosso próprio estar no mundo.

No entanto, esse outro que nos conduz ao labirinto é também, por suposto, nosso local de encontro. Encontramos-nos conosco mesmo quando o outro nos toca. Ele nos revela a nós mesmos. Parece que um desconhecimento de si, uma ausência de sentido no existir, ou para falar com Heidegger, uma vida inautêntica, são os pontos cardeais dos problemas de relacionantes que não entendem a finitude da existência, do tempo e do amor. Labirintos que desembocam na morte. A existência alienada pode causar esse tipo de problema.

O filme mostra essa faceta, quando depois de uma briga por ciúmes a moça resolve fazer uma plástica na face para tornar-se mais atraente ao namorado, que ele supunha, depois de um tempo, não mais sentia-se interessado por ela. Aqui a questão do amor e do tempo. Mas ainda, o problema do título: o amor contra a passagem do tempo. Ora, o amor vive fora do tempo? Esses deuses não podem habitar o mesmo Hades? O amor tem prazo de validade? O amor é infinito? Há um amor ou amores? Tempo ou tempos? O tempo do eu é o mesmo tempo do outro? É possível fundir o tempo em um só? O amor seria então fundir-se no tempo? Criar o tempo é amar? O amor é cria do tempo? Existe amor à primeira vista? Ou apenas a prazo?

Dentro dessa perspectiva do tempo e do amor, o filme insere uma discussão sobre a superficialidade do cuidado estético nos dias atuais. Ora, quando a namorada muda o rosto e eles se reencontram, o namorado não a reconhece. Daí iniciamos outra viagem por dentro do labirinto que nos conduz à pergunta: de onde nasce o amor? Qual seu tempo? E ainda, nos deixa a impressão clara de que fantasia, desejo, carne e amor, apesar de instâncias que podem conviver, estão longe de se confundir. Talvez esse seja um dos principais problemas contemporâneos mostrados no filme. A confusão entre forma e conteúdo. A ilusão de que a mudança da forma implica no alcance do conteúdo. Nesse sentido, ao mudar seu rosto, a moça perde-se de si. Aliás, parece que nunca houve um saber de si. A metáfora da mudança da face estaria aliada também à liquidez de que nos fala Bauman. Muda-se o rosto. A pele. A cor. Dos olhos. Do cabelo. Do espelho e da casa. O que não se pode mudar é o tempo. O amor. Labirintos de tragédia. O outro nos interpela por debaixo da pele. Talvez o  amor esteja naquilo que não se vê. Enquanto Seh-Hee (Park Ji-Yeon) supôs a beleza como maneira de manter o amor, perdeu-se de si, logo, perdeu seu namorado. Ele, ao descobrir que a namorada era outra e a mesma, também resolve mudar sua face. Talvez para se encontrar. Talvez para entender sua namorada. A correnteza do tempo já se havia passado. O ontem é longe demais pra ser revisitado. Quando chegar será outro. Os labirintos não permitem retorno. Amar é sempre salto, se hesitar, não amou.

 

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