O cinema a serviço da propaganda?

A câmera quase estável acompanha um carro estacionando. Ao aproximar-se do carro, a câmera chega mais perto, em um zoom, e enquadra o personagem em um close. Vemos então que este representa um repórter, que estaciona e desce do carro falando diretamente com a câmera. Esse movimento pode ser interpretado de duas formas: a) como um recurso de função conativa – nome relacionado à linguagem –; b) uma quebra do pacto ficcional (o que sustenta o conceito de ficção, que não é verdade nem mentira: sabemos que uma novela é novela e não a vida real, por exemplo). O personagem segue falando, entra em uma loja com o microfone em mãos e acaba a cena com um corte seco.

Para o primeiro ponto de interpretação: função conativa é quando, no discurso, fazemos menção a um interlocutor, a um ouvinte, como um você, ou tu. Ao falar diretamente com a câmera, o personagem (num recurso já antigo que os vanguardistas dos anos 60 nos ensinaram) indica que fala conosco, que assistimos à imagem. Esse tipo de recurso é amplamente usado em propagandas, quando o verbo conjugado no imperativo como compre, veja isto, etc. visam seduzir o telespectador a seus fins, como comprar determinado produto ou acreditar em tal verdade – aspecto importante para uma conjuntura de fake news. Então, há um claro direcionamento da mensagem passada pelas imagens: há um interlocutor certo, que somos nós, e essa voz materializada na imagem visa nos contar uma verdade e pede que acreditemos. Isso é a função conativa aplicada ao cinema.

O segundo tem a ver com uma coisa que na literatura de livro aconteceu no século 19, mas no cinema, nosso assunto aqui, se deu nos seus inícios, as primeiras décadas do século 20. Lá, quando os telespectadores viam uma imagem em movimento de um trem que parecia que ia os atropelar, não conseguiam entender aquilo como ficção, algo que não está no mundo real, é só imagem, mas pensavam que havia de fato um trem que ia matar a todos os espectadores de tal cinema. Quanto a isso muitos filmes brincaram com esse conceito, a saber Noite neurótico, noiva nervosa, Holy Motors, Persona, Dogville, para ficar em alguns grandes e relativamente conhecidos.

Muito bem, a cena inicial retratada sinteticamente no início é na verdade uma matéria de um jornal da RBS – RS, afiliada da Rede Globo. Não se trata de filme, mas de telejornal. Me esqueci de dizer que a cena é toda gravada em plano-sequência, sem cortes em boa parte do “curta”, mostrando habilidade na condução da câmera. Está a propaganda se sofisticando esteticamente e aumentando seu poder de convicção via imagem? Está o cinema aplicando fórmulas da propaganda e se tornando mercadoria? Claro que estas são perguntas generalizantes são provocativas e não significam a totalidade do cinema. Servem não para esgotar o debate, mas para fomentar os pensamentos acerca da sétima arte em consonância com o mundo em que vivemos.

Rodrigo Mendes

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