O tempo no filme ‘La Giovenezza’ de Paolo Sorrentino

As dimensões do tempo. Quantos lados tem o tempo? Haveria um local fora do tempo? Como Sísifo, haverá alguém que tenha experimentando o tempo assim de maneira tão cruel? Enquanto interrogação, talvez o tempo seja mesmo a nossa própria condição de estada no mundo. “O ser é tempo” – dá-se. Enquanto fruição, o relógio tilinta sob a pele e as gotas de suor – rugas e desamor inscritos ali. Seria a ideia de Nietzsche, seu “eterno retorno”, esse local niilista, um bom aparador para pensar o tempo? Sabemos que ontens, amanhãs e tardes são conceitos que de objetivos têm apenas os calendários. A lógica de Kronos, essa nossa morte anunciada em segundos. Esse arremedo de vida que são as agendas. Não seria isso a asfixia do tempo presente? Tanto já cantou e disse sobre o tempo.  Chamaram-no “rei”. Até o Raul Seixas: “o hoje é apenas um furo no futuro, por onde o passado começa a jorrar” – mesmo Agostinho rendeu-se à impossibilidade de dizer acerca dele. Bom, depois da física quântica, talvez seja a hora de repensar essa coisa, o tempo.

No filme La Giovenezza, de Paolo Sorrentino, observamos a todo momento essa questão sendo colocada. Dois amigos idosos, um cineasta ainda em ação, Harvey Keitel, o outro, um maestro aposentado, Michael Caine, encontram-se em um hotel nas férias, e o filme, além de um cenário exuberante, evidencia questões que, parece, tornam-se mais latentes ao fim da vida. Contudo, importa questionar acerca de alguns pontos importantes.  O primeiro deles seria pensarmos a própria relação dos personagens com o tempo. O maestro, notadamente metódico, interpreta essa saída de cena como algo que lhe ocorre naturalmente.  Assim como uma orquestra que tem início, meio e fim. Porém, seria possível ao humano essa previsão? A matemática da música que ele seguia seria possível a  vida? Qual a distância da arte com o tempo da vida? Enquanto esteve a cuidar de sua carreira, isso se torna claro na fala da filha, descuidou do tempo da jovem. Há tempo sem arte? O próprio Sócrates diria que uma vida sem reflexão não valeria a pena. Quiçá uma vida sem arte. A arte do pai fez a filha sair de cena. O caminho para alcançar a nota perfeita talvez seja o amor. Amar seria, portanto, arte. Assim, introduzimos outra questão na prosa, qual seja, a do amor que inaugura o tempo.  Parece que ao fim isso fica evidente.

O cineasta estava a dirigir aquilo que chamou seu testamento. Um filme que seria sua despedida. Antes disso preciso dizer, havia entre os dois amigos uma velha querela filosófica: um racional, o outro, emocional. Voltaremos a isso. Mas como estava a dizer, havia no cineasta a verve de um jovem que entendia a vida como essa incerteza que vem a partir das emoções. Seria aí um duelo entre Apolo e Dionísio. A racionalidade de uma forma de vida mostrada nas ações do maestro que queria sair de cena. A virilidade do cineasta que queria experimentar a emoção até o fim. De um lado um fim monótono e previsto, do outro, uma reinvenção de si.

É ainda deveras interessante, um filme estrelado por dois atores em idade avançada, e intitulado “juventude”. Nessa dimensão, quase sem querer, chegamos onde pretendíamos. Ora, em um tempo hedonista como o de “agoras”, como vivemos, qual seria a peça que o filme queria nos pregar? Talvez nenhuma, talvez evidenciar vida para além da juventude.  Talvez uma ode à idade mais entardada? Parece-nos que não seria simples assim. Ora, o talvez, encerre aqui a possibilidade de dizer acerca destas questões, posto que o dizer da juventude talvez não estivesse na beleza da miss universo que aparece por ali. E é importante pensar a beleza nestes termos. Ora, beleza e tempo também se fundem. Haveria beleza apenas na juventude? Beleza e juventude são questões sinônimas? A beleza da velhice é menos bela? Haveria o tempo do belo? Quando há o efeito do tempo, a beleza se esvai? Por que um filme sobre juventude encenado por duas pessoas em idade avançada?  Ou erramos, e ali está o dizer: arte infinita, vida finita? Porém, se beleza é arte, há ali então a mostração de que o artista esvai e a obra permanece bela? E Dorian Gray?

Conversar sobre o tempo é também jeito de nos desvencilharmos de amarras inventadas. Queremos dizer que a idade avançada entrega uma espécie de libertação. Mas sempre há dimensões várias.  Liberta-se, por exemplo, de buscar cacos que já ficaram no caminho e que na juventude não queremos deixar para trás. Talvez a idade avançada ensine que na derrota há uma vitória.  Mesmo que escondida no tempo. Ganhamos vida enquanto perdemos o tempo?  Dissemos que o maestro havia construído a maneira de viver seu excesso de tempo.  O cineasta não queria ir. Por isso, mais uma emoção. Cada um a experimentar o tempo.  E o tempo a experimentá-los.  Feito amantes, lutavam a favor e contra ao mesmo tempo.  Estar no tempo é lutar com ele. Enquanto invadimos o tempo, ele, ou ela, nos invade. Talvez haja “a tempo”. Seria esse o antídoto? “A tempo” enquanto fêmea que inspira e atiça. Enquanto recebe e umidifica. A vulva enquanto tempo. Seria assim que porventura nasceria salvação? “A tempo” é sem tempo e também ainda no tempo esperado. Estar “a tempo”, portanto, seria esse estado de fêmea, que ama e do mesmo jeito, se esvai enquanto vento que passa. A fêmea estaria para além do tempo. Ela não poderia, portanto, ser dita, daí o filme estrelar-se por homens. “A tempo” seria o local sem tempo da fêmea. Que é e não, mistura-se àquilo que consumia os homens. Não é em vão que a esposa do maestro e a estrela do último filme do cineasta estavam a fundar o tempo dos dois, mesmo que fora dele. Elas não aparecem no filme de maneira direta, senão, ao fim, elas são aquilo que está para antes do tempo. Fundando-o.

O tempo do maestro findara quando sua esposa, a quem havia dedicado suas mais conhecidas obras e quem as interpretava, adoeceu. O tempo dele não estava no relógio.  A emoção era tanta que ele sucumbiu. Não queria mais reger.  O cineasta, vivedor do tempo da emoção, ao fim foi racional, sem sua estrela principal, deixou a vida em ato de extrema racionalidade. O suicídio é inaugurador de tempo.  Enquanto a razão do maestro foi furtada pelo amor da esposa doente. A emoção do cineasta quedou-se à razão de não cumprir seu último ato. Que não foi na tela do cinema. Cada um à sua maneira enganou o tempo. Os dois, apaixonados, também foram enganados.  Dionísio foi Apolo. Pois filme tem que chegar ao fim. Vida não. Assim, só há juventude enquanto de dentro. Pra fora é só relógio. Tempo sem amação.

 

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