‘Os sentidos do amor’, longa-metragem de David Mackenzie

“This is the end My only friend, the end”. Esses versos compõem uma das canções mais verdadeiras produzidas pelo rock. Enquanto espiamos o tempo, o vapor da morte vai inebriando os sentidos, até toma-los: incolor, inodora, insípida, apenas com dor e amor. Resta ao humano a esperança, que também vai sendo consumida. Por vezes rápido, outras, lentamente. Assim como são experimentadas as dores de amor, velozes e demoradas, misturadas aos sonhos e à esperança de que irá acabar, só para amar de novo. Sentir a vida, portanto, deve ser uma espécie de luta contra o vento. Ele vai, passa, nos muda a cor, traz tempestade e calmaria depois do gozo. A tragédia se expõe na fragilidade do nosso “contrato social”. Saramago já expôs essa questão em seu ensaio sobre a cegueira branca. Assim, seu conterrâneo põe a nu essa questão do humano: “Cadáver adiado que procria?”

Não haverá respostas. Apenas a ventura do fim. The end. De novo o terror que Camus diria ser a única filosofia que interessa. A morte, essa nossa companheira, amante do fim para os que têm pouca imaginação e fé em sei lá o quê. No meu mundo a gente morre um monte de vezes. Basta transar com a pessoa que ama, morte na certa!

Em “Os sentidos do amor” de David Mackenzie também não há respostas. Ademais, com o fim tudo já está dado. No entanto, a maneira com isso se dá fica interessante, pois, na medida em que as personagens vão perdendo os sentidos, mais do que o prenúncio claro do fim, aparece ali um retrato claro dos tempos em que vivemos. Momento em que o excesso é a regra. Nesse sentido o excesso de cheiros, o excesso de ruídos, de sons, de tons, faz com que nos tornemos sem sensibilidade. A beleza excessiva de Narciso é morte. O fim do humano é tornar-se insensível ao outro. E assim, da mesma maneira que o fim se apresenta para a perda dos sentidos, ele também se dá de maneira espectral com o excesso de excitação. Só haverá um horizonte cheiroso se houver uma noite. O dia infinito. A música que nunca desliga cala o acorde de saudade. O gozo sem fim cala a necessidade da imaginação, da masturbação. O outro não há, posto que mortificado pelo tempo que não dura. Silente pelo excesso de maquilagem que camufla o tempo, criando um outro, artificial e ao mesmo tempo parado. O sol que não se põe queima a retina. Não há lágrima que escorra. Os rios secam e o mar não transa mais. O tempo precisa parar. The end. Paradoxalmente, até o fim foi forjado, não há mais local de chegada. O gerúndio é o tempo em que conjugamos nossa existência sonâmbula.

Talvez seja interessante ser mais ameno. Esse filme traz a palavra amor no título. E ainda, diz que o amor tem sentidos. Então ele se expressa assim de maneira diversa. O amor seria um sentido humano? Sentir, portanto, seria sentir amor. Os sentidos são aquilo que nos conduzem ao outro. Nossa tragédia. Assim, quando os sentidos se esvaem, ao mesmo tempo, o humano que está no mundo, pelo outro, torna-se um não ser. Porém, ao contrário do fim, aliás, ali mesmo onde o fim se anuncia, seja ele qual for, seja qual sentido for. Ali na curva do esquecimento, onde a esquina mostra só o que não há, habita a invenção. Quando o sentido se perde, e sem o peso da memória que neles encerra uma espécie do que se chama história, talvez aí more o sentido: amar é invenção. E tempo só é se amar. E é exatamente assim que o humano se coloca no mundo. A cada derrota de um sentido, outro vem, feito invenção. Assim, o fim do humano é ele mesmo, seu início. Nascemos do amor, por ele somos conduzidos, mortos, machucados, porém, para ele voltaremos. Do pó viemos, para ele voltaremos.

Enquanto o mundo se destrói lá fora, o amor brota dentro do apartamento de Susan (Eva Green).  Michael (Ewan McGregor) irá fazer mais um prato. A delícia da vida é na mistura. O amor o é. Onde rasteja o tempo do humano, rumo ao fim, o tempo do amor nasce. Então é assim, para amar é preciso olhar o fim de frente. Desprendido dos sentidos, preso por eles. Sabe-se que há um tempo sem fim: o tempo do amor. Local de nascer e morrer: “misturadamente”.

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