OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Olvido’, de Cildo Meireles


Cildo Meireles, Olvido, instalação (aproximadamente 6000 cédulas de dinheiro de países do continente americano, carvão vegetal, 3 toneladas de ossos, tinta, aproximadamente 70.000 velas de parafina), 4,6 x 8 m, 1987-1989. Coleção do artista.

Na retrospectiva dos mais de 50 anos de carreira de Cildo Meireles – o artista brasileiro vivo de maior visibilidade no exterior, acumulando no currículo exposições de peso, tal como uma solo na Tate, em Londres – no SESC Pompeia, tive a oportunidade de conhecer algumas das obras icônicas do carioca.

A instalação Olvido sobre a qual escolhi escrever na coluna de hoje é uma delas.

“Olvido”, o falso cognato que parece remeter a palavra “ouvido”, em espanhol, na verdade, significa “esquecimento”, um título adequado à uma obra que faz alusão ao período colonial e seus massacres frequentemente esquecidos.

Assim, o que vemos nessa instalação é uma cabana indígena da América do Norte composta por notas de dinheiro de países do continente americano, os quais foram colonizados pelos europeus e tiveram suas populações indígenas escravizadas e massacradas. Em volta da tenda, uma tonelada de ossos bovinos – tíbias e fêmures – são contidos por um círculo de 70.000 velas brancas, que, não são coladas ou presas de alguma maneira, mas foram somente colocadas umas sobre as outras. De dentro da tenda, onde há carvão, provém o som do que parece ser uma motosserra.

O dinheiro faz alusão às riquezas obtidas por meio da exploração das populações indígenas e suas terras, assim como ao capitalismo, enquanto que as velas lembram o papel da Igreja na colonização, a conversão forçada dos habitantes locais e a condenação da sua cultura e de seus valores. Tanto as velas – usadas em celebrações fúnebre -, quanto os ossos e o som violento da motosserra são ligados à ideia de morte, ou seja, o massacre gerado por esse sistema. O carvão me parece ser ligado ao desmatamento, afinal, a motosserra que derruba as árvores – árvores que são usadas na fabricação de carvão e papel, do qual é feito o dinheiro, – liberando assim espaço para o pasto necessário à agropecuária. Dessa forma, o artista liga a questão colonial a questões atuais, tais como o desmatamento e problemas que existem na nossa sociedade e vêm desde a época colonial.

Olvido tem estreita relação com outra instalação, também mostrada na exposição Entrevendo, tanto no tema quanto nos materiais usados. Missões: Como construir catedrais apresenta uma piscina de moedas de um centavo – moeda brasileira que não está mais em circulação – com uma haste formada de hóstias que seguram um teto com os mesmo ossos vistos em Olvido, o todo envolto por tule negro. Ambas as instalações foram inspiradas por uma visita do artista aos pampas do sul do Brasil, onde a cidade de São José das Missões abriga uma igreja em ruínas que atesta o esforço da Igreja de converter as populações do Brasil colonizado. O artista se impressionou ao descobrir que os bois que ocupam os pampas não existiam por lá no passado, mas foram levados, justamente, pelos missionários.


Cildo Meireles, Missão/Missões (Como construir catedrais), instalação (920.000 moedas, 900 hóstias de comunhão, estrutura de metal, 2300 ossos, tule preto), 7 m, 1987-2019. Coleção do artista.

Cildo Meireles propõe com frequência obras que, além de fazer o espectador refletir, também o faz experimentar através dos sentidos e das sensações. Se pensarmos no som da motosserra (audição), no visual impactante da obra (visão) e no forte odor exalado pelos ossos (olfato) podemos perceber como o artista teve a intenção de despertar esses sentidos três sentidos.

Outra importante característica de seu trabalho, também bastante clara nessa instalação, é a desconstrução do uso de objetos cotidianos, uma herança do dadaísmo e do ready-made.

 

Bibliografia/Links:

Diego Matos, Júlia Rebouças, Entrevendo. Cildo Meireles (Catálogo de exposição de 26 de setembro de 2019 a 02 de fevereiro de 2020, SESC Pompeia, São Paulo), São Paulo, SESC, 2019.

Clara Balbi, “Cildo Meireles se diz com sangue nos olhos décadas após última mostra de peso” in Folha Ilustrada, [Online]. Consultado em 21/10/2019.
https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/cildo-meireles-se-diz-com-sangue-nos-olhos-decadas-apos-ultima-mostra-de-peso.shtml

José Henrique Fabre Rolim, “Incursão pela obra de Cildo Meireles” in Arte Ref, [Online]. Consultado em 21/10/2019.
https://arteref.com/galerias-e-eventos/incursao-pela-obra-de-cildo-meireles/

Felipe Molitor, “Um roteiro por “Entrevendo” de Cildo Meireles” in SP-Arte, [Online]. Consultado em 21/10/2019.
https://www.sp-arte.com/noticias/um-roteiro-por-entrevendo-de-cildo-meireles/

“Cildo Meireles” in Enciclopédia Itaú Cultural, [Online]. Consultado em 21/10/2019.
http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa10593/cildo-meireles

Fontes das imagens:

https://www.sp-arte.com/noticias/um-roteiro-por-entrevendo-de-cildo-meireles/

https://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,cildo-meireles-abre-maior-retrospectiva-de-seu-acervo,70003023164

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra6314/missoes-como-construir-catedrais 

 

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