Um jogo de tênis pode ser um filme?

“Acompanho” tênis há um tempo, embora sempre de maneira esporádica, desde o heptacampeonato de Roger Federer em Wimbledon. Assisto quando sei que está rolando e se consigo assistir, já que não passa na TV aberta. Esse ano, reparando em algumas partidas no mesmo Wimbledon e, recentemente, no Masters 1000, fiquei pensando na possibilidade de aqueles trejeitos, os enquadramentos fotográficos da partida e os procedimentos dos jogadores em quadra poderiam ser encarados como uma atuação ou representação, típica de filmes. Isso pode ser bom e ruim, e vou explicar isso depois de descrever um pouco do que vi.

Em uma partida entrrepree tenistas médios (então sem os grandes Federer, Nadal ou Djokovic), havia um que estava com a bola na mão para ganhar uma parte do jogo (salve engano um set, encaminhando assim uma possível vitória), mas estava visivelmente nervoso e começou a errar as jogadas. Mérito também do outro. Durante um game (parte que constitui os sets) ele perdeu uns 3 ou 4 pontos seguidos. Sempre que errava a câmera enquadrava-o em um close, e víamos então ele sorrir e fazer um trejeito com a cabeça, como querendo de dizer “puts, estava na minha mão, mas tá, vamos lá que tudo está dominado” – o sorriso meio irônico meio nervoso dava impressão de uma certeza ambígua. Um outro jogador em uma partida recente que assisti uns pedaços fazia algo parecido sempre que terminava uma jogada (que com freqüência errava): ele dava socos no ar e falava e gesticulava sozinho, como quem diz a si mesmo “seu imbecil, a jogada estava na mão, fácil de converter, e tu erra!”. Neste caso o nervosismo era porque tinha que arrebatar um set contra ninguém menos que Djokovic, tinha que ter o protagonismo que sua condição de coadjuvante não lhe permitia.

Bem, esta descrição, junto a uma performance da torcida que o repreendeu quando ele jogou, irritado, uma bolinha para o alto e em direção aos torcedores, parece indicar uma certa reificação de papéis sociais (os jeitos das pessoas viram como que robóticos, objetais, obedecendo a procedimentos pré-estabelecidos: quando o jogador faz isso, nós – torcida – fazemos isto; quando virá um close em mim – jogador – eu faço assim e assado). Esta seria a parte ruim de ser um filme; seria um mau filme, em que já sabemos o que acontecerá no final, porque se organiza a partir de uma estrutura já dada, banal, igual à sempre.

A boa seria o que descreverei agora, que corresponderia a uma experiência histórica representada no jogo, tal como um bom filme ou qualquer obra de arte de qualidade. O tênis, e consequentemente os tenistas, parecem se organizar por uma tradição histórica consolidada, inclusive para sua natureza aristocrática – quase não há negros, se é que há, na arquibancada; há um imperativo do silêncio para o torcedor; o jogador se porta como uma figura ilustre, cujos gandulas e assistentes devem levar a toalha e as bolas quase que sem olhar para os jogadores, ou devem permanecer parados ao seu lado até que o jogador, ou a vossa excelência fosse melhor chamar, se digne a virar e pegar a toalha ou a bolinha. Lembra os filmes que mostram reis e rainhas e o tratamento dado a seus serviçais: entrar e sair do cômodo sem dar às costas aos reis, não olhar nos olhos, atender a qualquer pedido, mesmo que humilhante, das figuras reais. Junto a isso, que de fato é uma representação autêntica de um grupo social, há códigos de conduta a seguir: se por acaso o jogador rebate e a bolinha toca na rede e cai, fazendo com que este ganhe o ponto, se pede desculpas por parecer uma jogada desleal, pois é impossível que o adversário alcance a bolinha nessas condições; outra coisa é reconhecer quando a jogada do outro foi boa, em sinal de respeito e reconhecimento com a integridade do sujeito oposto. Tudo isto é feito de forma muito contida, discreta, como pede o figurino.

Claro que as duas hipóteses podem se confirmar ou não. Há muito de representação pura e simples, mas também de experiência histórica nos esportes, e com o tênis não é diferente. É de ser a recorrência de atitudes nos esportes e a recorrência ou não de adaptações cinematográficas direta ou indiretamente ligadas a seu respectivo mundo.

Rodrigo Mendes

 

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