É só o amor que inventa obra de arte: O filme ‘Cópia Fiel’ de Abbas Kiarostami

“porque és o avesso, o avesso  do avesso do avesso”

 

Platão nos diria que acessamos apenas cópias. Que, em verdade, a verdade estaria em um mundo ideal. Os arquétipos existem a priori e apenas encontramos aquilo que se chama cópia. O humano experimenta, no mundo táctil, apenas meras cópias do ideal. O seu “Mito da caverna” dá conta dessa dimensão na qual o humano acessaria apenas cópias, e o conhecimento estaria, portanto, nesta dimensão abstrata e conceitual. As sensações não forneceriam o verdadeiro saber, da ordem do abstrato.

Em “Cópia Fiel” de Abbas Kiarostami, apesar de se dar em outros termos, ainda temos a problemática posta por Platão. Talvez a questão da obra de arte genuína e da cópia estivesse mais problematizada se estivermos atentos ao livro X d’A República de Platão onde lemos que os artistas estão afastados da verdade, uma vez que aquele que pinta um objeto esculpido por um obreiro estaria três vezes afastado da verdade: ora, há apenas um ideal, que existe enquanto abstração, e existe o trabalho do artesão, no entanto, aquilo que está na tela pintado seria a terceira versão da verdade. Assim, poderíamos iniciar nossa prosa com a seguinte questão: A discussão sobre o valor das cópias estaria ainda preso a um pensamento que separa o mundo sensível do mundo inteligível?

Quando miramos Juliette Binoche (Elle) a caminhar entre obras de arte e, ao mesmo tempo, caminhar entre obras de arte na Itália, mais precisamente, na Toscana. Quando miramos Elle a colorir seus lábios de vermelho. Quando na mesma cena Binoche se declara em francês, esbraveja em inglês e falseia em uma conversa trivial em italiano. Quando a Toscana mostra suas cores ao entardecer. Ali onde os vinhos são sempre bons. Naquele local em que há uma árvore dourada e onde o amor fica mais forte e se torna para sempre. Naquele momento em que o local em que se viveu a lua de mel é revisitado. Ali onde nasce tempo novo. Exatamente no local em que o filósofo escritor deixa de ser um personagem. Mesmo ali onde a Elle torna-se Binoche. Quando a fã se torna a esposa. No exato momento em que ficção e realidade confundem-se. Nesse exato instante, quando o sol se põe e os casais exaustos comemoram a ficção do casamento. Quando o sino badala o horário da Toscana. Aquele tempo que leva William Shimell (James Miller) ao presente de seu livro e ao mesmo tempo ao passado presente de sua vida de casado. Ali onde a arte despida de distanciamentos torna-se real. Exatamente porque o que inspira o livro não é nada menos surpreendente do que a vida real. Não há melhor maneira de dizer do real do que através da arte, que por uma espécie de mágica, acabam por se confundir. Talvez seja o vinho. Talvez o amor.

Assim, é importante pensarmos que Platão e sua teoria de dois mundos precisa de alguma maneira ser discutida. Teríamos o mundo das obras genuínas, e as cópias, meras imitações, falsas. O que determinaria a sentido da vida seria o selo dado pelas instituições?  Não se trata, por certo, de discutir o gênio, porém, o gênio está no mundo. A imitação é, como nos ensina o próprio Platão, o mundo. Estaríamos libertos do panteão divino a partir das imitações? Seria mentira a estória inventada a partir de uma lenda genuína? E os atos de fala que constituem a realidade? Não estamos no mundo a partir da linguagem? Se sim, iniciamos na Babel esse falseamento e nosso destino seria o desencontro? Estaria certo o poetinha ao dizer que viver é a arte do encontrar apesar de tanto desencontrar? Estaria o falseador a difundir a democracia da arte? Benjamin falaria da aura da obra genuína. Mas o que é a aura diante do gozo estético proporcionado por uma cópia? Quem diz como gozar? Há uma crítica do gozo? Posições e trejeitos?…

Elle viveu seu amor pelo escritor de quem era fã. Basta assistir ao filme. Rememorou um passado inventado. Haveria uma ordem para as criações como queria Platão? Se sim, a obra genuína estaria no mundo das ideias. E assim, teríamos apenas um “copiador” mais ou menos próximo da verdade. Se não quisermos aceitar mais Platão, talvez possamos ser mais democráticos e a arte deixaria de ser um mero local de contemplação para ser um devir de criação dentro do qual sempre nasce o amor, sempre conjunto. Longe da prisão da fidelidade, que não pode guiar onde habita a imaginação, que por sua vez é amor, e arte. Mesmo que infiel. Mesmo que copiada.

 

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