O amor proibido no longa ‘Loving Annabelle’

O diálogo platônico O Banquete, por certo, ainda é uma obra que diz do amor dentro de uma certa perspectiva de mundo. Quando os andróginos são partidos ao meio e saem à deriva, a procurar sua metade, nascedouro de uma ilusão, de uma “ideia”, fica evidenciado o que se chama “amor platônico”. Por certo, uma ótima metáfora para dizer de uma idea inalcançável. No entanto, talvez a figura do amor platônico fosse mais interessante do que uma nova construção sobre o amor que nasce a partir do cristianismo, sua relação enganosa com o casamento e uma aliança com a propriedade e com a reprodução. Os rumos do amor, desde que amor, são mesmo uma incógnita que, pensamos, nem Platão, tampouco o cristianismo, puderam explicar. Mas desde estes tempos e, singularmente, dentro do pensamento moderno, nossa sanha pelos conceitos, por uma certa ordem “racional”, quis dizer da existência humana, e, por certo, do amor – falharam. Falharam por uma contradctio in terminus, ou seja, aquilo que desbrava o humano, desabrocha e faz flor sem sequer haver plantio, aquilo que desata, une e mata. Que é contraditório, vagar e correnteza, outono e verão, pra depois ser inverno também. Esses paradoxos que a razão quer disfarçar. Esse desacerto que as instituições querem moldar, toda a ânsia e languidez. Todo o quentume da cama e toda a geleira da solidão – também são amor. Chegada e partida. Todas mesmas faces de amar. Não haveria por certo, um dito que encerrasse essa travessia. O amor é estar atravessado. Ao mesmo tempo em que faz jorrar sangue, faz também ir além de si. Na travessia é a estada do amor.

Logo, dizer do amor, é dizer do impossível dentro da linguagem racionalizada que herdamos de uma certa fase grega. Ora, amar é caminhar e receber ao mesmo tempo. O samba nos diz né: “fica sempre um cheiro de rosa nas mãos de quem oferece flores”. Assim, se amar é doação, lançamento e atravessamento, sempre instantâneos, a ordem perde aí sua função. O que vem primeiro, doar ou receber, não está em nossas mãos. Logo, se não é da ordem da razão, se o amor não é da ordem do cálculo e da previsão, é prudente ouvir o poetinha: “a vida é a arte do encontro, apesar de haver tanto desencontro pela vida”. Encontro e desencontro, também faces dessa mesma moeda. Daí, como poderia o humano, esse móbil do amor, peça de um tabuleiro, ditar o que é e como amar?

O romance entre uma professora de uma escola católica com uma aluna, seria um bom terreno para olharmos essa procissão. Em Loving Annabelle de Katherine Brooks, Diane Gaidry é uma professora, Simone, que vive uma travessia com sua aluna Annabelle, interpretada por Erin Kelly. A discussão que iniciamos está toda ali esboçada. Uma escola católica com interdições a todo tipo de cor que não aquelas pré determinadas e uma reprodução de valores cristãos que vê-se a todo tempo escorrer pelos dedos ante a umidade plural do amor.

Escorre poesia pelas aulas da professora. Essa relação de hierarquia e respeito é outra contradição antes as pontadas que anunciamos acima. Não há determinações no amor, ele se esquiva da ordem, impõe a sua própria sintonia, logo, a ideia de hierarquia resta mais um caco após o olhar lançado. O amor impõe sua hierarquia. É, diríamos, anárquico, sem um início, meio ou fim. A professora é tomada pelo amor. A hierarquia, portanto, perde para o encanto. A questão de gênero que está ali é mais uma vírgula dentro da perspectiva que estamos a olhar o filme. O amor foi lança, fez jorrar ali a música de Annabelle – não há estado que se porte contra o amor. Tampouco uma construção cultural de gênero.

Entanto, poder-se-ia argumentar que ao final do filme a professora é punida. Perde o cargo e parece, é presa. Bom, talvez estejamos onde gostaríamos desde o início. Quem disse que amor se resolve como negócios em um perdedor e um ganhador? E ainda, o tempo do amor, seria ele o mesmo que mediamos em relógios? Um momento daquela lança, aquele instante irrevogável, não seria eterno?

“Que seja eterno enquanto dure” – ah poetinha! A noite das duas juntas após a canção de Annabelle não seria a comprovação de que há um tempo do amor? A lembrança do amor não é amor? O choro que é sangue derramado não seria amor? Qual a possibilidade de encontrar precisão no amor? “Amar não é preciso!” Quando um amor é interditado, seja lá por qual motivo: perdem apenas as pessoas envolvidas ou perde o mundo? Há amadores ou jogadores? O que mais precisa ser dito e escrito para mostrar que o amor não é da ordem da física moderna? O mundo torna-se maior quando alguém ama. Não há gênero que dê conta. O amor chega na fresta do conceito. Ali onde não é possível, brota. Entre o medo imposto. “No espaço entre o que é certo e errado”, ali espera o amor. Cego e vidente. Inventador de mundo. Distante do que se alcunha lógica. Avesso. Ali, professoras, alunas e humanas habitam, sangram, morrem e vivem, na morada do amor:

“Amor é um fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.”

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