As pandemias no cinema

Desde o dia 31 de dezembro do ano passado vivemos uma crise mundial sem precedentes. Na verdade dia 31 começou o que mais ou menos na virada de janeiro a fevereiro tomaria conta dos noticiários ao redor do mundo; também não é verdade que seja sem precedentes, já que temos a peste negra na história da humanidade. Contudo, esta foi na Idade Média, não num mundo globalizado como o nosso, que é palco da disseminação do novo coronavírus, que da China para o globo já matou milhares de pessoas.

O avanço rápido, mesmo com a baixa letalidade, tem assustado o mundo, que além do vírus tem que enfrentar os posicionamentos equivocados – para dizer o mínimo – de chefes de nações, como Donald Trump, López Obrador, Jair Bolsonaro e aí por diante. Desta conjuntura surgiu a ideia de escrever um texto pensando o que nosso presente suscita de lembrança em se tratando de sétima arte.

O filme que lembrei primeiro é O sétimo selo, de Ingmar Bergman, de 1957. Aqui a pandemia é central – a peste negra – que gera o conflito interno do protagonista, Antonius Block. O tema da perda da fé é recorrente na obra bergmaniana; aqui o dilema da crença e descrença é desencadeado pela pandemia da peste negra, cujo rastro é visto pelo personagem nos corpos empilhados de mais ou menos um terço da população europeia. Essa constatação material de morte e miséria é contraposta à crença em deus, tensão que permanecerá até o final do filme, passando pelas cenas icônicas do jogo de xadrez com a Morte, decidindo seu futuro.

Do Bergman passamos para o Soderbergh, cujo filme é mais representativo ainda: se trata de Contágio, longa de 2011. (Antes de comentar um pouco um filme vale um aviso: vi este filme na época em que saiu e depois o revi, mas faz muito tempo, então meu juízo crítico certamente está enferrujado e impreciso, mas lá vai o comentário.) Contágio conta a história de um vírus provavelmente oriundo de Hong Kong que se espalha em um avião e vai para o mundo todo. O filme começa no dia 2, fato que nem damos atenção no início, mas que no final, pela montagem, compreende-se. O enredo vai se desenvolvendo, cada vez mais aumenta o número de casos pelo mundo e a busca desesperada por uma cura. São milhares de pessoas infectadas e não se sabe a origem, apenas se especula. Ao final, depois de bastante tempo transcorrido, voltamos ao dia 1 e descobrimos a origem do vírus – salvo engano do morcego.

É impressionante a relação deste último filme com o coronavírus. Não me lembro, contudo, se no filme mostra o comportamento da classe política e econômica frente ao vírus. Na nossa dura realidade temos visto em muitos países o movimento de antepor a economia à vida. Nada fora do normal no mundo financeirizado e globalizado em que vivemos. Como resposta a isso, não são poucas as iniciativas populares de solidariedade para enfrentar a pandemia, único caminho possível para um mundo melhor.

Rodrigo Mendes

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