OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Hebe, Padroeira da Pauliceia’ de Claudio Tovar


Claudio Tovar, Hebe, Padroeira da Pauliceia, técnica mista (folha de ouro, papel recortado, material reciclado e brocado).

Hebe, Padroeira da Pauliceia é uma das obras da série Ícones Brasileiros e os Santos, criada por Claudio Tovar, que traz personalidades brasileiras, nossos ícones populares, sobretudo da música e das artes cênicas, como santos ortodoxos. A inspiração da iconografia bizantina é vista nas poses e nos gestos das personagens, além do fundo dourado, que nos ícones medievais pretendia colocar a santidade em um espaço atemporal e não-espacial, acima da realidade humana.

Aqui, vemos a saudosa apresentadora Hebe Camargo encarnando a figura da Virgem Maria, como podemos notar pela inscrição à esquerda e à direita de sua cabeça, na qual temos as letras gregas – pois a língua oficial do Império Bizantino era o grego – Μρ Θύ que são as primeiras e últimas letras de Μήτηρ e Θεού (Mētēr tou Theou, em caracteres latinos), palavras que formam um dos epítetos da Virgem – Mãe de Deus – e aparecem de forma abreviada em grande parte das imagens da santa na iconografia bizantina medieval e que continuam a ser usadas nos ícones ortodoxos modernos e contemporâneos.


Virgem com o menino, no Monastério de Hosios Loukas, Grécia.

Esse tipo de inscrição em cima ou em volta da cabeça das personagens era comum não somente em retratos da Virgem Maria, se estendendo a quase todas as figuras representadas, sejam santos ou imperadores e comanditários, no intuito de identificá-las. Em algumas obras da série Ícones Brasileiros e os Santos, o artista explora a mesma ideia, como verificamos na imagem do apresentador de auditório Chacrinha, nascido José Abelardo Barbosa de Medeiros, na qual aparece à sua volta a inscrição “Abelardus Barbozario Chacrinha est” – “Abelardo Barbosa é Chacrinha”, em uma espécie de latinização da frase.

Assim, Hebe é mostrada como a padroeira de São Paulo – a palavra Pauliceia fazendo referência ao título do livro Pauliceia Desvairada, do modernista Mário de Andrade – e se torna um verdadeiro ícone do imaginário brasileiro, transcendendo sua condição humana para se tornar uma lenda.

O uso dos materiais feito pelo artista para criar essas imagens repletas de significado também é interessantíssimo. Há uma mescla de materiais tradicionais, por exemplo, a folha de ouro e prata, sendo a folha de ouro usada para o fundo dos ícones bizantinos medievais; elementos contemporâneos, tal como material reciclado; e pedrarias, que atestam a influência do teatro em sua criação – além de artista, Claudio Tovar também é ator e figurinista premiado.


Elke Maravilha na pose do tipo de ícone da Virgem que a representa orando, chamado em grego de Παναγία, Panagia.


Panagia na Catedral de Santa Sofia, em Kiev, Ucrânia.

Em Hebe, Padroeira da Pauliceia, podemos ver que as mãos e o rosto da apresentadora foram recortados de fotografias; as primeiras, junto ao manto, sendo provenientes de uma pintura religiosa. A auréola foi construída através de pedrarias, destacando a face da retratada, assim como o bordado de suas vestes e a moldura, sendo cada uma das obras decorada com um caixilho que a complementa. Alguns dos outros ícones brasileiros da série possuem elementos que remetem à história da personagem representada, por exemplo, como vemos na imagem de Carmem Miranda, que segura um abacaxi de brocado.

Dessa maneira, através dos quadros e estandartes da série Ícones Brasileiros e os Santos, Claudio Tovar nos traz belíssimas imagens repletas de significados, que falam aos brasileiros por sua conexão com a cultura popular.

Bibliografia/Fontes:

Entrevista com o artista e releases sobre seu trabalho.

Aline PASCHOLATI, “OBRA DE ARTE DA SEMANA: Mosaico da Virgem com o menino no monastério de Hosios Loukas ” in Artrianon. Consultado em 31/03/2020.
https://artrianon.com/2017/05/02/obra-de-arte-da-semana-mosaico-da-virgem-com-o-menino-no-monasterio-de-hosios-loukas/

Tania VELMANS, L’image byzantine ou la transfiguration du réel, Hazan, Paris, 2009.

“O auto de São Francisco, de Ciro Barcelos, estreia no Teatro-D” in Artrianon. Consultado em 31/03/2020.
https://artrianon.com/2020/02/27/o-auto-de-sao-francisco-de-ciro-barcelos-estreia-no-teatro-d/

Fontes das imagens:

Acervo do artista.

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