A “madrasta amarga” de Eça de Queirós: a Universidade de Coimbra

A Universidade era, com efeito, uma grande escola de revolução: – e pela experiência da sua tirania aprenderíamos a detestar todos os tiranos, a irmanar com todos os escravos.

QUEIRÓS, Eça de. Coimbra de Antero. Coimbra: Alma Azul, 2009. p. 15.

A Universidade de Coimbra é a instituição de estudos universitários mais antiga de Portugal e uma das mais antigas do mundo, tendo sido fundada em 1290. Inclusive, foi essa a única instituição universitária que existiu nesse país até 1911, feita exceção por um período de tempo exato de duzentos anos, entre 1559 e 1759, durante os quais conviveu junto com a Universidade de Évora.

Poeticamente empoleirada no topo de um morro, a Universidade, conhecida como “Alta e Sofia”, foi alvo de um famoso processo de antropomorfização em forma de caricatura, realizado pelo artista Rafael Bordalo Pinheiro, no âmbito do seu Álbum das Glórias.

Como se pode apreciar, a representação de Bordalo é bastante autoexplicativa. No entanto, essa ilustração, acompanhada pelas palavras de Ramalho Ortigão sob o pseudônimo de João Ribaixo, poderá ter sido uma fonte de inspiração a partir da qual o escritor Eça de Queirós terá traçado no livro Coimbra de Antero a sua versão em prosa do retrato dessa celebérrima instituição portuguesa. Vale a pena sublinhar, antes de prosseguirmos, que esse volume mencionado consiste em uma edição comemorativa, realizada pela editora Alma Azul, que reproduz na íntegra o texto intitulado “Um génio que era um santo”, o depoimento com o qual Eça de Queirós contribuiu para o volume In memoriam, dedicado ao escritor Antero de Quental.

Passemos agora a analisarmos os excertos do autor d’Os Maias e, para dar-se uma continuidade coerente com o conceito de alma mater do qual se valeram também Bordalo e Ribaixo-Ortigão, começar-se-á com o seguinte fragmento:

A Universidade, que em todas as nações é para os estudantes uma Alma Mater, a mãe criadora, por quem sempre se conserva através da vida um amor filial, era para nós uma madrasta amarga, carrancuda, rabugenta, de quem todo o espírito digno se desejava libertar, rapidamente, desde que lhe tivesse arrancado pela astúcia, pela empenhoca, pela sujeição à “sebenta” esse grau que o Estado, seu cúmplice, tornava a chave das carreiras. (p. 14-15)

É interessante observarmos como – a partir dessa consideração que foi elaborada por um escritor do calibre de Eça de Queirós – a Universidade de Coimbra, que tem sido a instituição de ensino superior mais influente de todo o universo lusófono, afinal, não passasse de uma espécie de entidade interesseira e maligna. Com efeito, já no seu conto Civilização (1892), Eça afirmava ter saído do ventre da sua mãe espiritual, isto é, a Universidade de Coimbra, com uma “maciça e indebastável ignorância de bacharel”. E, curiosamente, ao longo do texto Coimbra de Antero, Eça cita o Candide, obra em que se encontra uma outra referência em que, em tom de sátira, Voltaire fizera alusão aos discutíveis procedimentos que foram adotados pela Universidade de Coimbra em ocasião do terremoto de 1755, que destruíra quase por completo a cidade de Lisboa.

Ora, voltando para o texto de Eça, é certo que essa vetusta instituição portuguesa, assentada na sua austeridade consagrada e ancestral, incutia, segundo o escritor português, um profundo sentimento de angustia nos seus estudantes mais do que de respeito:

Em torno dela [da geração à qual pertencia Eça de Queirós], negra e dura como uma muralha, pesando sobre as almas, estava a Universidade. Por toda essa Coimbra (…) se erguia ela, com suas formas diferentes de comprimir, escurecer as almas. (p.14)

Quem passou por Coimbra – e, especialmente, quem estudou por lá – muito bem poderá identificar-se com essa sensação que, entretanto, poderá não ter sido em tudo idêntica a essa atmosfera opressiva descrita por Eça de Queirós. Contudo, é inegável que, transitando pela apelidada “lusa Atenas”, quase desde qualquer ponto da cidade, é muito provavél cruzar-se com uma das quatro faces da Torre da Universidade.

Como podemos ver, a partir dessa última fotografia, a Torre da Universidade de Coimbra, de fato, ergue-se ocupando um evidente lugar de destaque entre os prédios do conjunto arquitetônico chamado Paços das Escolas, alcançando por conseguinte uma vista privilegiada e dominante sobre a cidade. Neste sentido, cada uma das quatro fachadas da Torre, com o seus correspondentes quadrantes dos relógios, poderá comparar-se com uma figura ciclópica que observa a cada hora os movimentos dos estudantes envolvidos em suas capas negras.

Ora, tendo-se examinado o aspecto mais «físico» da descrição de Eça de Queirós sobre a sua alma mater, vejamos como o escritor português a retrata desde o ponto de vista da postura «moral»:

O seu autoritarismo anulando toda a liberdade e resistência moral; o seu favoritismo, deprimindo, acostumando o homem a temer, a disfarçar, a vergar a espinha; o seu literalismo, representado na horrenda sebenta, na exigência do ipsis verbis, para quem toda a criação intelectual é daninha; (…) a sua negra torre, donde partiam (…) as badaladas da “cabra” por entre o voo dos morcegos; a sua “chamada”, espalhando nos espíritos o terror disciplinar de quartel; os seus lentes crassos e crúzios (…). (p.14)

Essa enésima assustadora impressão que nos relata Eça de Queirós convida-nos para a seguinte reflexão: foi, desde sempre, essa a verdadeira índole, ou melhor, a face oculta da Universidade de Coimbra?

É óbvio que com o passar dos tempos certas dinâmicas mudem, logo, como já se referiu acima, é muito provável que nos dias de hoje não encontremos exatamente as mesmas problemáticas com as quais o Eça de Queirós se deparou na altura entre 1862 e 1863. Não obstante isso, é comprovado que cada época histórica tem a sua própria luta e os seus próprios desafios, muitos dos quais muitos poderão ter sido os resíduos de lutas anteriores parcialmente irresolvidas.

Em concreto, falando-se em dois exemplos recentes de criticidades ligadas à Universidade de Coimbra – que inclusive marcaram de forma impactante o ano letivo de 2018 – destacam-se a contestação dos estudantes brasileiros por causa das mensalidades mais altas para alunos estrangeiros em Portugal e a altíssima porcentagem de mulheres (94,1%) que denunciaram terem sido vítimas de assédio sexual em contexto acadêmico.

Coimbra e a sua Universidade são, sem sombra de dúvida, lugares que, ao mesmo tempo que carregam uma atmosfera mítica que chega quase a ser mágica, ocultam essas realidades mais escabrosas e outras impressões de dor, mágoa e decepção ligadas a esse ambiente de cunho acadêmico que não só foram registradas por Eça de Queirós, mas também pelo mais famoso escritor brasileiro, isto é, Machado de Assis, no seu romance Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Com isto, propõe-se um último excerto que, para além de resumir o juízo final de Eça sobre a tremenda sensação que lhe despertou a sua experiência de estudante e boêmio em Coimbra, nos transmite aquele que é um legado moral fundamental – e que se aplica muito bem como modelo de resistência e luta contra as situações opressivas:

No meio de tal Universidade, geração como a nossa só podia ter uma atitude – a de permanente rebelião.(p.15)

Afinal, olhando para a verdade que nos rodeia, nós, seres humanos, que mergulhamos todos em um estado de comprovada «paz podre», não teremos também que despertarmos para uma consciente e cultivada atitude de rebelião contra as injustas imposições de sistemas que não visam, efetivamente, trazer crescimento e progresso para a espécie humana, mas antes facilitam a perpetuação de um statu quo onde, de fato, continuamos a estarmos divididos entre oprimidos (escravos) e opressores (patrões)?

É mais do que auspicável depositarmos parte das nossas esperanças nas instituições destinadas à Educação para que a Humanidade – através de um verdadeiro crescimento interior que retorne para a comunidade em forma de partilha – possa caminhar rumo a uma virtuosidade que a torne, ao mesmo tempo, plena sob o plano individual e coletivo. Talvez, se a Universidade de Coimbra – forte do seu prestígio sobretudo dentro dos países que falam a língua portuguesa – saísse da sua postura de «praxe» e se tornasse mais preocupada, através das suas enaltecidas excelências, para com os problemas da atualidade que a rodeiam, seria de imensurável benefício para todos. Desta forma, deixando de barricar-se dentro de uma torre de marfim moldada em puro e duro academismo, essa Universidade poderia ser farol para barcos perdidos em meio de uma tempestade de barbárie, fazendo jus inclusive à sua posição no ponto mais elevado do morro e recordando-nos, para além das metáforas, que o conhecimento deve ocupar um lugar de relevo dentro das nossas vidas.

*Feita exceção pela imagem de capa que nos foi concedida por Elsa Ligeiro, criadora da editora Alma Azul, as três restantes imagens são da jornalista e fotógrafa Magalí Zaslabsky.

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