OBRA DE ARTE DA SEMANA: A estranheza da mulher que escreve na Madonna del Magnificat de Botticelli

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Sandro Botticelli, Madonna del Magnificat ou Virgem com o menino e anjos, têmpera sobre painel de madeira, 118x118cm, 1481. Conservada na Galleria degli Uffizi, em Florença, Itália.

A pintura chamada Madonna del Magnificat ou Virgem com o menino e anjos, é uma das criações do tema mariano (relativo à Virgem Maria) de maior perfeição realizado por Sandro Botticelli. A delicadeza do rosto da Virgem é tocante, assim como a maioria das figuras femininas pintadas pelo artista. Entretanto, um elemento difere, e muito, das outras Madonnas de Botticelli – e na história da arte, de maneira geral. Aqui, ela está escrevendo, enquanto que na maioria das obras com livros, ela é representada lendo, próxima a uma estante de livros ou segurando a pena e a tinta para o menino Jesus. Veremos mais adiante as possíveis razões dessa exceção iconográfica.

Não existe registro da encomenda da obra, entretanto, o formato redondo –tondo, em italiano – e as dimensões da obra sugerem uma pintura de devoção privada. Ou seja, seu destino não era uma igreja ou local amplo, mas sim uma antecâmara de um quarto, por exemplo. Assim, proprietário poderia fazer suas orações frente à obra. O formato da pintura e sua composição são próximos de outra criação de Botticelli, a Madonna da Romã.

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Sandro Botticelli, Madonna della Melagrana ou Madonn da Romã, têmpera sobre painel de madeira, 143,5×143,5cm, 1487. Conservada na Galleria degli Uffizzi, em Florença, Itália.

Ambas valorizam o espaço arredondado e colocam em evidência a Madonna e o menino, sobretudo esse segundo, que parece maior do que os outros personagens da composição, tal como acontece devido ao efeito de um espelho convexo. John Moffitt e Mike Laurance estudaram de maneira bastante interessante a Madonna del Magnificat usando o Photoshop para simular como a pintura seria se fosse plana. O espelho literalmente “magnifies”, “magnifica” ou torna maior, o que reflete. Eles sugerem que o artista, assim como outros que pintavam tentando conseguir esse efeito, usasse um espelho convexo – objeto comum nos ateliers dos artistas – enquanto pintava se baseando na distorção que o espelho mostrava de um estudo preparatório de proporções corretas. Ou seja, mesmo antes da arte moderna e contemporânea, a realidade poderia não ser representada fielmente, na intenção de conseguir um efeito visual ou simbólico específico.

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À direita, imagem editada no Photoshop.

Outra pista sobre a encomenda está na página do livro, à esquerda, na qual se encontra escrito o Benedictus, cântico que Zacharias pronunciou na ocasião do nascimento de seu filho, São João Batista (1.68-79, Lucas). Como o santo é o padroeiro de Florença, o comanditário poderia ser dessa cidade, por exemplo, os Médici. Inclusive, a pintura é dita Madonna del Magnificat por causa da outra página do livro na qual Maria escreve o canto Magnificat – “Magnificat anima mea Dominum” ou “Minha alma glorifica (magnifica) o Senhor”, 1.46-55, Lucas – pronunciado em agradecimento às bênçãos concedidas por Deus após a Anunciação.

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Maria é representada como a Rainha do Céu, com anjos segurando uma coroa de 12 estrelas sobre sua cabeça. Notem que a coroa, também é bastante usada em pinturas dos doutores da Igreja, casando com a atividade intelectual de escrever. A raridade de uma Madonna que escreve é explicada pelo aparecimento de mulheres eruditas que compunham durante o quattrocento italiano. Porém, Botticelli não estaria simplesmente registrando uma realidade do seu tempo através de uma obra religiosa. Susan Schibanoff, apoiando-se em teorias de outros pesquisadores anteriores, explica as intenções do artista através do que ela chama de “retórica do impossível”. Ou seja, representando uma mulher escrevendo na figura da Virgem, a única mulher que concebeu e deu a luz a um filho sem o ato sexual, ele mostra o quão impossível é encontrar mulheres que possuem o mesmo intelecto que os homens. A opinião era compartilhada entre os humanistas, já que nas cartas enviadas a algumas grandes escritoras do quattrocento são frequentes os momentos nos quais seus pares do sexo masculino exaltam o conhecimento e talento intelectual da mulher para qual escreve dizendo o quão única ela é entre as mulheres. Ou seja, uma mulher que exerce faculdades intelectuais é uma grande exceção.

Outros detalhes iconográficos corroboram a teoria. Temos, por exemplo, a romã que a Virgem segura como um símbolo da Paixão – as gotas vermelhas da fruta lembrando o sangue que o Cristo irá derramar. Entretanto, ela poderia ser vista também como uma lembrança do fruto proibido da Árvore do Conhecimento. Nunca foi dito que a fruta era uma maça; outras frutas já foram representadas e a maça foi somente a fruta que se tornou mais popular iconograficamente. Então, a mulher erudita é comparada à Eva e o uso do intelecto pelo sexo feminino considerado uma transgressão.

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Também é crucial perceber que o menino parece guiar o braço da Virgem que escreve. A alusão à inspiração divina é clara, mas, na maioria das vezes que um personagem masculino é representado escrevendo – por exemplo, os doutores coroados da Igreja – se eles buscam inspiração divina, ela é conseguida através do olhar direcionado aos céus e de discretos raios semitransparentes que atingem o escritor. Ninguém o toca. Aqui, quem olha para o alto é o menino, em direção aos raios no topo da obra que representam o Espírito Santo. Ele seria, então, – um ser do sexo masculino – o intermediário necessário entre a mulher e o ato de escrever. É importante notar que ela está circundada somente de anjos com características masculinas.

O mais interessante ao analisar essa obra é perceber o quão contemporânea ela pode ser. Apesar de a sociedade ter mudado muito e as mulheres, em teoria, terem a mesma liberdade que os homens, é mais esperado que a mulher seja bonita do que inteligente, culta. A mulher bonita E inteligente, inclusive, é frequentemente vista com estranheza. E o fato de as intelectuais quattrocentistas serem vistas como exceção dentre as mulheres comuns é similar ao expressado em cara aberta publicada recentemente pela tenista Serena Williams, que conta como sempre se referem a ela como uma das maiores esportistas FEMININAS de todos os tempos, enquanto os grandes atletas homens são simplesmente chamados de os maiores esportistas de todos os tempos. O termo “masculino” simplesmente não está ali. Laura Cereta, uma das humanistas vistas como a exceção feminina por seu alto conhecimento, defendeu que a razão é dada a todos os seres humanos, homens e mulheres, e que o conhecimento é conseguido através de vontade e dedicação. Façamos como Serena e Laura, tão distantes no tempo, no espaço e na vocação, ambas mulheres de talento que não configuram uma exceção.

Bibliografia:

Silvia MALAGUZZI, Botticelli, Firenze, Giunti, 2004, pp. 40-41.

John F. MOFFITT e Mike LAURANCE, “BOTTICELLI’S “MADONNA DEL MAGNIFICAT AS A SPECULUM SINE MACULA”: A COMPUTER-GRAPHIC AND ICONOGRAPHIC ANALYSIS” in Source: Notes in the History of Art, Vol. 23, No. 3 (2004), pp. 20-31.

Susan SCHIBANOFF, “Botticelli’s Madonna del Magnificat: Constructing the Woman Writer in Early Humanist Italy” in PMLA, Vol. 109, No. 2 (Março, 1994), pp. 190-206.

Links:

http://www.uffizi.com/painting-madonna-del-magnificat-uffizi-gallery.aspx

Fonte das imagens:

https://it.wikipedia.org/wiki/File:Madonna_of_the_Magnificat.png

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Botticelli,_madonna_della_melagrana_01.jpg

https://www.wikiart.org/en/sandro-botticelli/madonna-of-the-magnificat-1481

John F. MOFFITT e Mike LAURANCE, “BOTTICELLI’S “MADONNA DEL MAGNIFICAT AS A SPECULUM SINE MACULA”: A COMPUTER-GRAPHIC AND ICONOGRAPHIC ANALYSIS” in Source: Notes in the History of Art, Vol. 23, No. 3 (2004), pp. 24.

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