OBRA DE ARTE DA SEMANA: Dante e Virgílio de William Bouguereau

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William-Adolphe Bouguereau (1825-1905), Dante e Virgílio, óleo sobre tela, 281x 225 cm, 1850. Conservada no Musée d’Orsay, Paris, França.

A obra Dante e Virgílio de William Bouguereau nasce primordialmente dos sentimentos de raiva e frustração do artista ao ter suas obras recusadas no Salão de Roma por dois anos consecutivos, 1848 e 1849. Buscando o triunfo e reconhecimento, o artista apresenta obras ousadas, que unem elementos do Neoclássico e do Romantismo, em outras palavras, a virtuosidade técnica clássica juntamente com as emoções, incluindo as suas próprias.

A Divina Comédia de Dante Alighieri é uma obra dividida em três partes: Inferno, Purgatório e Paraíso. Se realizarmos uma pesquisa com nossos amigos e conhecidos que tenham lido a Divina Comédia, não será surpresa ouvirmos que a parte favorita é o Inferno. Em seu ensaio crítico sobre a Divina Comédia de 1921, Thomas Stearns Eliot, ou T.S. Eliot, já nos alertava a respeito disso: “The later error is the more prevalent, and is probably the reason why many people’s knowledgeof the Comedy is limited to the Inferno, or even to certain passages in it. The enjoyment of the Divine Comedy is a continuous process. If you get nothing out of it at first, you probably never will; but if from your first deciphering of it there comes now and then some direct shock of poetic intensity, nothing but laziness can deaden the desire for fuller and fuller knowledge(…)”, em tradução livre: “O erro posterior é o que prevalece, e é provavelmente a razão pela qual o conhecimento de muitas pessoas sobre a Comédia é limitado ao Inferno, ou mesmo a certas passagens nele. O prazer da Divina Comédia é um processo contínuo. Se você não conseguir nada disso no início, você provavelmente nunca o terá; mas se desde a sua primeira leitura lhe vem algum choque de intensidade poética, nada além de preguiça poderá amortecer o desejo de um conhecimento mais completo e pleno (…)”(p.371,1963).

A referência ao ensaio crítico de T.S. Eliot é de extrema importância tanto para a compreensão da obra literária quanto para a análise da pintura de Bouguereau. A Divina Comédia pode ser considerada mais um tratado da natureza humana, do que uma obra com apelo espiritual, e William Bouguereau captura esta essência com maestria.

A cena retratada em Dante e Virgílio ocorre rapidamente na décima vala do oitavo círculo do inferno. Dante narra: ”Mas nem em Tebas, nem na Tróia destruída, homens e feras jamais revelaram raiva em proporções tão desmedidas como testemunhei existir em duas lívidas almas que passaram a correr, nuas, os dentes nos mostrando, quais porcos fulgidos à pocilga. Uma delas atingiu Capocchio e, aferrando-o pela nuca, pôs-se a arrastá-lo, o ventre raspando a rocha dura. O espírito do homem de Arezzo, tremente, disse-me: “É Gianni Schicchi, esse raivoso que de outros condenados usa agravar o sofrimento.””.(p.124,2002)

Bouguereau captura a cena com maestria, nos apresentando o inferno em todas as nuances da crueldade humana. Um espetáculo grotesco de agressão e violência, representado através da musculatura tensionada, a bestialidade no olhar de Gianni, o agressor. A imobilidade de Capocchio cujo corpo parece que será rasgado a qualquer momento. Temos na composição o semblante pesado de Virgílio diante de tal espetáculo de violência e Dante que desvia o olhar. Talvez por ser o único ser humano vivo naquele ambiente, ele próprio sucumbe às emoções humanas e não consegue olhar diretamente para a cena. Toda a dramaticidade da cena é composta em primeiro plano e como pano de fundo, tons muito avermelhados, com almas se segurando para não cair na lava incandescente sob seus pés. Outro recurso que traz dramaticidade à cena é a explosão de luz projetada sobre as duas figuras, que ignoram o corpo já caído ao chão.

E para concluir sua vingança pela dupla rejeição no Salão de Roma, além de William Bouguereau escolher uma obra italiana para nos apresentar um trabalho impressionante, ele se faz presente. Percebam os olhos do demônio que fita Dante e Virgílio diante da cena. Podemos interpretar que é a própria posição que o artista gostaria de ocupar para observar às reações diante de sua obra incrivelmente bela e grotesca ao mesmo tempo. O demônio ignora o próprio embate, as outras almas, e se deleita com o horror nas expressões de Dante e Virgílio. É como se Bouguereau nos fitasse a todos durante a recepção da obra e dissesse com ar zombeteiro: “Veja a beleza do horror que vos entrego”, mostrando todo o poder que a técnica unida às emoções tem.

Referências Bibliográficas:

HUTCHINS,Robert M.; ADLER, Mortimer J., CRITICAL ESSAYS – Gateway to the Great Books. Encyclopaedi Britannica, INC. 1963, printed in the U.S.A. “Dante” from Selected Essays, New Edition, by T.S. Elliot copyright, 1932 by Harcourt, Brace & World Inc.

ALIGHIERI, Dante, A Divina Comédia, tradução de Fábio M. Alberti. Editora Nova Cultural, 2002, Brasil.

Fonte da imagem:

pt.wikipedia.org/wiki/Dante_e_Virg%C3%ADlio_no_Inferno#/media/File:William_Bouguereau_-_Dante_and_Virgile_-_Google_Art_Project_2.jpg

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