OBRA DE ARTE DA SEMANA: Eu-tanasia, Eutanasia-ndo, Eutanasia-do de Raquel Carreli


Raquel Carreli, Tríptico Eu-tanasia, Eutanasia-ndo, Eutanasia-do, agulha e linha de costura sobre impressão em cetim de desenho prévio usando carvão vegetal, pastel seco e guache sobre papel , 2014.

“Na medicina, em sentido amplo, a eutanásia implica uma morte suave e indolor. No seu sentido restrito, doutrina que permite a antecipação da morte de doentes incuráveis para lhes poupar os sofrimentos da agonia.”

O tríptico de Raquel Carreli trata exatamente da eutanásia. Sem dúvida, uma auto eutanásia, como fica claro no título da primeira obra, Eu-tanasia. O sofrimento é visível aos que se deparam com as três obras e sentem a intensidade emocional da artista que desenha seus autorretratos exprimindo aquilo de mais profundo em si mesma: seu estado psicológico e psíquico, em suas fases mais conturbadas. Segundo a artista, esses estados resultam de conflitos internos que na maioria das vezes são gerados por fatores externos e são considerados improváveis de serem resolvidos de outra forma que não seja através de sua expressão artística e também através do olhar e da interpretação do espectador em relação à obra.

Raquel cria sua própria imagem nesses momentos de humor eufóricos, segundo ela, não se comprometendo com a realidade pictórica e sim com sua realidade emocional. Vemos então uma artista que não somente sabe o caminho dos traços, mas, além dele, domina com maestria a expressão de si.


Raquel Carreli, Eu-tanasia, agulha e linha de costura sobre impressão em cetim de desenho prévio usando carvão vegetal sobre papel , 2014.

Raquel Carreli, Eutanasia-ndo, agulha e linha de costura sobre impressão em cetim de desenho prévio usando carvão vegetal, pastel seco e guache sobre papel , 2014.

A segunda obra, Eutanasia-ndo, explicita pelo gerúndio “ndo” o ato de realizar eutanásia. Ou seja, indica o que as obras mostram tão claramente através dos traços e linhas avermelhados: sangue oriundo dos ferimentos auto infringidos. Nessa obra, especificamente, os pequenos traços vermelhos lembram pequenos cortes típicos da prática de automutilação que dão vazão às emoções reprimidas e inexprimíveis de outra maneira. A moldura vermelha se relaciona com esses traços, criando assim harmonia e beleza através dessa imagem de dor. A cor vermelha, em todo o tríptico, ainda é usada nas linhas junto às agulhas, que ao invés de suturar, estão soltas, deixando morrer lentamente. Segundo a artista, as linhas frouxas representam que “Não deu pontos, mas entregou-se os pontos”. As agulhas ainda representam as influências externas que machucam a personagem e contribuem para o seu estado psicológico.

Em Eu-tanasia, essa linha não está frouxa, mas rigidamente posicionada sobre a jugular, representando a morte rápida por degolação e o sangue que jorraria do pescoço da vítima. Enquanto que nas duas outras obras as agulhas espetam a carne, até mesmo nos olhos, causando uma forte sensação de repulsa no espectador, que não pode deixar de imaginar a dor decorrente de tal situação. Segundo Raquel: “Agulhas na medicina assim como no trabalho apresentado, são descartáveis, isentas de contaminação antes do uso. Após utilizá-la, deve ser devidamente descartada para que não ocorra contaminação. No trabalho a condição de descartável assemelha-se à condição de sujeito, de subjetividade. Cada ser tem o seu sentir. Cada sentir no mesmo ser tem sua intensidade. Cada perfuração tem sua função. O sentir é só seu. É intransmissível e intransponível.”

Eutanasia-do é o último trabalho e representa o final do processo, a eutanásia já realizada. Nele, uma lágrima vermelha, de sangue, escorre pelo rosto de cetim. Tristeza pela própria morte e pelo que poderia ter sido a vida ou pela dor física e mental causada durante o processo?

Os três trabalhos representam, respectivamente, a decisão de morrer, de se “eutanasiar” (Eu-tanasia); o ato em sim (Eutanasia-ndo); e, finalmente, o ato consumado (Eutanasia-do).

Além do caráter altamente simbólico e expressivo das criações, é interessante entender o processo criativo bastante original adotado pela artista. Ela usou a técnica que, a meu ver, desenvolve com maior maestria – o desenho – ao deixar seus traços em carvão vegetal sobre papel, completando-os através de pastel seco e guache, para os elementos em vermelho. Em seguida, o resultado foi fotografado e impresso sobre cetim, no intuito de possibilitar o uso da agulha e da linha de costura sobre o suporte. A moldura foi recoberta ainda de fita de cetim, ora negra, ora vermelha. A cor preta pode representar a negatividade, enquanto que, como já dito, o vermelho representa o sangue.

O uso do cetim contrasta com a força dilacerante e o sofrimento das representações; sua textura suave e agradável ao toque se opõe à agulha que espeta a carne. O material lembra a beleza, a sutileza, a delicadeza, a sensibilidade, a feminilidade e o refinamento da mulher. A pequena dimensão das obras é outro indício de delicadeza e intimidade. Também é interessante notar que, além de o cetim possuir esse quê feminino, a agulha e a linha são materiais usados na costura, uma atividade tipicamente feminina. O uso dessa técnica lembra a busca de artistas feministas, desde o século passado, por materiais tipicamente femininos usados em artesanato e muitas vezes considerados inferiores às belas artes.

 

 

 

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