Morte e vida em O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Inquietações sobre morte e vida, deus e o diabo, fé e descrença, sempre fizeram parte da vida de Ingmar Bergman. Em consequência disso, o diretor sueco construiu “O Sétimo Selo”, provavelmente seu filme mais pessoal, que conta a história de um cavaleiro (Max Von Sydow, em atuação fantástica) que ao retornar das cruzadas, depara-se com a peste e as muitas mortes causadas por ela ao passo que questiona a existência de Deus frente a esse cenário lúgubre.

Nos primeiros planos do filme, assistimos a cenas lindíssimas, magistralmente fotografadas em preto e branco (nem imagino se o diretor de fotografia fosse Sven Nykvist – habitual parceiro do diretor, mestre em fotografar com grande contraste preto e branco). Dois cavalos à beira mar, águas revoltas batem às pedras, um pássaro negro sobrevoa a paisagem, funcionando quase como um presságio de Morte.

Nesse tom, ouvimos uma narração, recitando uma parte do Apocalipse, e então o cavaleiro encontra a Morte pela primeira vez. O design de produção assume logo no início um papel importantíssimo no filme, compondo o personagem da Morte com uma face pálida e uma capa preta, mantendo-se minimalista e não chamando atenção ao que não interessa. Os figurinos e locações ao longo do filme são excelentes, atendo-se e sendo fieis à época em que o longa está inserido.

A Morte pergunta se o cavaleiro está preparado, ele responde que seu corpo está, mas ele não. Este último A convida para uma partida de xadrez, e com isso ganha tempo para realizar algo de bom em sua vida, algo pelo que possa se orgulhar, já que passou a vida inteira procurando uma direção, uma crença, algo que justificasse sua existência.

Tais questionamentos sempre afligiram Bergman, e não é à toa que este tema seja recorrente em toda sua a filmografia. Além de tratar com perfeição e realismo as relações interpessoais, e de forma muito atemporal, o diretor doa tempo do filme a cada apresentação de personagens, deixando clara a diversidade de pensamentos unificados em uma terra onde o caos reina e, com apenas uma coisa em comum: a inevitável vinda da Morte.

Os pensamentos excessivos de Block são os que, pelo menos uma vez na vida, também tivemos, e com isso Bergman nos aproxima do personagem e dos seus problemas. Block é um personagem extremamente fascinante. Ao mesmo tempo que vai às Cruzadas em nome da Igreja, consequentemente, em nome da religião, ele procura um sinal de Deus e da razão de estar fazendo isso. Age como todos agiam na época, seguindo preceitos já estabelecidos sem ao menos questionar essas ordens.

Perdido em dúvidas, surge a Morte, onipresente no filme, ao contrário de deus (Bergman faz uma inversão de papéis magnífica), que não existe. A Morte oferece a Block o fim para seus tormentos, o fim dos questionamentos. Entretanto, essa saída do mundo dos vivos o levaria aonde? O que aconteceria se ele largasse tudo e fosse com a Ela? Há aí outro questionamento, porém, Block não almeja apenas respostas, mas também, como falei acima, fazer de sua vida terrena um motivo de orgulho.

Quando encontra o casal de circenses (a talentosa e lindíssima Bibi Anderson e Nils Poppe), vê sua chance de se redimir consigo mesmo. Protegê-los da Morte é a única saída para livrar-se do remorso e poder, enfim, juntar-se a Ela. E há uma cena lindíssima que ilustra esse sentimento, enfim encontrado: a cena em que ele diz à Mia (Anderson), quando a conhece: “Jamais esquecerei esse momento. Guardarei na memória esses morangos, esse leite…”. Cena esta que além de linda, expõe o sentimento de forma pura, simples e muito natural.

Por mais ínfima que seja, a busca encontra seu fim quando ele e seus amigos são encontrados pela Morte em sua casa. Não há mais o que procrastinar. É chegada a hora. A presença da morte não assusta, mas emociona. Uma figura ardilosa como ela, capaz de fingir-se de padre para trapacear no xadrez (em uma das melhores cenas da película), alguém que cerra uma árvore com uma frieza incrível (em uma cena triste e bizarra, construída de modo fantástico pelo diretor), essa personagem consegue, ainda sim, por sua imponência, poder incontestável e sua áurea de mistérios, provocar ansiedade e comoção no espectador e nos personagens, fazendo desse epílogo um dos mais autorais e verdadeiros do cinema.

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