CARTA AO ARTISTA: Queridos meninos de Liverpool

Queridos garotos de Liverpool, como vão?

Preciso dizer que a realidade já não pertence mais a minha mente, isso porque acabei de colocar na minha velha vitrola um dos discos mais incríveis de todos os tempos: Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Que, aliás, acaba de completar seus cinquenta anos e o quão incrível é isso? Bom, eu mesmo respondo: havia feito uma carta para outro remetente, mas quando lembrei da grande comemoração, a arquivei, liguei o disco e entrei em outro universo.

A faixa número um do lado A, que leva o nome do disco, acaba de terminar, ainda me restam doze faixas e prometo não me estender.

O fato é que infelizmente nasci extremamente curioso, quero dizer: somos acostumados a cultuar os Beatles, mas quem realmente são os quatro garotos de Liverpool? E o que passou pela cabeça de vocês em fazer algo tão grandiosamente artístico e louco? Eu realmente duvido e até ignoro os diversos documentários e artigos que resume isso ao efeito das drogas, em especial o famoso “Verão do Amor”, o tal fenômeno comportamental libertário de 1967 e todo aquele papo da força do movimento hippie se consolidando na defesa do pacifismo, do amor livre e das experiências químicas em busca de autoconhecimento. Não é que eu seja contra tudo isso ou algo do tipo, mas acho meio fácil demais e até simples demais em resumir esse álbum a apenas isso.

Apesar de que a palavra autoconhecimento cabe muito bem aqui, certo?  A primeira vez que escutei o disco, meu pai simplesmente o ligou e saiu do quarto com as seguintes palavras jogadas ao ar: Boa sorte. Demorei a entender o motivo de ele me desejar sorte para ouvir um disco. Seria algo tão ruim? Porque ele ligaria algo desgostoso aos meus ouvidos? Mas foi na faixa número dois que entendi que aquilo não era apenas um disco, era uma passagem direta a outra dimensão. Eu ainda consigo ver-me fechando os olhos e tendo a impressão que a minha cama estava flutuando, como se seguisse o movimento do disco do vinil.  Conforme ia descobrindo faixa por faixa, parecia que a minha mente havia chego a um lugar que eu não sabia que poderia ficar. O som era penetrante, agitado e ao mesmo tempo hipnotizante.

Da capa ao encarte, tudo me chamava atenção, como se eu realmente estivesse sob efeito de Lucy in the Sky with Diamonds (faixa número três, ainda do lado A. Que está sendo executada no momento). O surrealismo puro tomou conta do corpo de vocês e a impressão que dava era que vocês quatro haviam se tornado personagens místicos daqueles circos de estrada que somem do nada, mas acho que falar isso para vocês soa repetitivo.

À medida que virei para o lado B, a excentricidade só evoluiu e fazia questão de sentir o máximo de coisas ao mesmo tempo em que a obra podia me proporcionar. Imergir em Sgt Pepper’s era tão alucinógeno que dava a impressão de que estava vivendo em um universo criado por Salvador Dali, com um misto de O Sonho e O Enigma Sem Fim. Era como perder o fôlego por exatos trinta e nove minutos e quarenta e dois segundos e quando finalmente consegui respirar novamente, só uma questão veio a minha mente: como eles conseguiram?

Vocês nunca foram uma banda de rock progressivo, mas sempre me pareceram muito experimentais em uma época que vocês inovavam dentro do inovador, gerando muitas duvidas na mente, sabe? Quer dizer, como foi isso tudo? Vocês sabiam o que estavam criando? Houve uma razão ou foi só uma brincadeira que deu certo? É sempre curioso para mim, tentar desconstruir um álbum e tentar enxergar o processo de criação. Havia muitas duvidas depois que terminei de ouvir pela primeira vez e mesmo que eu esteja ouvido pela milésima vez, as questões nunca foram saciadas. Talvez por isso eu goste tanto. Respostas demais são desinteressantes. A dúvida é a dádiva mais incrível de se viver.

No fim desta carta, percebo que as minhas dúvidas e questões que me motivaram a estar aqui agora, nem eram o ponto de partida, acho que enviar uma carta para vocês é mais para agradecer pelar dúvidas do que realmente dissecar faixa por faixa.

Mas, agora tenho que realmente me despedir, a faixa de número doze, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise) chega ao seu fim e eu não conseguiria dividir a minha mente entre escrever e apreciar A Day in the Life. Na verdade, não dá para fazer nada mais enquanto se escuta essa música, é entorpecente.

Desculpe pela perda de tempo.

Um abraço, de um fã qualquer.

Ps: Beatles ou Rollings Stones?

Fonte de imagem: http://gq.globo.com/Cultura/Musica/noticia/2016/06/o-aniversario-de-um-classico-10-curiosidades-de-sgt-peppers-dos-beatles.html

 

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