Dica de Leitura: “Pobreza”, de Mikhail Zóschenko

O conto “Pobreza” (1925) é um exemplo da sátira tão comum na obra de Mikhail Zóschenko (1894 -1958). A tecnologia, tão cara à época do autor, aqui é representada como o elemento revelador da miséria em que o povo viva. A iluminação das casas, que seria uma das grandes promotoras do progresso, sob o olhar satírico de Zóschenko tornou-se um problema ainda maior do que a falta dela.

     “Antes era assim: de manhã saía pra trabalhar e só aparecia de noite, tomava chá e ia dormir. À luz de querosene, não via absolutamente nada. Mas, agora, ligaram a luz, a gente olha e vê: ali um chinelo roto largado, acolá um papel de parede arrancado, pedacinhos pendurados, um pouco mais além um percevejo trotando pela parede, fugindo da luz; aqui uma trapeira qualquer, um escarro, uma guimba, uma pulga descansando…”

(…)

No nosso cômodo, por exemplo, tinha um sofazinho. Eu nem reparava nele, um bom sofá. Eu costumava ficar sentado ali, durante a tarde. Mas então chegou a eletricidade – luzes divinas! E aí, hein? E o sofazinho? Agora ele chama a atenção, todo rasgado, o recheio saindo pra fora. Não consigo mais me sentar num sofá desses – a alma protesta. (Zóschenko, 1925)

Com a chegada da luz, aquilo que antes não se via tornou-se exorbitante aos olhos dos moradores. As péssimas condições de higiene e a má conservação do ambiente e da mobília que antes ficavam despercebidas passaram a incomodar aqueles que dividiam o prédio. O narrador-protagonista não demora a buscar uma solução para amenizar o aspecto desagradável do local onde vive.

“Aí pensei bem e… recebi o salário, comprei cal e mãos à obra. Arranquei o papel de parede, expulsei os percevejos, tirei as teias de aranha, consertei e arrumei o sofazinho – fez bem pra alma. (Zóschenko, 1925)”

Porém, a senhoria do apartamento decide pôr fim ao aspecto decadente do local à sua maneira.

“Olho e vejo que a senhoria Elizaviéta Ignátievna anda triste, resmunga consigo mesma na cozinha, enquanto arruma as coisas.

               (…)

           – Ai, meu querido, eu não sabia que vivia tão mal.

               (…)

             – Com iluminação fica tudo pobre demais – diz ela. – Iluminar essa pobreza pra quê?

E olha que eu pedi, apresentei argumentos, não deu em nada.” (Zóschenko, 1925)

O narrador que em princípio se revolta por ter arcado com as despesas da pintura do local e por ter consertado móveis, “Arranquei o papel de parede, expulsei os percevejos, tirei as teias de aranha, consertei e arrumei o sofazinho”, acaba se conformando com a miséria do apartamento quando a senhoria lhe oferece uma outra alternativa: “– Então se mude – disse ela. ”

Então, o narrador acaba por se convencer de que nem tudo depende de sua própria vontade e que a reforma do lugar necessita de uma série de recursos com os quais ele não pode custear, e conclui:

“Agora me digam, camaradas, será que é fácil deixar o apartamento depois de gastar uma soma na reforma? Então me resignei.

É isso, irmãos, a luz é boa, mas, com luz, tudo fica mal. ” (Zóschenko, 1925)

Podemos interpretar a luz elétrica no caso de “Pobreza” como uma metáfora dos avanços tecnológicos na União Soviética. Se por um lado as grandes cidades almejavam o desenvolvimento da indústria, a urbanização, havia em cada canto destas mesmas cidades resquícios da velha Rússia. Ao mesmo tempo que o cidadão desejava o progresso, ele tinha consciência de que o mesmo ainda era uma realidade muito distante.

 

Referência:

ZÓSCHENKO, M. “Pobreza” (1925) _ Trad. Denise Sales.

Referência de imagem:

http://acidcow.com/pics/9453-the-life-of-soviet-people-124-pics.html

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