OBRAS INQUIETAS 38: “Finis – O Fim de todas as coisas” (1887), Maximilian Pirner

Existem mistérios que não conseguimos responder, e a nossa cegueira seletiva sempre impressiona: vemos aquilo que está diante dos olhos, mas somos incapazes de perceber os infernos que nos espreitam se dermos um passo para o lado errado, se virarmos a esquina inesperada, se encararmos os olhos de um gato sem o medo de enlouquecer. Quando o pintor abandonou o quadro, o fez com um suspiro de dor: de qual incômodo abismo surgira aquela imagem, de qual subterrâneo oculto da sua alma emergira tamanho delírio? Não soube responder, e isso lhe inquietou. Por segundos a arte tocara na fímbria do Universo, e o seu espírito mais sentiu do que viu o último segundo: o fim da raça humana, do sonho, do sexo, da unânime noite, da pergunta que não fazemos, dos medos e das angústias que arrastamos por todos os lados. Na pintura, as imagens pediam para serem decifradas, e a sua simplicidade perturbava por serem mais próximas do que imaginava: os corpos desmaiados no chão ainda recendiam a uma orgia impregnada de desvarios. Na tumba, o anjo tocava a lira, ameaçado pela Morte e por sua silhueta faminta. Aos pés do improvisado altar, uma medusa chorava, lançando um olhar de desespero à procura de uma salvação que não viria. Codificado no interior de um quadro, escondido por trás de camadas de símbolos, de corredores, de neblinas e de falsas respostas, encontrava-se tudo o que precisávamos saber sobre o Fim. Impossível não ver o quadro e não reconhecer que existe um segredo a deslizar, escorreito como uma serpente, por trás das tintas, ansioso para ser descoberto, debochando da nossa sanidade. Impossível não estremecer ao pensar que, nesse exato momento, em uma galeria de arte tcheca, existe um quadro que contém o fim do Universo à espera de um salvador, e não conseguimos entender, pois não entendemos nada, nunca entendemos nada – em especial o que está na frente dos olhos.

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