OBRA DE ARTE DA SEMANA: Retrato equestre de Don Francesco Moncada de Antoon Van Dyck


Antoon Van Dyck, Retrato equestre de Don Francesco Moncada, óleo sobre tela, 305x242cm, 1634-1635. Conservado no Museu do Louvre, Paris, França.

Quando olhamos a tela de Van Dyck, vemos um homem em um cavalo branco sair do bosque e vir em nossa direção. Ele usa uma armadura, carrega um bastão na mão direita e há um tecido vermelho a sua esquerda. Ele nos olha, imponente; sua aura de poder nitidamente perceptível.

O retrato foi pintado durante o período inglês do artista, que esteve no país durante três períodos: 1620-1621; 1632-1634, convidado pelo rei Carlos I para ser seu pintor oficial; e, finalmente, de 1635 até sua morte, em 1641. Inclusive, vale notar que seu estilo influenciou a pintura inglesa posterior.

Nesse intervalo entre 1634 e 1635, ele voltou à Antuérpia, sua cidade natal nos Flandres espanhóis, onde ele nasceu em 1599, aparentemente para tratar de questões ligadas à administração de seus bens. Durante esse intervalo de tempo, ele pintou algumas de suas obras-primas, sobretudo alguns retratos masculinos importantes, tal como aquele de seu amigo Jacomo de Cachiopin, o retrato do Abade Cesare Alessandro Scaglia, o de Tomás Francisco, príncipe de Carignano, e, por fim, o do general Don Francesco de Moncada.


Antoon Van Dyck, Retrato equestre de Tomás Francisco, príncipe de Carignano, óleo sobre tela, 1634-1635. Conservado Galleria Sabauda, Turim, Itália.

Don Francesco de Moncada (1586-1635) foi o terceiro marquês de Aytona e conde de Ossuna. Enviado por Felipe IV da Espanha para ser embaixador em Bruxelas, se tornou governador dos Países Baixos durante um ano (1633-1634), entre a morte da duquesa Isabel da Espanha e a vinda do Infante-Cardeal Don Ferdinando da Áustria. Durante esse período, ele comandou as tropas espanholas nos Países Baixos, o que é mostrado no retrato através do cavalo branco, do uso da armadura e do bastão de comando em sua mão direita.

O cavalo, desde a antiguidade, é um símbolo de soberania: o deus greco-romano Poseidon/Netuno conduzia um carro de guerra levado por cavalos; os generais e imperadores romanos e bizantinos conduziam bigas puxadas por cavalos durante suas entradas triunfais; na Idade Média, montar a cavalo era um símbolo de nobreza, sendo proibido aos comuns em alguns lugares e épocas; as estátuas equestres de Luís XIV fizeram parte de sua propaganda política; o rei Carlos V foi representado a cavalo por Tiziano, um dos pintores que influenciaram Van Dyck. O ato de montar o cavalo já mostra a saúde e a força física do personagem, que consegue dominar esse grande animal, que, além disso, custa caro a manter e mostra assim um status econômico.

O cavalo, junto ao bastão de comando, carregado por aqueles que comandam grandes exércitos – generais e reis – junto à armadura, comemora o período no qual Don Francesco governou os Países Baixos e comandou as tropas espanholas no local.

É interessante notar que a maioria dos retratos desse tipo até então representava reis, e, uma das características de Van Dyck, especialista em retratos aristocráticos, é exatamente a de retratar seus personagens acima de sua condição real, magnificando seus representados. O artista pintou, por exemplo, Carlos I com Monsieur de Saint-Antoine em 1633, seguindo uma composição próxima, com os elementos cavalo branco-armadura-bastão de comando.


Antoon Van Dyck, Carlos I com Monsieur de Saint-Antoine, óleo sobre tela, 368,4×269,9cm, 1633. Conservado no Castelo de Windsor, Windsor, Inglaterra.

Quanto ao tecido vermelho, trata-se de um traço típico das pinturas representando personagens espanhóis nesse tempo. A representação de um homem usando uma armadura e um tecido vermelho, cor bastante cara a ser produzida e fixada em tecidos, aparece muito na obra de Rubens, em representações mitológicas e históricas de deuses e heróis, e em retratos aristocráticos.


Rubens, Marte e Réia Sílvia, óleo sobre tela, 46×66 cm, 1616-17. Conservada no Lichtensteinmuseum, Viena, Áustria.

Além disso, a composição também remete a Rubens. Podemos citar o Retrato equestre do duque de Lerma pintado em 1603, no qual a pose do personagem é quase igual àquela do homem no quadro estudado. Este retrato foi, por sua vez, inspirado no já mencionado Retrato equestre de Carlos V em Muhlberg de Tiziano.


Rubens, Retrato equestre do duque de Lerma, óleo sobre tela, 490x325cm, 1603. Conservado no Museu do Prado, Madri, Espanha.


Tiziano, Retrato equestre de Carlos V em Muhlberg, óleo sobre tela, 332x279cm, 1547. Conservado no Museu do Prado, Madri, Espanha.

Curiosamente, Don Francesco de Moncada morreu de febre pouco depois da conclusão do retrato durante uma expedição a Cleves. Sua aura de poder e a lembrança de seu período de glória, entretanto, restam imortalizadas pelas mãos de Antoon Van Dyck, e, graças ao seu talento, o retrato é apreciado por centenas de pessoas, todos os dias, no Museu do Louvre.

 

Bibliografia:

AYALA, Roselyne de, Le cheval dans l’art, Paris, Citadelles & Mazenod, 2008.

BARRAL I ALTET Xavier (Dir), Dictionnaire critique d’iconographie occidentale, , Renner, Presses Universitaires de Rennes, 2003.

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MERLE DU BOURG Alexis, Musée Jacquemart-André, Institut de France, Antoon van Dyck : portraits, exposition Van Dyck au Musée Jacquemart-André du 8 octobre 2008 au 25 janvier 2009, Paris, Culture Espaces, 2008.

RAPELLI Paola, GARNIER Cécilia, Symboles du Pouvoir et grands dynasties, Paris, Hazan, 2005.

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De Rubens à Van Dyck, l’âge d’or de la peinture hollandaise, Tournai, Renaissance du Livre, 2004.

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Links:

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Anthony Van Dyck, The Oxford Compagnion of Western Art Online(Consultado em 21/02/2011). http://www.oxfordartonline.com.domino-ip2.univ-paris1.fr/subscriber/article/opr/t118/e799?q=anthony+van+dyck&search=quick&pos=2&_start=1#firsthit

Antoine Van Dyck, Enciclopaedia Universalis (Consultado em 21/02/2011). http://www.universalis-edu.com.domino-ip2.univ-paris1.fr/encyclopedie/antoine-van-dyck/#

Anthony Van Dyck, Oxford Dictionary of National Biography (Consultado em 21/02/2011). http://www.oxforddnb.com.domino-ip2.univ-paris1.fr/view/article/28081

http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,923282,00.html

Bibliografia de Van Dyck, Museu do Prado (Consultado em 21/02/2011). http://www.museodelprado.es/enciclopedia/enciclopedia-on-line/voz/dyck-anton-van/

Iconografia de Van Dyck, Museu do Louvre (Consultado em 21/02/2011). http://www.louvre.fr/llv/mecenat/fiche_projet.jsp?CONTENT%3C%3Ecnt_id=10134198674088696&CURRENT_LLV_FICHE%3C%3Ecnt_id=10134198674088696&FOLDER%3C%3Efolder_id=9852723696500965

  1. Sanzsalazar, Archivo español de Arte (Consultado em 21/02/2011). http://74.125.155.132/scholar?q=cache:yNZc8P0d0r8J:scholar.google.com/++francesco+de+moncada+van+dyck&hl=pt-BR&as_sdt=0,5

Sir Anthony Van Dyck, ArtCyclopedia, (Consultado em 21/02/2011). http://www.artcyclopedia.com/artists/van_dyck_sir_anthony.html

Fonte das imagens:

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Retrato_ecuestre_del_duque_de_Lerma_(Rubens).jpg?uselang=fr

https://fr.wikipedia.org/wiki/Charles_Quint_%C3%A0_cheval_%C3%A0_M%C3%BChlberg#/media/File:Carlos_V_en_M%C3%BChlberg,_by_Titian,_from_Prado_in_Google_Earth.jpg

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Van_dyck_tomaso_1634_1635.jpg?uselang=fr

 

*Sobre a coluna OBRA DE ARTE DA SEMANA: Aline Pascholati, Marina Franconeti e Wagner Galesco se alternam escrevendo sobre obras de arte de diversas épocas às terças-feiras.

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