OBRA DE ARTE DA SEMANA: Anel matrimonial octogonal bizantino


Anel matrimonial octogonal
, ouro nigelado, diam. 2.3 cm, século VII. Conservado no Dumbarton Oaks, Washington, Estados Unidos.

A obra estudada essa semana, um anel matrimonial de ouro ricamente decorado através da técnica da nigela, é considerada por nós um objeto de arte, mas era um objeto totalmente funcional para os que o encomendaram na época.

As joias bizantinas foram duplamente influenciadas pela ourivesaria romana, principalmente em relação às técnicas, ao gosto pelas pérolas e a forma de algumas peças, assim como pela ourivesaria bárbara, pela presença de vidros e pedras coloridas. No caso desse anel, o ouro foi nigelado, técnica caracterizada pelo escurecimento de uma inscrição ou motivo previamente gravado no metal, através da aplicação de sulfeto de prata (Ag2S).

As coleções de joias bizantinas nos maiores museus do mundo possuem um grande número de peças que podem ser ligadas a cerimônia do casamento. Essas joias são destinadas aos laicos, mas apresentam inscrições e motivos iconográficos que fazem alusão ao sagrado ou até mesmo o representam, pois na sociedade bizantina o limite entre o sagrado e o profano não era sempre bem nítido. Também em Bizâncio, o casamento é visto como um dom de Deus, uma união criada pelo divino, que pode ser desfeita somente por Ele.

Os anéis matrimoniais eram usados, como hoje, no quarto dedo da mão esquerda, seguindo a crença egípcia de que a veia que ali passa leva diretamente ao coração. Os menos afortunados usavam anéis simples de bronze, enquanto os ricos e membros da corte podiam se presentear com anéis em ouro como o exemplo estudado, ricamente decorado, sendo assim um símbolo de status na sociedade. Também é importante lembrar que o uso de objetos de luxo em Bizâncio era controlado pelas leis suntuárias, herdada dos romanos.

Às vezes, esses anéis também podiam servir de selo. Esses eram, na maior parte das vezes, decorados com inscrições e dedicatórias, também presentes nos anéis invocatórios, na prataria eclesiástica e em decorações de igrejas. Uma das inscrições mais frequentes em anéis de casamento é a palavra omonoia, harmonia em grego, que faz alusão à harmonia do casal e ao caráter sagrado do casamento, assim como a palavra hygia, saúde, que possui certo caráter apotropaico, ou seja, ligado à proteção. Esses objetos tem também ligação com os amuletos, muito presentes na ourivesaria romana, seu caráter pagão substituído pouco a pouco pela religiosidade cristã.

No exemplo apresentado, encontramos a seguinte inscrição em grego, língua oficial do Império Bizantino:

« Harmonia. Senhor, ajude vossos servos Pedro e Teodóta. Eu vos dou minha paz. » (João 14 :27).

Na parte superior do anel, vemos a representação do casal de noivos, prática frequente em objetos desse tipo, sendo que, na maioria das vezes, não existia nenhuma intenção de semelhança com os personagens reais. O corpo dos noivos encontra-se vazio, onde, provavelmente, existiam incrustações de pedras preciosas. O Cristo, figura frequente em anéis matrimoniais, e a Virgem – representando a Igreja – são mostrados entre o casal, abençoando-os e tocando suas coroas. Sempre sobre a cabeça dos noivos, as coroas fazem alusão à tradição romana de coroas florais na cerimônia de casamento. Essa tradição teve continuação em Bizâncio, onde as plantas e flores foram substituídas por metais preciosos. Seu uso continua até hoje nas cerimônias de casamento ortodoxas.

Em toda a volta do anel, existem cenas da vida do Cristo organizadas em ordem cronológica: Anunciação, Visitação, Natividade, Apresentação no Templo, Batismo, Crucificação e o Cristo no Jardim após a Ressureição. A representação dessas cenas, assim como a inscrição e a figura do Cristo coroando os noivos, mostra a importância do sagrado em suas vidas e seu papel na ordem pré-estabelecida por Deus.


Nessa imagem podemos ver a cena da Anunciação e da Visitação.


Aqui vemos as cenas do Batismo, da Crucificação e o Cristo no Jardim após a Ressureição.

A rica decoração e a possível incrustação de peças preciosas tornam esse anel um objeto único e bastante raro, que provavelmente pertencia a uma figura importante na sociedade bizantina.

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Links:

“Octogonal Marriage Ring with Holy Site Scenes” in Dumbarton Oaks, [Online], http://museum.doaks.org/Obj27024?sid=28&x=12852 (Consultado em 19/09/2017).

Fonte das imagens :

http://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2012/byzantium-and-islam/blog/topical-essays/posts/jewelry

http://museum.doaks.org/Obj27024?sid=28&x=12852

*Sobre a coluna OBRA DE ARTE DA SEMANA: Aline Pascholati, Marina Franconeti e Wagner Galesco se alternam escrevendo sobre obras de arte de diversas épocas às terças-feiras.

 

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