OBRAS INQUIETAS 49. “O triunfo do Gênio da Destruição” (1878), Mihály Zichy

Destruir é mais simples do que criar. É muito mais difícil erguer um castelo de dentro do sonho do que colocar as suas paredes abaixo, imersas em fogo, ruínas e amargura. Para cada pessoa que se anima a criar, existe uma multidão disposta a destruir, e, nesse exato momento, o homem que anda no meio do campo de batalha, com passos que desconhecem o ponto de chegada, atordoado pelo banho de sangue que preenche o ar de vermelho, não é tão diferente da pessoa que sai de casa todo dia e precisa se deparar com a morte da esperança a cada esquina, com raiva desproporcional escapando por olhos injetados de fúria, com angústia represada em gritos ou buzinas, com pessoas que esticam crianças buscando piedade, com a cobiça regrando as atitudes, com os gemidos que se estraçalham em meio ao vento. Viver não só é muito perigoso, viver é uma insanidade, e no meio do oceano da existência não passamos de vagas de madeira perdidas entre as ondas, restos de um naufrágio anônimo. Nessa jornada terror adentro, o homem fecha os ouvidos e um grito estrangulado escapa da sua garganta, juntando-se à litania dos corpos que se empilham ao seu redor, todos buscando uma salvação, uma palavra de conforto, um respiro de ar limpo em meio ao odor pútrido do medo. Enquanto isso, o Gênio da Destruição guia o ser humano por entre o cotidiano, sabendo que tudo que existe só o faz para ser um dia destruído, sabendo que não existe nada que escape do seu toque, sabendo que não passamos de ruínas adiadas e que um dia, mais cedo ou mais tarde, a destruição – dos sonhos, das esperanças, dos amores – será a nossa única companhia.

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