OBRAS INQUIETAS 61. “Autorretrato com máscaras” (1899), James Ensor

 

Idêntico ao estilhaço de um navio naufragado, atravessamos as águas agitadas da existência lutando para manter a integridade, esforçando-nos para não ceder à angústia, tentando ignorar o medo. Caminhamos pelas ruas e avenidas dessa cidade que degusta a loucura dos seus integrantes com a ferocidade contida de um tigre sem fome, envolvidos por ondas e mais ondas de rostos que se perdem em um borrão, distinguindo um que outro sorriso tétrico repleto de batom, às vezes um olhar impregnado de dor que desliza por uma esquina, em outras ocasiões flagrando uma testa contraída de preocupação e de gotas de suor. Estamos cercados por máscaras vazias que remetem a um rosto outrora humano: todos os dias, escolhemos a falsidade colorida e repleta de lantejoulas que mostraremos ao mundo, e ela derrete ao redor do nosso rosto, incorporando-se à pele que esconde o sorriso de enlevo, que disfarça o grito de desespero, em uma sucessão de semblantes fingidos que se somam de tal forma ao nosso rosto que nos tornamos um rescaldo de máscaras derretidas, sobrepostas. Não existe nada verdadeiro nas pessoas: tudo é mentira e ilusão. Procuramos uma realidade impossível, pois mal nascemos e já estamos vestindo máscaras para enganar os demais, e mesmo a mais cristalina das verdades soa despercebida atrás de um sorriso falso. Rodeados pela multidão de máscaras que insiste em nos mentir, é muito fácil encontrar a loucura e a solidão, é muito fácil esquecer o próprio rosto.

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