As marcas nos livros e suas histórias

Sabia que eles, os livros, constam histórias para além daquelas presentes em suas páginas escritas? Várias delas. Há muito mais em um livro que aquilo que o seu verso nos conta em forma de resumo. Dessa vez, falo sobre as marcas que neles estão presentes e as imensas possibilidades de histórias que existem atrás delas.

Pode ser uma mancha de café, uma página rasurada, um canto da página dobrado, uma anotação feita em uma parte qualquer, uma passagem grifada (lápis, caneta, marca texto…) ou até mesmo uma página faltando. É para essas marcas que chamo a atenção. Quantas dessas existem nos seus livros? Quantas histórias residem em cada uma dessas marcas?

Certa manhã, enquanto todos ainda dormiam, num final de semana que foi aproveitado em uma chácara pacata, afastada daquele cenário caótico da cidade, você foi até a área externa com um livro em uma mão e uma xícara fumegante de café em outra. O silêncio daquele momento era quebrantado apenas pelo agradável som dos pássaros. Somente você e aquele momento aprazível de paz. Um cenário perfeito para a leitura. Eis que enquanto você lia atenciosamente mais um parágrafo daquele interessante livro que lhe acompanhou na viagem, em um momento de descuido, acaba por derrubar um pouco de café na página aberta em seu colo. Um pequeno acidente. Nada grave. Um pano é suficiente para secar o líquido quente e escuro que escorreu por algumas folhas. O resultado é o livro que passa agora a ter algumas páginas manchadas pelo café – nada que impeça a sua leitura. Nesse cenário, você não acabaria por lembrar desse agradável final de semana na chácara cada vez que abrisse o livro e notasse as páginas manchadas? É esse tipo de história que sempre está presente nas marcas dos livros.

Anotações em livros também nos levam a momentos de nostalgia. Há, claro, os que consideram ser crime fazer qualquer tipo de marcação intencional nas páginas das obras – independentemente de seu conteúdo. Para alguns, o livro deve permanecer intacto o máximo possível, sendo permitida apenas a mudança na tonalidade que ganha com o desgaste natural pelo passar do tempo. A função do leitor que o possui seria a de guarda que zela extremamente pelo bem-estar de toda e qualquer obra. Algo como “não passarão” – qualquer forma de marca que se queira colocar nos livros. A função de guardião faz com que o leitor impeça que qualquer material com ponta que solte tinta se aproxime de seus livros. Para marcar a página em que parou de ler, para dali continuar quando da retomada da leitura, apenas os marcadores de páginas apropriados para isso – dobrar os cantos, jamais. Nas passagens que julga interessante, o guardião faz anotações mentais, copia o texto por conta ou fotografa a página em questão, mas jamais faz uso de grifos ou quaisquer anotações do tipo. O livro é para ser aberto, lido e guardado na estante, podendo ser consultado quando se bem entender, mas jamais se permitindo que qualquer marca seja posta nesse. Assim são muitos leitores com seus livros. Para esses, talvez, a lembrança de eventual marca que acidentalmente tenha sido posta em algum de seus livros, esteja mais focada no infortúnio do ocorrido em si do que na história de fundo dela. Pense no exemplo do café derrubado na chácara: talvez para alguns a agradável nostalgia daquele belo final de semana acabasse sendo sufocada pelo desespero que tomou conta do leitor quando do pequeno acidente. De todo modo, há também quem faça anotações intencionalmente em seus livros – e, como dito, essas também escondem momentos nostálgicos, trazem lembranças, contam histórias.

Sabe quando você está estudando um livro técnico (mas não necessariamente) e se depara com um trecho bastante significativo que considera importante? A anotação mental muitas vezes pode não ser suficiente para recordar daquilo quando, em dado momento, a informação ali presente poderá ser útil ou necessária. Ou pode até ser que você recorde que o autor falou tal coisa em tal livro… Mas em que parte da obra? Daí que alguns recorrem ao uso do grifo, da marcação, da anotação. Para além de auxiliar a frisar o conteúdo ali lido, ou ainda destacar algo que poderá ser consultado de maneira mais fácil futuramente, esse tipo de marca também pode guardar várias histórias: a recordação do tenso período de provas na faculdade, a lembrança de uma profunda reflexão crítica que se estabeleceu a partir de um diálogo entre o leitor e o escritor do livro pelas linhas ali escritas pelo autor em contraste com as anotações postas pelo leitor, o momento em que o trecho destacado foi lido, enfim, as possibilidades aqui também são várias. Ao se deparar com algum tipo dessas anotações, a mente do leitor pode trazer à tona boas (ou más) lembranças.

A ausência também carrega histórias. A falta de algo que ali deveria estar, concretizado por uma página rasgada ou uma folha que foi arrancada do livro, pode revelar um dito no não mais presente.

Seja como for, o fato é que nas diversas formas de marcas presentes nos livros há muitas e muitas histórias que ali residem. Podem ser supérfluas ou mais significativas, mas sempre há lembranças que nas marcas existem que poderiam render boas histórias – algumas até melhores que as de alguns livros marcados.

Quais são as histórias que se escondem nas marcas presentes em seus livros?


 

Fonte da imagem:

http://f.i.uol.com.br/fotografia/2016/01/06/578329-970×600-1.jpeg

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2 comentários sobre “As marcas nos livros e suas histórias

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