A responsabilidade pelo outro no filme ‘Dois dias e uma noite’ de Jean-Pierre e Luc Dardenne

As portas apenas se abrem  no horário indicado. O mercado estabelece normas que transcendem as nossas possibilidades. Se não se apressar a porta irá se fechar. Enquanto você dorme o mundo gira. time is money. Por vezes não podemos nos prender a sentimentalidades. Há uma “mão invisível” que rege o mercado. Não podemos contra ela. Há uma natural ferocidade com a qual o mercado se move pela cidade. Deixando rastro. Construindo castelos. Do mesmo jeito, destruindo. Não estamos a nos referir ao filme “O lobo de wall street”. Mesmo que a tônica possa se entrecruzar, “Dois dias e uma noite” não é uma película ocupada apenas com as ambiências características das entranhas do mundo capitalista. Poder-se-ia dizer que os irmãos Dardenne tratam mais de entranhas humanas e suas reações ao que outras entranhas lhes trazem do que de uma possível crise na Europa. Há talvez ali uma questão que possa nos indicar qual um dos fundamentos para essa crise. Não apenas financeira, mas principalmente uma crise ética.

Dizer de uma crise ética seria o mesmo que dizer de uma crise humana. A própria constituição do humano está em crise. Isso já denunciava Lévinas com sua ética da alteridade. Lévinas que fora professor de Luc Dardenne. O aluno não passaria inerte aos ensinamentos éticos de Lévinas. Iremos tratar disso. O nosso diálogo aqui quer mesmo mostrar como a ética hiperbólica de Lévinas está presente em toda a película.

Sandra (Marion Cotillard) recebe a notícia de que perderia o seu posto de trabalho na empresa dado que os seus colegas haviam optado por um bônus de mil euros por ano ao invés de mantê-la em seu trabalho. Esse dilema é interessante. Por vários motivos. O primeiro é o modus operandi  como os ardis são utilizados na trama das relações em muitas dimensões nos dias atuais. Assim, com falas do tipo: “não gostaria, mas foi o que me restou”, “c’est la vie”, “são as regras do jogo”, “eu sinto muito”, as pessoas vão se distanciando daquela responsabilidade enunciada por Dostoiévski, quando afirma que “todos somos responsáveis por todos e eu mais que todos os outros”. Essa fala emblemática pode traduzir a ética de Lévinas, que sempre nos ensina que o humano antes de ser racional é ser ético. A composição da canção e da ventura do humano tem a batida da ética, distanciando-se dela, a música perde o tom. O acorde deixa de ser preciso exatamente quando é dado sem que o próximo o determine. Aquele que vem, o outro, é ele próprio que nos faz continuar a música. A história precisa do próximo verso, a última sílaba do verso anterior já espera pelo que vem. Já nasce com o cheiro daquele próximo. Assim, desde sempre, o próximo, o outro, vem já enunciado como nossa própria condição de estar no mundo. Por isso mesmo, a responsabilidade por ele se dá na medida da minha própria condição de existir. Sou apenas enquanto me responsabilizo. E essa responsabilidade é sempre infinita – dada a incógnita de sempre que é esse outro.

Nesse sentido parece que não erramos ao pensarmos que o mercado, “esse” que determina e “fundamenta” muitas decisões como as dos personagens que optam pelo bônus ao invés do posto de trabalho de Sandra,  furta ao próprio humano a sua humanidade. Ora, é evidente que transferir a responsabilidade para o mercado ou suas variações de humor isenta o humano daquilo que propriamente o constitui. Ao não nos responsabilizarmos, perdemos em nossa dimensão de humanos propriamente. Assim, o chefe já havia decidido cortar gastos na empresa, contudo, transfere, e esse um ardil do qual falávamos, para os empregados essa tarefa. Transferir essa responsabilidade seria o mesmo que optar pelo não humano. Seria essa uma nova maneira de ser humano? Lévinas teria sido superado pelo mercado? Quem seria o mercado? Quais suas regras? Possui face o mercado? E regras? Uma questão importante é mostrar que a visão utilitarista é quem impera nessas relações do capital. Nela, o sangue que escorre não importa. O mercado não sangra. O utilitarista faz cálculos, atende a eles. E não se responsabiliza pessoalmente, pois precisa apenas provar com seus cálculos. No filme o inevitável do mercado foi seguido. O rosto não existe ali. Mas a influência de Lévinas em seu aluno fica clara na última cena. Quando o chefe propõe a Sandra que ela terá seu emprego com a saída de outro, ela recusa. Ela é responsável por esse outro. Ela é por ele. E só por isso. A responsabilidade é um existencial que nos instaura no mundo. Estaríamos a viver onde propriamente? Quem é o mercado? Qual a linguagem dele? Estamos a ser ou-vidos.

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