Shakespeare, Fernão Pinto e Balzac: o lugar do trabalho nas sociedades

Para Theodor Adorno, filósofo e teórico da literatura, esta é sempre processo social decantado. O que significa isso? Significa que sempre a obra de arte, neste caso a literatura, terá marcas do contexto histórico na qual foi feita. Essas marcas podem ser de caráter direto ou indireto, dependendo da maneira como o artista as canalizou. São exemplos dessas marcas traços mais diretos como a cultura de um certo tempo ou como pensavam os habitantes de determinado lugar em determinadas conjunturas históricas. Claro que, como dito, esses aspectos podem ser indiretos, como por exemplo a maneira como a narrativa é estruturada – o modo como é contada tal história, ou a posição dos elementos que estruturam certo enredo. Aqui neste texto analisaremos passagens mais superficiais de três obras: O pai Goriot , de Balzac; Hamlet, de Shakespeare; e trechos de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. A ideia é ver em seus conteúdos, ou seja, seus enredos e temáticas, coisa que tenham a ver com o processo social de cada “nação”, sociedade etc. São elucidativos os traços que os distinguem, principalmente com relação a Fernão Pinto, por este ser português e se diferenciar em diversos âmbitos das características pessoais e sociais de países como Inglaterra e França, origem dos dois outros livros.

 No caso de Balzac, uma diferença enorme e de importância tremenda quando se estuda literatura brasileira é perceber o papel dos trabalhadores em uma cena. Num romance europeu, como é o caso de O pai Goriot, quando se vai falar de alguém que trabalha numa casa, por exemplo, a passagem é mais ou menos assim: “A cozinheira foi fazer o almoço.” Grifei ali para mostrar o abismo social que há contido nessa palavra. No Brasil, está escrito assim em algum romance de José de Alencar ou Machado de Assis: “Uma preta velha foi cozinhar.” ou “Uma mulata…”  (O descompasso que há entre Alencar e Machado não será discutido, mas alerta-se para o fato de que a diferença no trato da escravização é enorme, sendo Machado de Assis o primeiro a tematizá-la com força social e estética). O caso é exemplar porque coloca em xeque o papel do trabalho nas sociedades: o Brasil escravocrata, em certos contextos sociais como o RJ corte do século 19, atribuía todas funções relativas ao trabalho manual aos escravizados e escravizadas. Na França, país liberal, a divisão social do trabalho era feita mais ou menos por uma especialização do trabalhador. Em algumas partes do Brasil, o escravizado fazia todo o serviço, e sendo a escravidão o ponto de maior tensão e de recalque da sociedade brasileira  (mal falamos sobre isso, sobre racismo, sobre desigualdade social e racial a partir da escravidão) isso aparece de maneira meio difusa, escondida, pressuposta na literatura. Esse é um ponto diferencial chave para entender parte da literatura brasileira.

Em Hamlet há uma exaltação do trabalho e da ocupação do tempo com algo produtivo. Há uma cena em que o protagonista quase xinga seu subalterno tendo em vista essa moral na cabeça: o tempo deve ser gasto em algo profícuo, sem “vagabundagem” ou algo do tipo. O vocabulário não é bem esse mas a ideia é essa. Isso demonstra algo do caráter inglês (caráter como algo que caracteriza algo). Mostra também indícios da nação que viria depois a se tornar a mais moderna em termos de indústrias – com a Revolução Industrial, a Inglaterra deu um passo enorme em relação ao regime de trabalho no mundo, inaugurando a fase capitalista mais opressora até então, e que continuaria atuando forte até os dias atuais, quando o capitalismo desregulado mata milhões de pessoas ano a ano.

Por fim, a Peregrinação. Por se tratar de um livro de viagem, aqui percebemos os aspectos culturais portugueses às vezes diretamente, a partir de falas de Mendes Pinto ou de seu alter ego sobre sua própria conduta e do povo português, e às vezes por reflexo, ou seja, da maneira como os lusitanos vêem certas práticas do cotidiano dos outros países, nesse livro muito marcadamente a China e o oriente. Quando Mendes Pinto se assusta com uma lógica que é muito dedicada ao trabalho, isso diz, por contraste, da falta do trabalho na lógica social de Portugal. Não é à toa que herdamos o que depois veio a se chamar de malandragem , que significa, dentre outras coisas, a recusa ao trabalho em detrimento de outro meio mais eficaz na ocasião.

Há outros conceitos irmanados à ideia de malandragem, como a cordialidade, desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda, que significa tratar o espaço público como privado, como por exemplo empregar alguém no serviço público somente por ser parente ou conhecido e não por uma capacidade intelectual ou qualquer que seja, mas de ordem impessoal, como o mundo burocrático institucional prega na Europa. O que acontece é que importamos modelos prontos de lá e os transformarmos em algo à brasileira. Essa ideia de trabalho por exemplo é uma: Machado de Assis ridiculariza isso em vários momentos, como no conto “Teoria do Medalhão”, do livro Papéis Avulsos, no qual é contada uma história em que o pai ensina o filho a se dar bem na vida, o que significa ser trapaceiro e malandro, não trabalhador, já que o que dá status social é o primeiro, não o último.

Essas diferenças mostram, mesmo que superficialmente, o abismo social entre o centro e a periferia do sistema. São marcas de processos sociais distintos que são constitutivos das suas respectivas sociedades. Um problema interessante de analisar são as contradições que a importação das “finalidades europeias”, como chama Roberto Schwarz, que são as idéias e costumes em seu mais variado grau, geram na sociedade e na literatura brasileira e de como os autores lidam com isso.

* Esse texto é uma introdução a um trabalho maior que talvez seja levado a cabo.

Rodrigo Mendes

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