A poesia no longa ‘Versos de um crime’ de John Krokidas, com Daniel Radcliffe

“A Poesia é a invenção da Verdade. A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica. A poesia é um sintoma do sobrenatural. Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.” Palavras de Mário Quintana que aduzem às reflexões que pretendemos acerca do filme “Versos de um crime” de John Krokidas.

São versos de um crime sempre. Ora, do poético apenas podem saber os criminosos. Em jeito mesmo de assassinos. Cultores dos meios. Das entranhas. Do sangue e da carne. Não há do poético que não escorra. Seja o próprio sangue do poeta. Seja o sangue que por ele é derramado na leitura de seus poemas. Sim. Pois poemas são também esse jeito de morrer vivendo. O criminoso desfere seu golpe. Cheio de malícias e imperfeições. Fundindo métricas e composições. Por isso sempre será apanhado. O poeta é o melhor e pior matador. O veneno de sua lança escorre de suas próprias mãos. Isso significa morte na certa. Poesia é então essa morte que vai nascendo.

Não poderia deixar de mencionar que o filme fala do problema que o poeta Allen Ginsberg (John Krokidas) percorre quando inicia seus estudos na Universidade. A problemática tem uma dimensão parecida com o que ocorre em “Sociedade dos Poetas mortos”. Não iremos explorar a estranheza entre ciência e poesia. Não perceber que as linguagens não podem habitar senão na umidade da mistura, é já anunciar o desentendimento. Reconhecer a mútua construção do humano na e pela linguagem é sabê-lo plural, paradoxo, logo, poesia, logo, ciência, misturadamente. Assim, o enfrentamento que poderíamos referenciar com a ideia da contracultura é uma questão que namora o filme. O gozo estaria porvir. No porvir, exato, desmedido, e Dionísio do poético.

Assim, é interessante perceber que a própria fala de Quintana quando nos dá a poesia como magia ou mesmo  como invenção da verdade, ao mesmo tempo escapa a ele aquilo que diz do poético. Escapará a todos nós. Escapa ao poeta. Não escapa apenas à poesia mesma. A verdade da poesia é sua própria impossibilidade. Realizá-la é já um crime. A poesia talvez seja aquele horizonte para o qual caminhamos. Sem cessar. Se perto demais, queimamos, ao longe, padecemos de hipotermia. Não haveria então uma poesia possível? Não existiram Ginsberg e Kerouac? E Quintana? Mas se a poesia é aquilo que soçobra, que desdenha das linhas, que sangra, que mata e ri, seria ela ainda assim do humano? Deuses são poetas?  Ou apenas sintomas dela?

A poesia talvez seja a última instância a resolver dilemas. Parece-nos a poesia essa própria criadora deles. Florbela Espanca dizia que das almas dos poetas, não as entende ninguém. Mas quando uma película narra os conflitos familiares e sexuais de Ginsberg, está já a falar de sua poesia? Estaria o diretor a querer conhecer sua alma? Os estudiosos de poesia, conhecem essa alma? O poeta se separa de sua poesia? Há, portanto, duas almas: a do poeta, e a do poema? Seria ao fim e ao cabo, o poeta, um desvelador da verdade pela sua arte como enunciara Heidegger, ou apenas um fingidor como diria Pessoa? Poesia é verdade subjetiva e por isso não importa à ciência? Há ciência sem poesia?

Gostaríamos imenso de dizer algo acerca dessa questão, ora, parece-nos ser algo simples o dizer poético. Parece-nos, junto de Ginsberg ou de um qualquer, que a poesia, guardada nos versos, ou em melhores palavras, a poesia que virou poema, talvez seja ela apenas uma das aparições do poético. Dai que talvez tenha mesmo razão Heidegger ao afirmar que “poeticamente o homem habita”. Nessa estrada, de fato, não há limites de versos e rimas, tampouco métricas. O outro, essa poesia que nos permite ins-crever o mundo, talvez seja nossa condenação, nossa tragédia e nossa salvação. Habitar poeticamente é nosso existencial enquanto humanos. A morte, portanto, não poderia ser inscrita, senão, em versos.

 

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