Justiça no filme ‘A dama dourada’ de Simon Curtis

Derrida é um filósofo que escreveu de maneira precisa sobre a distância entre o direito e a justiça. Em seu Força de Lei, nos dá conta de que o direito é da ordem do cálculo, enquanto a justiça, estaria para o humano como um impossível. Sempre como um reclame que se quer incessante, imperativo, e, portanto, e por isso mesmo, sempre por vir, diríamos com o autor: impossível.

No filme “A dama dourada” de Simon Curtis, uma judia, Maria Altmann (Helen Mirren), processa o estado da Áustria para reaver um famoso Klimt que fora roubado de sua família pelos nazistas aquando da ocupação. Há no filme questões interessantes, desde a ideia de uma justiça impossível, passando pela discussão do sentido da arte, do arquivo, dos museus, da dor, da memória, do nacionalismo e do esquecimento. Aliás, a questão do esquecimento está sempre presente quando a personagem por vezes quer desistir da discussão jurídica: O estado austríaco quer manter a peça emblemática na galeria nacional Belvedere, em Viena, sob a alegação de que haviam recebido a doação da própria personagem que está ali retratada (Adele), tia de Altmann. Essa ideia também é alimentada pela alegação de que a obra seria um símbolo do estado da Áustria. Assim, é interessante perceber que o nacionalismo que pretende ser resguardado, passa por cima da própria estória individual de uma austríaca. Pretendem guardar uma obra de arte na Áustria como uma espécie de marca do próprio estado, porém, na mesma ação, ferem a memória e a estória dos rostos individuais. As teses sobre o conceito de história e Benjamin ajudam a explicar essa questão.

O filme nos permite mais algumas digressões importantes. Uma primeira e mais elementar seria constatarmos junto de Derrida e porque não, Kafka, acerca da violência que o poder judiciário imprime sobre a existência de quem passeia por suas veredas. A octogenária que pretendia reaver sua estória que o diga. Em uma das falas, a personagem lamenta-se, pois, mesmo com a vitória no tribunal, não havia retirado a tristeza da partida. A palavra já nos daria o próprio tom: essa ida, sempre deixa uma parte para trás. Não haverá restituição dela. O quadro não pode trazer de volta o calor do abraço, tampouco o infinito de um beijo – a justiça é mesmo um impossível…

Outra ponta desse fio de Ariadne poderia ser tratado a partir da questão do esquecimento. Parece mesmo que o efeito do passado é um torpor que condiciona a caminhada do hoje. Ora, Altmann precisou construir uma vida simplória para esquecer o passado pomposo de sua família antes da invasão nazi. Ela guardou em um bibelô toda a violência a que fora submetida. É interessante como essa palavra tem uma conotação de algo pequeno, daquilo que não possui muito valor. A octogenária, portanto, reduzida àquilo que os nazistas queriam contra os judeus. Eram como que objetos inúteis, alguns dicionários traduzem bibelô por fútil.

Aquele quadro traduzia, portanto, toda uma outridade. A obra de arte seria assim, esse outro a que sempre devemos responder. Nos olhos de Adele restava a infância de Altmann, de alguma maneira, talvez restasse algo de criança na própria humanidade, que após o nazismo perdeu um pouco a condição de criança. A inventividade a que o outro enquanto obra de arte nos permite resta alijado quando o nacionalismo enquanto conceito se quer roubar a cena. Os olhos de Adele não se referem, ademais, ao estado austríaco. Eles olham para aqueles judeus que não possuíam obra de arte. Qual a possibilidade de restituição das infâncias perdidas? E quem não possuía ouro? O outro está ali enquanto infinito. No olhar da arte estaria o impossível da justiça dito por Derrida. O humano enquanto obra de arte talvez responda à questão da justiça posta por Derrida. É possível não ter havido o roubo destas estórias? Se não é possível mudar esse fato, talvez a justiça seja isso mesmo: o impossível, a arte.

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