A noção de “consciência” e “culpa” no anime Neon Genesis Evangelion

Uma consciência dentro de outra consciência. O homem buscando reconectar-se com a centelha divina que há em si mesmo. Compreender-se. A humanidade à procura de redenção.

Essa síntese flui, jorra,violentamente, de cada um dos 26 episódios de Neon Genesis Evangelion. A análise profunda da culpa, do elogio, do sentido da vida; a criação e a extinção da espécie humana e a luta constante para não deixarmos que a nossa própria consciência seja corrompida.

Produzida na década de 90, tal série animada retrata as angústias da mente humana enquanto entrete – os mais desatentos à essência da estória – com brutais porém bem articuladas batalhas entre robôs gigantes.

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Grosso modo, NGE é isto: crianças que se conectam a enormes humanoides de armadura, construídos pelas mãos humanas com o DNA de deuses, para impedir que a nossa espécie seja extinta do planeta Terra. Mas o projeto é muito mais do que isso. Permite-nos uma infinidade de análises, questionamentos, elucubrações, que vão desde a biociência até religiões e transcendência espiritual.

Tais humanoides gigantescos, que se movem tão somente por meio de alta biotecnologia e em perfeita sincronização com crianças especiais, são o cerne em volta do qual rodeiam diversas questões embora não sejam eles o ponto fulcral de nada. De certo modo, são os fios condutores e careers da trama. Seu nome é, porque foram criados a partir da carga genética de duas criaturas alienígenas chamadas Lilith e Adão: EVA.

Shinji, Asuka e Ayanami são os pilotos de três EVA’s, e, entre um episódio e outro, nos são apresentados progressivamente, a princípio de forma superficial, para posteriormente serem aguçadamente expostos em trabalhos repetitivos de reflexão, de autocrítica, significando e ressignificando sentimentos, angústias, razões ou motivações da infância que nos levam a entendê-los, sofrer com eles e por vezes torcer para que todo aquele sofrimento acabe de uma vez.

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“Por que” piloto o EVA?. “O quê” é o EVA?

São indagações que mesmo os envolvidos nos projetos científicos do laboratório NERV e as crianças fazem a si mesmos incontáveis vezes durante a estória. Mais do que isso, “Quem sou eu”, “Quem é você” e “Quem somos nós” são perguntas implícitas em cada segundo de animação.

Não desde o início as crianças sabem que os EVA’s, mais do que robôs altamente desenvolvidos e que sintonizam-se com a mente humana, também são seres vivos complexos – oportunamente, revelado que são em verdade clones de seres ancestrais encarregados de povoar o planeta Terra, e, ironicamente, promover-lhe um reboot também. Eliminação. Recriação. Evolução. Um novo dilúvio.

Como dito, Evangelion nos permite uma gama extraordinária de análises e analogias, que ultrapassam até mesmo as reais intenções do autor e de modo que os EVA’s podem representar nós conosco mesmos. EVA, e seu piloto: um que age, outro que observa, e o nível de sincronia existente em dois extremos – que abaixa tanto até que entremos em fúria, ou que nos abraça até que nos façamos a paz. E então, a divindade.

NGE trata da linha finíssima, delicadíssima, que reluz entre extremos.

Pilotamos uma máquina, que contém um Anjo (a alma), a partir da capacidade que nosso cérebro (essa pequena consciência) consegue acessar. Dentro deles, lutamos contra nós mesmos, outros Anjos, nossos Anjos, que por vezes confundimos com demônios. Contudo, não seria a mente (o piloto) que faz a alma (o Anjo) sofrer por sua vez?

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Embora NGE traga a figura de Lilith, Adão e Eva de uma forma diversa e ainda mais parabólica do que aquela nos apresentada na Bíblia, na Torá ou no Alcorão, podemos fazer a afirmação que por culpa nossa, e não de outro alguém, fomos expulsos do paraíso. Se éramos capazes de resistir, se éramos portadores de livre-arbítrio… Então por que culpamos a serpente, seja ela quem for, como o traiçoeiro, o enganador? A culpa, trabalhada tão magistralmente na série, em nossa cultura é disseminada ainda hoje de maneira atroz. O culpado é a menina de saias, que atiça, e não o abusador que tem uma desculpa para abusar, que tem o aval para sucumbir ao desejo. A culpa, em regra, é de quem atiçou: “parecia tão gostosa aquela maçã, que…”, se comê-la, terei uma desculpa excelente para dar.

Em Evangelion, o que acontece é uma corrida para fazer com que a extinção e a recriação da humanidade (chamada de instrumentalização humana) aconteça como previsto por antigos livros sagrados (tal qual o nosso Apocalipse), mas de maneira que o próprio Homem seja o controlador do processo. Aliás, já não há mais esperança no Homem, criatura desenvolvida a partir de um processo prejudicado, lento e repleto de fraquezas e que não possui outra saída senão “nascer de novo”. A partir daí, inclusive, é-nos apresentado um dos motivos da criação dos EVA’s: serem utilizados como armas poderosíssimas e sobre-humanas de combate para impedir que os “Anjos”, criaturas monstruosas enviadas em razão de Adão, acessem o corpo de Lilith e promovam o reboot sem a intervenção ou o controle humano. E, mais do que isto, a eliminação das barreiras do Ego e o retorno de todos para um oceano de almas – o LCL – que nada mais é do que o Todo. Todas as consciências, libertas de nossos conflitos e individualidades, fundidos em uma grande consciência só.

A tentativa de fazer com que toda a humanidade se torne uma apenas, um mesmo corpo, busca a iluminação para além da dor e do sofrimento ao passo que, paradoxalmente, todo corpo, toda mente humana, naturalmente já é a junção de incontáveis outros “eus” que, mesmo na solidão de um corpo só, está em constante conflito na busca por segurança, paz, controle, libertação, reconhecimento – empenhando-se na elaboração de uma interpretação da realidade que não nos faça perecer dentro de nós mesmos também. O “eu” que há em nós; o “eu” nosso que está nos outros e que, por sua vez, olha-nos e interfere no “eu” que há em nós; que… Que é uma repetição eterna de questionamentos sem esperança de conclusão.

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Quais as raízes de nossos traumas?

Às vezes, a impressão é mesmo de que nossos problemas apenas acabarão com a aniquilação do ego e sua constante busca por reconhecimento, aceitação, eliminação do estranhamento.

Em NGE, o núcleo que envolve a SEELE – a entidade religiosa que planeja promover o reboot com a intervenção humana – possui intenções diferentes dos demais personagens da trama. Alguns, inclusive, sequer sabem do que está a acontecer ou de quais são os verdadeiros planos, embora sejam os que mais colaborem para a sua acontecência. Como a maioria de nós, humanos não-iluminados, que agem como agem e como devem por natureza agir, inconscientemente colaborando com uma totalidade e uma expansão de consciência que desconhecem – e que talvez jamais venham a compreender inteiramente. Os anciões da SEELE, por exemplo, que equiparar-se-ia ao G8 da ONU, buscam tal “instrumentalização” por motivos obscuros e egoístas, ao passo que um dos protagonistas da série planeja unir-se novamente à alma de sua esposa falecida. Lembra-nos, em alto grau, a nossa realidade e como que mesmo na pior das crises planetárias ainda existem seres humanos ambiciosos, ultra-egoístas e mesquinhos a ponto de preterirem qualquer tipo de vida em prol de um último ganho pessoal.

Mesmo na pior das crises, a prevalência das ambições e vaidades do ego humano nos é inerente. Essa jornada chamada vida que se baseia na tentativa vã de não sucumbir em si mesmo, de manter a sanidade apesar de nós em nós mesmos.

Os EVA’s, levados a um nível filosófico, são nossos personagens; nossos baluartes contra as investidas dos Anjos ou de nossa moral na tentativa de manter-nos protegidos, engaiolados, em um lugar seguro da realidade poderosa e confortável que construímos até que não aguentemos mais e sucumbamos, morramos, unindo-nos novamente ao caldo de LCL que é o líquido primordial de onde viemos: o lifestream.

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Você voltaria a ser homem, indivíduo, dividido, noutra encarnação, se tivesse a chance de escolher?

Shinji, criança protagonista do anime e piloto do EVA 01, parece, mesmo até após terminado o reboot da humanidade, ter se arrependido da escolha que fez de não unir-se ao LCL; permanecer humano, falho, culpado, incompleto. Porque é justamente isto: escolher a humanidade é escolher todas as falhas que lhe são inerentes, e não outra coisa. Não haveria como optar pela humanidade na esperança de que suas atividades não sejam humanas também.

Não por uma vez os personagens se questionam “Por que piloto o EVA?”. Questão que pode facilmente ser substituída para “Para que vivo” neste corpo chamado HUMANO? Assim como os pilotos estão a todo momento se esforçando para sincronizar-se com a consciência dos clones dos deuses, nós estamos a todo tempo buscando nos sintonizar também não apenas com a divindade, mas, inclusive, com os vários “eus” fragmentados que há dentro de nós. Se falhamos, a fúria; se conseguimos, a iluminação. Vestimos-nos com o gene de nossos deuses para batalhar contra os deuses à procura de iluminação. Sendo assim…

Por que “continuo” a pilotar o EVA? Ou, por que continuo “a viver, neste corpo”?

A busca constante por um elogio, que levasse Shinji a qualquer grau de confiança, que lhe apresentasse ou representasse uma razão de continuar, aparelha-se a outros tantos motivos debatidos pelos outros personagens. Não há um consenso e tampouco uma conclusão. No protagonista, principalmente, a necessidade doentia por reconhecimento e uma autoestima extremamente baixa – que beirava à rejeição de si mesmo – unia-se a uma busca por qualquer consideração alheia que lhe fizesse sentir abraçado na imensidão de “eus” que não compunham uma consciência apenas, que lhe desse propósito ainda que não naturalmente. “É para receber elogios que você pilota o EVA? Só por isso?”, Ayanami, em dado momento, questiona Asuka em um de seus constantes acessos de raiva ou impaciência.

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Mas por que “não pilotar” o EVA?

No último episódio, por mais que Shinji e Asuka estivessem perturbados com seus complexos de culpa e uma situação apocalíptica de mundo que poderia ser trazida para o lugar de um verdadeiro colapso mental, não aceitam unir-se ao caldo primordial e eliminar as barreiras do Ego. Únicos humanos habitantes da Terra, caberia a eles povoar o planeta. Ou não. Ao contrário do Adão e Eva bíblicos, renegaram o paraíso por vontade própria. Isto é muito simbólico, apesar de que, depois, quando o arrependimento, a agressividade e a culpa retornam, possam ser consideradas manifestações normais – assim como nos é anormal conseguir controlar a todo tempo todos esses sentimentos que nos são inerentes.

Evangelion é a prova de que não é preciso amarrar todas as pontas soltas para ser considerada uma obra-prima. Para além das severas críticas – e elogios – que o autor sofreu principalmente nos últimos episódios da série, sua resposta ao público foi brilhantemente marcada pelo comportamento de Shinji dentro da própria trama. Nele, foi transmutada não apenas o que o autor sentiu com a manifestação popular, mas inclusive o próprio comportamento dos fãs em relação a determinados aspectos da produção.

O sentimento de culpa, que permeia Evangelion do início ao fim, faz retornar a esta analogia a figura dos nossos progenitores do Jardim do Éden. Nosso Adão e nossa Eva passaram o restante de suas vidas refletindo sobre sua fraqueza, culpando a serpente por sua instigação, ou julgando que Deus fora severo demais em sua punição?

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Desde o início da estória até o “Que nojo…” proferido por Asuka contra Shinji – frase esta que encerra o último ato e que possui diversas interpretações e sentidos -, a impressão que se tem é de que o homem jamais estará satisfeito e se julgará por isto também. Sentimos culpa por não sermos deuses e jamais chegar ao seu patamar. Culpamo-nos por não conseguir alcançar algo que nunca nos foi possível de alcançar ou ser.

Culpamo-nos por nossos desejos sexuais, por sermos tristes em situações críticas, por não acertarmos sempre, por ter sentimentos destrutivos, por odiarmos entes queridos nem que por um segundo apenas, por não ser reconhecido, por não ser alguém de sucesso – a culpa é minha por não ser? – e dentre outras coisas por fracassarmos uma vez após outra. Ou seja, por tudo que nos é normal sentir e pela nossa condição de fracassar; que está em nosso DNA, no mais íntimo da nossa programação padrão enquanto seres vivos. A consequência disto é o colapso, o autossabotamento. Por sermos o que somos, como se houvesse modo de sermos outro tipo de criatura que não esta.

Deus.

Nossa armadura, nosso superego, nossa aparência divina, que intenta guerrear contra o próprio Deus – o pai – não porque odiamos o que ele é, mas porque odiamos não ser como ele. Entretanto, se fôssemos como ele, como reconheceríamos a nós mesmos na inexistência do “outro” em quem não poderemos mais nos identificar ou nos ver?

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Eu tenho algum valor enquanto “indivíduo”?

NGE é um trabalho, um tratamento, um realinhamento de nós com a Grande Consciência que desejamos ser, mas, talvez, também, “ter”. Assim como o pai de Shinji, cientista que lidera as pesquisas da NERV, que apesar de ser movido por uma enorme paixão pretende algo ainda maior: unir-se ao próprio embrião de Adão e ser exatamente a divindade que terá as rédeas da recriação da vida.

Queremos liberdade, queremos o Todo, assim como queremos ser os soberanos da liberdade alheia e manter nossa individualidade inclusive. Somos looping. Não há uma solução. Isto é o ser humano. Exatamente isto é o ser humano: o meio termo. Shinji, ao sacrificar-se e ao seu EVA em prol do meio termo, negando a instrumentalização, vislumbra a dádiva do meio termo, que não poderia ser outra coisa senão um paradoxo, um impasse, uma impossibilidade, uma fenda entre dois extremos que, em si mesmo, é um vazio também. O ser humano sempre estará incompleto, e, aparentemente, problema maior é torturar-se com isto.

Schopenhauer visita esta reflexão, com seu dilema do ouriço, por encaixar-se perfeitamente no conflito quase sem saída no qual Shinji se encontra: machucar o outro ou a mim? Se machuco-os, sou culpado; se me machuco, sou patético; se fico bem por ter me machucado em vez de machucado o outro, ainda assim sou egoísta. Qual o caminho?

Culpa. reconhecimento, sincronia. Nós em nós mesmos. Quem somos? De onde viemos e para onde iremos? E por quê?

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Como alcançar a maior taxa de sincronização possível?

Talvez, a diferença maior entre Evangelion e a nossa realidade seja a possibilidade do reboot, da instrumentalização que nos faça materialmente unirmo-nos ao Todo para, um dia, renascermos melhores. Uma humanidade responsável por seus atos. Que não espere que Deus e seus anjos a chame de volta para o paraíso ou culpe a serpente pela sua própria fraqueza. Que enxergue e cuide deste planeta não como uma punição, mas como o maior presente que já recebemos, que ninguém jamais nos deu. Preservando-o, e não menosprezando-o na esperança de retornar ao paraíso, é que mostraremos a nossos possíveis criadores que se lhe nos houve redenção. Não pelo perdão de uma culpa que é só nossa, mas pela compreensão e pela compaixão mútua de nossas limitações existenciais.

Como Shinji, temos a graça do meio termo. Momentos de fúria, momentos de iluminação. Mais do que se perguntar “Por que piloto o EVA”, talvez devêssemos simplesmente agradecer por ter o privilégio de pilotar. Com a alegria de sermos quem somos, e não carregando a culpa de não sermos quem jamais poderemos nos tornar. Afinal, não é para isso que reencarnamos como humanos? A chance de sentirmos prazer, dor – que nos faz distingui-la do próprio prazer – e o estranhamento com o outro – que nos faz identificarmos nós mesmos – para sentirmos liberdade de ser “um” embora separado do Todo?

Por que piloto o EVA? Para lembrar que vivo, para reencontrar-me com o lifestream, ser reconhecido, ser elogiado, ou perceber que existo? Tudo isso. E tudo bem. Porém, significa também a impossibilidade de existirmos senão em sincronia com o “outro”. Com o nosso próprio “Anjo”.

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O nirvana coletivo ou a eliminação das barreiras do ego em massa, da forma como acontece em Evangelion, é – ao menos atualmente – impossível para nós. Jamais seremos outra coisa senão “humanidade”. Então, que sejamos a melhor humanidade que possa haver. Se nesta relação de alteridade só se pode ser “eu” em relação ao “outro”, e se ser humano é estar sempre em conflito, que nos culpemos menos por sermos quem somos. Você é humano, e a culpa não é sua.

Mas, se um dia tornarmo-nos alguma outra coisa que não seja a própria humanidade… bem… Repensemos o problema quando isso acontecer.

Até lá, sincronize-se ao seu EVA e continue a pilotar.

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Fonte das imagens: Evangelion Fan Art on Pinterest. Disponível em: https://www.pinterest.co.uk/Dehrunes/neon-genesis-evangelion-fan-art.

 

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