Por que visitar a mostra de Adriana Varejão na Pinacoteca?

Adriana Varejão, nascida em 1954, é uma das artistas brasileiras mais famosas no Brasil e no mundo. Sua pesquisa artística está reunida na mais abrangente exposição já feita sobre seu trabalho, Adriana Varejão: Suturas, fissuras e ruínas, na Pinacoteca do Estado de São Paulo, curada por Jochen Volz, contando com 60 obras criadas entre 1985 e 2022.

Adriana Varejão na abertura da exposição na Pinacoteca
 

Uma das salas da mostra com obras das série Saunas e Ruínas de charque

Seu trabalho, com base na pintura, mas que transita entre diversos suportes, em uma produção diversa e complexa, trata de temas importantíssimos, tais como a colonização, a relação entre o colonizador e o colonizado, as trocas culturais entre estes e a antropofagia cultural, sem deixar de lado tópicos como a violência presente no processo de colonização, a escravidão e o racismo, herdeiro da sociedade colonial e que existe até hoje. São temas ligados à nossa história colonial que continuam atuais, mesmo que o Brasil não seja mais colônia portuguesa desde 1822.

Adriana Varejão, Filho bastardo II – Cena de interior (1995)

 

Entretanto, é importante notar que o trabalho da artista não é somente relevante para os brasileiros ou a aqueles interessados por história brasileira, pois Adriana Varejão consegue trazer diversas reflexões e propor camadas de leituras múltiplas em uma mesma obra. Assim, o espectador leigo pode entender uma obra de uma certa maneira – há, inclusive, bastante material escrito de fácil entendimento em cartazes ao longo da exposição, para que o visitante possa compreender a poética da artista -, enquanto outro espectador com uma vivência diferente pode vê-la sob outra ótica, ainda diversa da do olhar do especialista ou habitué do mundo da arte. Essa é justamente a beleza da arte.

Essa retrospectiva de quase quatro décadas da carreira da artista, especialmente, traz obras icônicas de sua produção artísticas, algumas das quais vemos em livros, conhecemos através de fotos na internet, mas raramente temos a oportunidade de ver de perto, pois muitas delas fazem parte de coleções particulares ou não são expostas em permanência em museus. Pessoalmente, foi um imenso prazer contemplar as telas da série Línguas cara a cara e perceber o quanto Irezumi em ponta de diamante é bem mais cheia de textura do que eu imaginava. Além disso, o visitante também poderá admirar obras que não são expostas no Brasil há trinta anos e outras que foram criadas especialmente para essa exposição.

Adriana Varejão, Língua com padrão sinuoso (1998)

 


Adriana Varejão, Irezumi em ponta de diamante (1997)

A mostra começa no octógono da Pinacoteca Luz, com pinturas tridimensionais, como a artista chama o que parecem elementos arquiteturais em ruínas e fazem parte, exatamente, da série Ruínas de Charque, com carnes e entranhas aparecendo sob a superfície polida, gélida e “civilizada” de azulejos – azulejos que aparecem com muita frequência na obra de Adriana Varejão e fazem referência aos azulejos portugueses muito comuns na época barroca. O nome da mostra faz referência, justamente, a elementos usuais no trabalho da artista, por exemplo, as fissuras, seja em telas rasgadas que ecoam a obra de Lucio Fontana; quanto aquelas que revelam as carnes por trás dos azulejos; além das fissuras, suturas e ruínas metafóricas que compõe a história brasileira.

Obras da série Ruínas de charque no octógono da Pinacoteca

 

Adriana Varejão, Parede com incisões a la Fontana II (2001)

Lucio Fontana, Conceito espacial: Expectativa (1960)

 

Em seguida, temos uma sucessão de salas com trabalhos que aparecem em alguns momentos em ordem cronológicas, com o primeiro ambiente sendo dedicado às criações da década de 80, quando a artista ainda estudava na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, uma prestigiosa escola de arte no Rio de Janeiro, e os seguintes dedicados a obras dos anos 90 e 2000. Entretanto, outras salas trazem obras de períodos diversos, mas que tratam de temas próximos, convidando assim a confrontação entre a maneira que foram tratados. Na última sala, Azulejões convida os espectadores a selfies e fotos com essa pintura icônica, que faz alusão, novamente, aos azulejos portugueses.

Adriana Varejão, Altar Amarelo (1987). Foto de Vicente de Mello.

 

Adriana Varejão, Azulejaria de cozinha com caças variadas (1995). Foto de Eduardo Ortega.

Uma das salas da exposição com trabalhos sobre o oceano

 

Adriana Varejão, Azulejões (2000)


Serviço:

Adriana Varejão: Suturas, fissuras e ruínas
Local: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Primeiro andar e Octógono, na Pinacoteca Luz
Período: 26/03/2022 a 0108/2022

 

Bibliografia:

Kamila Karen de Jesus Costa, “Corpo Arché: Memória e poder na obra de Adriana Varejão” in Revista Internacional Interdisciplinar INTERthesis, Florianópolis, v. 18 (jan/dez 2021), p. 1-15. Disponível em:
https://periodicos.ufsc.br/index.php/interthesis/article/view/76103

Marcos Moraes, Adriana Varejão, São Paulo, Folha de São Paulo – Instituto Itaú Cultural, 2013.

Lilia Moritz Schwarcz, Adriana VAREJÃO, Pérola Imperfeita: A história e as histórias na obra de Adriana Varejão, Rio de Janeiro, Cobogó, 2014. Compre esse livro aqui (comprando qualquer produto na Amazon através desse link e sem pagar nada a mais por isso, você ajuda a manter o site Artrianon).

Aline Pascholati, “OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Azulejões’ de Adriana Varejão” in Artrianon. Consultado em 12/04/2022.
https://artrianon.com/2019/06/18/obra-de-arte-da-semana-azulejoes-de-adriana-varejao/

Aline Pascholati, “OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Figura de convite III’ de Adriana Varejão” in Artrianon. Consultado em 12/04/2022. https://artrianon.com/2020/06/08/obra-de-arte-da-semana-figura-de-convite-iii-de-adriana-varejao/

Aline Pascholati, “OBRA DE ARTE DA SEMANA: ‘Testemunhas oculares X, Y, Z’ de Adriana Varejão” in Artrianon. Consultado em 12/04/2022.
https://artrianon.com/2019/08/13/obra-de-arte-da-semana-testemunhas-oculares-x-y-z-de-adriana-varejao/

Fonte das imagens: Divulgação / Fotos da autora do texto

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