Arte abstrata: Meu sobrinho de 5 anos poderia ter pintado isso?

Tanto como historiadora da arte, quanto como artista visual trabalhando com a vertente abstrata, já ouvi muito as mais diversas variações da frase “meu sobrinho de 5 anos poderia ter pintado isso”, referindo-se, pejorativamente, a um trabalho não-figurativo, ou seja, abstrato, como se o artista que o faz não pudesse ser considerado de fato como tal pela ausência de figuras em suas obras.

Primeiramente, é muito legal que os espectadores sejam sinceros sobre um período ou forma de arte que não apreciem, ao invés de fingir gostar de tudo ou seguir cegamente os críticos e especialistas. Além disso, existe por aí arte que realmente é ruim, de baixa qualidade, ou com pouco interesse para o público e para a história da arte. E lembremos que não é só a arte abstrata que pode ser de má qualidade, pois existem obras de arte figurativas – com figuras reconhecíveis do mundo a nossa volta – que são muito ruins, mesmo algumas que aparentemente são a expressão da pura perfeição técnica – mas é só de perfeição técnica que vive a arte? Desde o advento da arte moderna, e, sobretudo na arte contemporânea, definitivamente não, justamente porque o que é considerado bom ou ruim no quesito arte mudou, com a ideia e os processos artísticos se tornando muito mais importantes do que o objeto final, a obra de arte propriamente dita, que, hoje, pode nem ser um objeto! O complicado é como esse julgamento de “bom” ou “ruim” é feito, podendo obras de artistas sensacionais serem criticadas por uns e apreciadas por outros, dependendo de fatores como o tempo, a moda, as disputas entre correntes artísticas e afins. Além disso, é importante lembrar que a partir da arte moderna o artista também se torna cada vez mais livre, podendo criar – literalmente – quase de qualquer maneira, usando qualquer material, o importante sendo muito mais como ele ou outros atores do mundo da arte “explicam” seus porquês, e o quanto os especialistas e os grandes colecionadores se convencem com esses argumentos.

Mas, voltando à abstração, aos que realmente possuem vontade de compreendê-la, e, quem sabe, de se conectar com obras abstratas, proponho que pensemos nesses trabalhos, antes de mais nada, como comunicando sentimentos e sensações – não necessariamente sendo sempre essa a intenção do artista, já que criações pensadas de maneira extremamente racional podem muito bem causar emocionais fortes nos espectadores -, assim como, em alguns casos, deleite estético. É fato que é muito mais fácil sentir essa conexão com a pintura, por exemplo, ao admirá-la pessoalmente do que quando se vê uma imagem pela internet. O filósofo Walter Benjamin escreveu, ainda no início do século XX, quando a tecnologia de reprodução de imagens engatinhava, se comparada a hoje, sobre essa “aura” da obra de arte, que tem um “hic et nunc”, um “aqui e agora”, que não pode ser reproduzido, e, com certeza, ele tem razão. Algumas criações, mais do que outras, são difíceis de se envolver por fotos e vídeos, e, em minha opinião, a arte abstrata se encaixa bastante nessa categoria.

Você já tentou “conversar” com alguma obra abstrata pessoalmente? Sentar-se sozinho frente à uma pintura ou escultura – ou ficar em pé, se não houver bancos – e se deixar levar pelo que está vendo? Sem se importar com o que acontece a sua volta ou com o que está escrito na plaquinha ao seu lado? Segundo meus professores na Sorbonne, antes de fazer qualquer pesquisa acerca da obra sobre a qual escreveríamos, deveríamos fazer esse exercício, olhar primeiro para a obra e, somente depois, ler o que outros disseram sobre ela. Eu, pessoalmente, poderia ficar horas frente a um Rothko e seus contornos fluidos e meditativos.

Mark Rothko, Vermelho claro sobre preto, óleo sobre tela, 230,6 x 152,7 cm, 1957. Conservada no Tate, Londres, Reino Unido.

Aos que nunca fizeram essa experiência, vale a pena tentar. Não é garantido que você vá sentir algo ou gostar do que está vendo, pois as pessoas são diferentes e pode ser que a arte abstrata nunca te toque. E está tudo bem. Não se cobre, se obrigando a gostar de algo que simplesmente pode não ser a sua praia, só porque todo mundo gosta ou porque quem “entende” um mínimo de arte tem que apreciar. O direito de não se sentir tocado é todo seu! Afinal, o artista e sua criação e o espectador e a obra são dois lados de uma mesma moeda, que não precisam necessariamente ser iguais.

Em seguida, temos o ponto do porquê alguns artistas abstratos fazem sucesso em detrimento de outros, ou ainda são considerados “grandes mestres”. Boa parte dos artistas abstracionistas famosos foram pioneiros em suas maneiras de criar. Ou seja, se alguém fizer a mesma coisa atualmente, tempo no qual a arte abstrata já tem mais de um século – às vezes a gente esquece do quão antiga ela é -, talvez não seja tão interessante, pois não está acrescentando nada novo à grande discussão que é, na verdade, a história da arte. Quando os primeiros dessa vertente criaram, eles estavam se aventurando por um mundo inexplorado. Pensemos em Hilma af Klimt, que pintou algumas das primeiras pinturas abstratas no início do século XX e preferiu que suas obras fossem apresentadas ao público somente décadas após sua morte, pois acreditava que seu trabalho não seria compreendido, ou Malevich, que teve a ousadia de expor uma obra composta de um quadrado branco em um fundo branco!

O mesmo quesito de inovação vale para outras formas de abstração um pouco mais recentes, como o expressionismo abstrato de Pollock, por exemplo, que viu uma nova forma de trabalhar os materiais e as cores, gotejando tinta líquida na tela posicionada horizontalmente sobre o chão, em volta da qual ele circulava, deixando as marcas de seus gestos na superfície de pano. Aqui, é justamente o processo e as marcas que ele deixou na obra final que mais interessam, além de outros critérios como a harmonia entre as cores, o sentimento, a beleza da pintura ou a imersão do espectador – as pinturas de Pollock são bastante grandes e permitem que o espectador mergulhe nelas.

Hilma af Klint, As dez maiores, No 7, Idade adulta, tempera sobre papel montada em tela, 315×235 cm, 1907.

Kazimir Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco, óleo sobre ela, 79,4 × 79,4 cm, 1918. Conservada no Museum of Modern Art, em Nova Iorque, EUA.

Jackson Pollock, Número 1 (Névoa Lavanda), óleo, resina sintética e alumínio sobre tela, 221 x 299,7 cm, 1950. Conservada na National Gallery of Art, Washington, EUA.

Ainda hoje, mais de cem anos depois do aparecimento da abstração pura, a maioria dessas obras ainda é extremamente incompreendida por boa parte do público não-especializado. Talvez essa incompreensão aconteça, pois, criações abstratas podem demandar um exercício mais longo para criar uma conexão com o espectador, que não reconhecerá nelas figuras do mundo no qual está acostumado a viver, além da supervalorização da habilidade técnica como validação do trabalho artístico pelo público leigo, que não entende que os critérios mudaram ou os recusa.

Além disso, a arte abstrata, de maneira geral, traz muitas reflexões sobre a própria arte, sobretudo a vertente geométrica. Então, sim, talvez seu sobrinho pudesse fazer uma pintura igual a de Van Doesburg, mas será que cem anos atrás, aos cinco anos de idade, ele faria a mesma pintura se ninguém houvesse feito antes dele e ele não tivesse visto imagens parecidas desde que nasceu e as guardado em seu inconsciente? Aliás, talvez, ele tenha mesmo aprendido na escola algo do tipo, já que muitas técnicas modernistas são trazidas para aulas de arte escolares. Sabe aquele papel sobre o qual colocávamos tinta e dobrávamos no meio, na época do jardim de infância, e depois abríamos para admirar a mistura de cores espelhada, que com frequência parecia uma borboleta? Pois é, esse processo de criação “automática”, chamado de decalcomania, era muito usado por alguns surrealistas, como Max Ernst e Oscar Domínguez, que criavam a base de suas pinturas através dele e depois a completariam com outros elementos, transformando-as em paisagens ou criaturas míticas.

Além disso, será que uma criança de cinco anos conseguiria fazer esses quadrados perfeitamente uniformes, como os de Mondrian, com tinta a óleo, que é particularmente difícil de se trabalhar nesse sentido? Ou, pior ainda, com aquarela? Hoje, existem muito mais possibilidades quanto aos materiais do que na época dos pioneiros da abstração, quando a tinta acrílica, tão popular nos nossos dias, simplesmente não existia! Ou ainda, será que qualquer criança teria sensibilidade e habilidade com as cores o suficiente para realizar algo como Kandinsky? Algumas poucas podem ter já nascido grandes coloristas, mas, certamente, não todas.

Theo van Doesburg, Composição XXII, óleo sobre tela, 45,5 x 43,3 cm,1922. Conservada no Van Abbe museum, Eidhoven, Países Baixos.

Oscar Domínguez, Sem título, guache sobre papel, 15,4 x 21,9 cm, 1936-37. Conservada no Musem of Modern Art, Nova Iorque, Estados Unidos.

Wassily Kandinsky, Amarelo-Vermelho-Azul, óleo sobre tela, 128 x 201,5 cm, 1925. Conservado no Centre Pompidou – Musée National d’Art Moderne, Paris, France.

Assim, proponho pelo menos dois níveis de leitura em uma obra abstrata – algumas poderão ter mais, e não necessariamente todas terão ambos os níveis, não sendo, por isso, piores aquelas que param no primeiro.

De início, há as sensações, os sentimentos – que o artista pode ter querido comunicar ou não, podendo ser sutis referências ao próprio universo inconsciente do observador que o façam se sentir de uma maneira ou de outra, que talvez nada tenham a ver com o propósito do criador -, e, possivelmente, mas não necessariamente, o deleite estético. Nesse caso, pode ser que alguns artistas só coloquem determinadas cores porque ficariam bonitas ou “pareciam certas” – como gostava de afirmar Gombrich quanto a composições, de forma geral -, o importante sendo o resultado e a impressão do espectador.

Depois, se aprofundando, podem existir reflexões de diversos tipos, por exemplo, aquelas sobre a própria natureza da pintura, como vemos nas criações dos abstracionistas geométricos, que buscavam trabalhar somente com os elementos intrínsecos ao mundo da pintura, ou seja, as formas, as linhas e as cores, sem influências ou referências ao mundo externo, pois, para eles, esses elementos se bastam e são a “verdadeira” pintura. Alguns abstracionistas, inclusive, acreditavam piamente que a “conquista” da abstração era um caminho sem volta, e a pintura figurativa seria abandonada para sempre, uma vez que todos compreendessem sua “verdade” – tal discurso lembra o de fanáticos religiosos, o que talvez não seja à toa, dado que a teosofia influenciou o trabalho de muitos artistas da arte abstrata. Alguns desses radicais criticavam seus colegas que haviam se desvencilhado das regras da representação figurativa, mas haviam parado antes de “completar o processo” e chegar à abstração, guardando alguns elementos reconhecíveis do mundo real, como os cubistas Braque e Picasso.

Georges Braque, Natureza morta, harpa e violino, óleo sobre tela, 116,3 x 81,5 1911. Conservada no Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, Düsseldorf, Alemanha.

Particularmente, exceto por Malevich, que me conquistou com seu Quadrado branco sobre fundo branco, de 1918, não sou a maior fã da abstração geométrica, mas entendo sua importância para história da arte – gostar e compreender são coisas completamente diferentes e essa diferença é crucial! E, aqui temos outro ponto importante: não necessariamente toda a arte abstrata vai te agradar ou te tocar. Ou seja, pode ser que você só não tenha achado ainda as obras e os artistas não-figurativos que farão seu coração bater mais forte.

Assim, espero, caro leitor, que tenha esclarecido algumas de suas dúvidas, e, se mesmo experimentando se deparar pessoalmente a uma criação abstrata – talvez até mais de uma vez -, você continue a achar que a abstração não é uma forma de arte válida, isso não é necessariamente um problema e você tem direito a sua opinião, pois a relação do espectador com a obra é tão importante quanto a do artista com ela.

Bibliografia:

Walter Benjamin, The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction, 1935.

E. H. GOMBRICH, The Story of Art, New York, Phaidon Press,1951.

Georges ROQUE, Qu’est-ce que l’art abstrait ?, Paris, Gallimard, 2003.

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