Arte abstrata: Meu sobrinho de 5 anos poderia ter pintado isso?

Tanto como historiadora da arte, quanto como artista visual trabalhando com a vertente abstrata, já ouvi muito as mais diversas variações da frase “meu sobrinho de 5 anos poderia ter pintado isso”, referindo-se à um trabalho não-figurativo, ou seja, sem figuras, abstrato.

Primeiramente, é muito legal que os espectadores sejam sinceros sobre um período ou forma de arte que não apreciam, ao invés de fingir gostar de tudo, seguindo cegamente os críticos e especialistas. Além disso, existe por aí arte que realmente é ruim, de baixa qualidade, ou com pouco interesse para o público e para a história da arte – o complicado é como esse julgamento é feito, podendo obras de artistas sensacionais serem criticadas por uns e apreciadas por outros, dependendo de fatores como o tempo, a moda, as disputas entre correntes artísticas e afins.

Entretanto, aos que possuem real vontade de compreender e, quem sabe, se conectar com obras abstratas, proponho que pensemos nesses trabalhos, antes de mais nada, como querendo comunicar um sentimento ou sensação, assim como, em alguns casos, deleite estético. É fato que é muito mais fácil sentir essa conexão com a pintura, por exemplo, ao admirá-la pessoalmente do que quando se vê uma imagem pela internet.

O filósofo Walter Benjamin escreveu sobre essa aura da obra de arte, que não pode ser reproduzida, ainda no início do século XX, quando a tecnologia da reprodução de imagens ainda engatinhava, quando comparada a hoje, e, com certeza, ele tem razão. Algumas criações, mais do que outras, são difíceis de se envolver por fotos e vídeos, e, em minha opinião, a arte abstrata se encaixa nessa categoria.

Você já tentou “dialogar” com alguma obra abstrata pessoalmente? Sentar-se frente à pintura ou escultura – ou ficar em pé, se não houver bancos – e se deixar levar pelo que está vendo? Eu, pessoalmente, poderia ficar horas frente a um Rothko e seus contornos fluidos e meditativos.

Mark Rothko, Vermelho claro sobre preto, óleo sobre tela, 230,6 x 152,7 cm, 1957. Conservada no Tate, Londres, Reino Unido.

Aos que nunca fizeram essa experiência, vale a pena tentar. Não é garantido que você vá sentir algo ou gostar do que está vendo, pois as pessoas são diferentes, e pode ser que a arte abstrata nunca te toque.

Depois, temos o ponto do porquê alguns artistas fazem sucesso em detrimento de outros, ou ainda são considerados “grandes mestres”. Boa parte dos artistas famosos abstracionistas foram pioneiros em suas maneiras de criar. Ou seja, se alguém fizer a mesma coisa atualmente, tempo no qual a arte abstrata já tem mais de um século, talvez não seja tão interessante. Quando os primeiros dessa vertente criaram, eles estavam se aventurando por um mundo inexplorado. Pensemos em Hilma af Klimt, que preferiu que suas obras fossem apresentadas ao público somente décadas após sua morte, pois acreditava que seu trabalho não seria compreendido, ou Malevich, que teve a ousadia de expor uma obra composta de um quadrado branco em um fundo branco!

O mesmo vale para outras formas de abstração um pouco mais recentes, como o Expressionismo Abstrato, pois Pollock, por exemplo, viu uma nova forma de trabalhar os materiais e as cores, gotejando tinta líquida na tela colocada horizontalmente, sobre o chão, em volta da qual ele circulava, deixando as marcas de seus gestos na superfície de pano.

Hilma af Klint, As dez maiores, No 7, Idade adulta, tempera sobre papel montada em tela, 315×235 cm, 1907.

Kazimir Malevich, Quadrado branco sobre fundo branco, óleo sobre ela, 79,4 × 79,4 cm, 1918. Conservada no Museum of Modern Art, em Nova Iorque, EUA.

Jackson Pollock, Número 1 (Névoa Lavanda), óleo, resina sintética e alumínio sobre tela, 221 x 299,7 cm, 1950. Conservada na National Gallery of Art, Washington, EUA.

A arte abstrata, de maneira geral, traz muitas reflexões sobre a própria arte também, sobretudo a vertente geométrica. Então, sim, talvez seu sobrinho pudesse fazer uma pintura igual a de Van Doesburg, mas será que cem anos atrás, aos cinco anos de idade, ele faria a mesma pintura se ninguém houvesse feito antes dele e ele não tivesse visto imagens parecidas desde que nasceu e as guardado em seu inconsciente? Talvez, ele tenha mesmo aprendido na escola algo do tipo – muitas técnicas modernistas são trazidas para aulas de arte escolares, inclusive. Além disso, será que ele conseguiria fazer esses quadrados perfeitamente uniformes com tinta à óleo, que é particularmente difícil de se trabalhar nesse sentido? Ou, pior ainda, com aquarela? Hoje, existem muito mais possibilidades quanto aos materiais do que há 100 anos, quando a tinta acrílica, tão popular nos nossos dias, simplesmente não existia.  

Theo van Doesburg, Composição XXII, óleo sobre tela, 45,5 x 43,3 cm,1922. Conservada no Museu Van Abbe, Eidhoven, Países Baixos.

Ou ainda, será que qualquer criança teria sensibilidade e habilidade com as cores o suficiente para realizar uma obra como Kandinsky? Algumas poucas nascem grandes coloristas, mas não todas.

Assim, proponho dois níveis de leitura em uma obra abstrata – e não necessariamente todas terão ambos os níveis, não sendo por isso piores aquelas que param no primeiro.

De início, há as sensações, os sentimentos que o artista quis passar, e, possivelmente, o deleite estético. Nesse caso, pode ser que alguns artistas só coloquem determinadas cores porque ficariam bonitas ou “pareciam certas” – como gostava de afirmar Gombrich quanto a composições, de forma geral -, o importante sendo o resultado e a impressão do espectador.

Em seguida, podem existir reflexões de diversos tipos, por exemplo, aquelas sobre a própria natureza da pintura, como vemos nas criações dos abstracionistas geométricos, que buscavam trabalhar somente com os elementos intrínsecos ao mundo da pintura, ou seja, as formas e as cores, sem influências do mundo externo, pois, para eles, estes se bastam e são a “verdadeira” pintura.

Espero, caro leitor, que essa leitura tenha esclarecido algumas de suas dúvidas, e, se mesmo experimentando se deparar pessoalmente a uma criação abstrata, você continue a não achar a abstração uma forma de arte válida, isso não é necessariamente um problema, pois a relação do espectador com a obra é tão importante quanto a do artista com ela.

Bibliografia:

Walter Benjamin, The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction, 1935.

E. H. GOMBRICH, The Story of Art, New York, Phaidon Press,1951.

Georges ROQUE, Qu’est-ce que l’art abstrait ?, Paris, Gallimard, 2003.

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