Manual de instruções para se apreciar a arte contemporânea

Obras de arte contemporânea, mesmo sendo estas figurativas, podem parecer abstratas aos olhos da maioria dos observadores. Além disso, a arte moderna e contemporânea é frequentemente taxada de “desenho de criança”, com adoráveis sentenças do tipo “meu sobrinho de cinco anos faz igual, só que não custa tão caro”, quando o espectador se depara, por exemplo, com uma série de rabiscos e manchas coloridas. Pior ainda se forem impressões de mãos (acredite, eu sei do que eu falo, já desenvolvi uma série do tipo).

A arte é uma grande incompreendida e o artista, na maior parte das vezes, é taxado de louco, excêntrico ou gênio, sendo a sociedade no geral bastante complacente com este e suas atitudes, sem nunca levá-los realmente a sério fora de seu campo de excelência. É algo bastante curioso, dado que boa parte dos criadores da atualidade vive de maneira relativamente normal, comparado à vida de um cidadão de qualquer grande cidade cosmopolita. É importante notar que o artista – na verdade artesão – na Antiguidade e Idade Média, era valorizado por suas habilidades manuais – aí entendemos o motivo pelo qual no grego antigo, a palavra téchne (“técnica” ou “ofício”) era o mais próximo na língua para designar o temo “arte”. Apesar disso, alguns criadores/artesãos desses tempos tornaram-se bastante famosos e apreciados, alguns chegando até a “assinar” suas obras. Porém, a ideia de gênio criador, veio somente com a Renascença e a Idade Moderna. A noção de “artista maldito” – aquele sofredor depressivo que através desse fundo de poço e seu dom genial cria tesouros quase divinos – tendo se popularizado após nosso querido Van Gogh suicida e cortador de orelha.

Voltando as obras em si, quando, por exemplo, pensamos nas mais “recentes” formas de arte, da arte conceitual – que como o nome diz, é o conceito antes de tudo – até as mais tecnológicas e inusitadas – vídeo arte, performance e instalação – que as vezes nem parecem arte, a percepção do público leigo é ainda pior, a não ser que se trate de algo interativo, legal e bonitinho. Aí entra algo fundamental para apreciação da arte: o conhecimento, aliado à observação e à reflexão. É claro que existem obras que devem apenas ser sentidas, ou artistas não muito sérios que jogam algo na tela com o único intuito de ganhar dinheiro, mas isso já é outra história, que não caracteriza necessariamente e exclusivamente a grande maioria dos casos.

É mais fácil admirar e apreciar uma arte bela ou que ostenta alta qualidade técnica, reproduzindo o mundo de maneira “perfeita”. Quando é preciso verdadeiramente refletir para entender uma obra e suas referências, é bastante difícil fazê-lo sem possuir as ferramentas intelectuais necessárias, além de que o ser humano, por natureza, tende a lei do mínimo esforço, com a ideia quase inconsciente de que “pensar dá preguiça”.

Aqui chegamos a mais um ponto de extrema importância que é praticamente o motivo pelo qual me coloquei a escrever esse texto. Nós não somos educados e treinados a refletir frente a uma obra de arte. E quando digo “nós”, falo do Brasil. Em diversos países da Europa, principalmente no caso da França, que conheço melhor, as crianças entram desde cedo em contato com a arte – até mesmo a contemporânea. Presenciei diversas vezes, por exemplo, no grande Museu do Louvre, o qual eu frequentava assiduamente – sério, sem esnobismo, eu ia até lá quando estava sem nada para fazer – ou em outras instituições menores, professores e alunos realmente jovens, com menos de dez anos de idade, frente aquelas imensas pinturas a óleo. E antes de “explicar” a obras às pequeninas mentes, o mestre pedia que as crianças dissessem o que pensavam observando-a, lembravam e sentiam, e ia decorrendo assim durante as várias fases da “dissecação” do objeto pictural, claramente em termos e vocabulário adaptados àquela idade. Também vi, de maneira bastante divertida, pais colecionadores levarem seus filhos em tenra idade a grandes feiras de arte, e os pequeninos pedindo para comprar esta ou aquela obra – isso em um meio bastante abastado, mas que também serve de exemplo contrastante se pensarmos em grande parte das – porém não todas – famílias brasileiras que poderiam comprar arte. Aliás, comprar arte, na Europa, não é só hábito do milionário. Pessoas “normais”, de classe média e média alta, adquirem peças por prazer ou simples investimento. Aqui no Brasil, é quase cômico, como algumas pessoas compram um sofá por digamos, oito mil reais, sendo esse um objeto na maioria das vezes produzido em série e que deteriorará e será descartado o tempo – excluindo nesse caso peças de design que valem o preço – enquanto uma obra por esse preço gera olhares arregalados de espanto.

Voltando aos pontos fundamentais dos quais falávamos, notem que além do conhecimento, que em matéria de arte, no Brasil é bastante precário e quase desconhecido à maioria da população, há também um treino da simples reflexão, através da qual podemos penetrar em pelo menos parte da obra, o que em minha opinião já é bastante válido.

Sobretudo no mundo da arte contemporânea, essa reflexão é extremamente importante, pois, apesar de alguns artistas tratarem de temas facilmente reconhecíveis, por exemplo, aqueles que fazem referência à cultura pop ou tratam temas em voga – globalização, feminismo, reciclagem, ecologia – muitos possuem palhetas únicas de temas e maneiras exclusivas de representá-los, gerando assim, se pensarmos no imenso número de artistas, um montante grande demais de informação a assimilar. Sendo também, em minha opinião, mais difícil definir a que estilo ou corrente artística este ou aquele artista pertence nos dias atuais. Passou-se o tempo onde regras estritas – perspectiva, palheta de cores, número de planos, temas – eram especificadas em contrato com o comanditário da obra, ditados por corporações de ofício ou padrões estéticos comumente aceitos pela sociedade. Pelo menos em teoria, hoje o artista é completamente livre e a falta desses padrões dificulta uma leitura mais automática da obra.

Minha dica aos espectadores perdidos, porém interessados, é a seguinte: comece por mostras mais “fáceis”, digamos de algum artista renomado, seja um daqueles “das antigas”, um Da Vinci, por exemplo, ou um dos grandes da arte contemporânea. No caso de uma visita a um museu bem grande, com dezenas, centenas ou milhares de obras, escolha somente algumas, as que lhe chamaram mais atenção ou aquelas que já ouviu falar e sempre o deixaram curioso. E então pare frente a esta, observe, sinta, interprete, aprecie. Tentar absorver um Louvre inteiro em uma só visita pode ser bastante desgastante. Entendo que principalmente quando você é um turista, quer absorver o máximo no pouco tempo que tem. Mas vamos com calma, senão você sairá de lá com um turbilhão de imagens misturadas, dor de cabeça e bolhas nos pés. O turbilhão de imagens pode até ser bom para criatividade onírica, mas você me entendeu. Escolha algumas peças de cada período e as “famosinhas” do museu em questão, se você fizer questão de vê-las – nada contra elas, eu adoro a Vitória de Samotrácia. Além disso, o exercício que proponho não precisa ser feito no Louvre, mas em qualquer museu, seja de arte ou outra coisa, digno deste nome.

Finalmente, aos mais interessados – repito o que mencionei no meu texto sobre as políticas culturais europeias: escrevendo para os sites do Literatortura, me impressionei com a quantidade dos apaixonados por cultura, alguns bem jovens, existente nesse país – recomendo não somente leituras de arte – também os meus textos sobre o tema, se estiverem afim – e entrevistas de artistas, que podem ser absolutamente cômicas, mas todo tipo de apreciação cultural – literatura, música, cinema – pois as artes se influenciam mutuamente e assim será mais fácil reconhecer referencias diretas que as cruzem.

Pouco a pouco, uma montanha de objetos incompreensíveis, taxada de arte pelos ditos entendidos do ramo, passará a ter talvez um pouco mais de sentido, na maioria dos casos – ou não! Não posso prometer nada, somente convidá-lo à aventura.

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