OBRA DE ARTE DA SEMANA: Retrato de Simonetta Vespucci por Piero di Cosimo

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Piero di Cosimo, Retrato de Simonetta Vespucci, tempera sobre painel de madeira, 42x57cm, cerca de 1490. Conservado no Museu Condé, no Château de Chantilly, Chantilly, França.

Simonetta, bella Simonetta…

Mas a mulher da pintura seria mesmo a bela Simonetta?

Simonetta era uma mocinha bem-nascida de Genova, cidade mercante no norte da Itália, que se casou ainda adolescente com outro bem-nascido, da aristocracia florentina. Quando ela se mudou para cidade de seu marido, Florença, a atividade artística fervilhava em um dos maiores centros Renascentista da península e sua beleza atraiu a atenção da sociedade e dos artistas, dos quais se tornou musa. Botticelli, que era totalmente louco por ela, colocou um pouco – ou muito – de seu rosto em várias de suas pinturas e até mesmo foi enterrado próximo a essa Vênus humana que morreu aos 23 anos, em 1476.

Algumas hipóteses falam em um retrato póstumo – já que Piero di Cosimo tinha somente 15 anos de idade quando ela morreu – talvez encomendado por seu amante Giuliano de’ Medici, irmão do poderosíssimo e poético Lorenzo il Magnifico.

A dúvida paira sobre a identidade da retratada, pois, o mais forte indício que indica o nome de Simonetta Vespucci é uma inscrição com seu nome. Porém, análises sugerem que a obra seja um pouco mais antiga do que a inscrição. Seus descendentes poderiam ter adicionado o nome posteriormente, inspirados pela celebridade de sua antepassada. Falando em família, vale dizer, a título de curiosidade, que o marido de Simonetta era parente de Amerigo Vespucci, o navegador que nomeia nosso continente.

Outra questão é se a mulher de beleza idealizada foi pintada como Prosérpina/Perséfone ou Cleópatra.

Perséfone é uma figura da mitologia greco-romana – daí os seus dois nomes – filha de Ceres/Deméter, a deusa da agricultura. Ela é raptada pelo seu tio Plutão/Hades, o deus dos Infernos, e é obrigada a ser sua companheira no submundo. Porém, ela poderia passar metade ano ma superfície, sendo assim essa história uma metáfora das estações, Proserpina como a primavera que volta após o inverno. No retrato, é possível fazer a ligação graças a cobra do colar, que lembra o Ouroboros, símbolo do eterno recomeço e renascimento após a morte no qual uma serpente parece engolir a própria cauda, e às árvores ao fundo. À direita, as plantas estão verdejantes, enquanto que do outro lado, esquerda, uma árvore aparece sem folhas, “morta”, junto a uma nuvem escura que acompanha o perfil da mulher, Ou seja, uma dualidade vida-morte, inverno-primavera, tal qual Perséfone indo e voltando dos infernos. Um retrato cheio de influências neoplatônicas, talvez influência do possível comanditário, Giuliano, dado que o neoplatonismo estava bastante em voga em Florença na época, sobretudo na corte dos Médici.

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Ouroboros

A tese que sugere Cleópatra se baseia na cobra, já rainha se suicidou com picadas de serpentes, além da paisagem ligeiramente árida ao fundo – talvez indicativa de um Egito imaginado – os seios aparentes e o tecido com estampa “étnica”. Entretanto, a iconografia não funciona perfeitamente, pois a egípcia geralmente é representada com a serpente mordendo seu seio. Vale lembrar também que uma figura histórica da Antiguidade ou uma deusa poderiam ser representadas mostrando os seios, o que não seria aceitável para uma mulher da alta sociedade da época. Falando da época, o penteado, entretanto, não é antigo, mas típico do Renascimento.

Ambas as teorias, testemunhos da inspiração na Antiguidade, condizem com a ideia de retrato póstumo e idealizado, entretanto, aquela que sugere Perséfone é mais aceita.

Outra influência antiga é a representação da personagem com o rosto de perfil. Pisanello, do qual falei no Obra de Arte da Semana sobre o retrato, também de perfil, de uma Princesa da Casa d’Este, foi um dos responsáveis por resgatar a moda das efígies romanas, retratos de perfil em camafeus, moedas comemorativas, etc.

Para alguém com um narigão, como eu, um perfil perfeito como o da moça do retrato dá quase inveja. Porém, seus olhos parecem tristes, ou pelo menos, distantes. Estaria Simonetta triste por sua morte? Ou nem seria Simonetta, mas outra mulher falecida precocemente?

Para os leitores que quiserem conhecer mais sobre Simonetta Vespucci e sua história como musa de Botticelli, o blog parceiro Rainhas Trágicas publicou um post sobre o assunto.

Bibliografia:

Matilde BATTISTINI, Symboles et Allégories, Hazan, Paris, 2004. p. 10-13, 34-45.

Andrea BAYER (Ed.), Art and Love in Renaissance Italy, New York : Metropolitan Museum of Art ; New Haven : Yale University Press, 2008, p. 250.

Thomas BULFINCH, O livro de outro da mitologia: histórias de deuses e heróis, Ediouro, Rio de Janeiro, 2006. P.63-68

Pierre GRIMAL, Dicionário da mitologia grega e romana, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro. (Originalmente publicado em 1951). P. 114-116, 369-371.

Giovanna LAZZI, Paola VENTRONE, La nascita della Venere fiorentina,

Firenze, Polistampa, 2007, p. 7-49

Henrique Marques SAMYN, “O fantasma de Simonetta: para uma crítica feminista de retratos do quatrocento. Expressão” in – CAL – UFMS, n. 1 e 2, (jan./dez. 2014), p. 121-132.

Monika A. SCHMITTER, “Botticelli’s Images of Simonetta Vespucci:

Between Portrait and Ideal” in Rutgers Art Review 15 (1995), n. 33.

Giorgio VASARI, Le vite de’più eccellenti pittori, scultori ed

architetti, Firenze, Giunti, 1568, p.328-331. Disponibilizado por www.liberliber.it

Links

Página sobre o retrato no site do Musée Condé http://www.musee-conde.fr/ (Consultado em 29/11/2016)

Google Arts and Culture https://www.google.com/culturalinstitute/beta/u/0/asset/KwEU8zV4n1XmFQ?utm_source=google&utm_medium=kp&hl=pt-BR (Consultado em 29/11/2016)

Fonte das imagens:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/98/Simonettavespucci.jpg

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