As fantasias que nos guiam

Stephen King, na dedicatória de “It: a coisa”, escreveu que “a ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bem simples: a magia existe”. E de fato ela existe, a magia. A fantasia é algo que nos guia, gostemos ou não de admitir. Necessitamos das histórias inventadas, das suposições em que cremos, dos relatos fantasiosos, das mentiras despretensiosas (das pretensiosas também, mas esse não é ponto aqui em questão), das brincadeiras de criança, dos jogos, enfim, de uma série de artefatos não verdadeiros na composição envolta por suas estruturas, que nos auxiliem a dar uma roupagem importante para nossas vidas.

Há alguns dias acompanhei, meramente como espectador, um diálogo onde um dos interlocutores disse: “sou mais da vida real”. Essa fala se deu em resposta ao outro participante da conversa, quando algumas metáforas foram utilizadas a fim de ilustrarem o teor do assunto ali discutido, dando assim uma visão mais ampla (e até mesmo mais aprazível) da questão. Senti pena da pessoa que julgou ser possível levar a vida apenas pelo real. A clareza numa visão de mundo com base em tal postura é meramente aparente. Perde-se muito ao ignorar a fantasia.

O real não se sustenta apenas pelo real, mesmo porque até hoje não há um consenso filosófico acerca do que é de fato o real. Ainda assim, considerando o que o senso comum pode entender pelo real, digo que a fantasia é condição necessária para suportar essa tal realidade. A realidade não cabe nela mesma. Muitas vezes a realidade é melhor compreendida pelo artifício da fantasia do que pela própria realidade. A arte dá mais vida à vida. A ficção amplia os sentidos, aumentando as possibilidades de compreensão.

O mito desempenha uma importante função nessa seara. O mito é uma forma de esclarecimento. Mesmo considerando a mudança na análise feita sobre o mito, no sentido de que antes era visto como algo concreto, que se autojustificava e literalmente explicava as coisas, enquanto hoje é visto como algo clareador sobre o passado (justificando-se muito do que se vê também no presente), ou seja, tendo-se uma nova perspectiva, o mito continua funcionando como forma de compreensão e de explicação. Mais uma vez, algo que se situa além do real que serve para melhor se entender o que se tem por real.

Foi pela fantasia que pudemos conhecer melhor o mundo que nos cerca. Enquanto a realidade até então visível atestava que o mundo era quadrado, a fantasia permitiu que esse conceito do real fosse revisto, oportunizando assim, literalmente, ampliar nossos horizontes. Os exemplos concretos são diversos. Ainda hoje (e sempre) necessitamos da fantasia para que nos conduza a novos caminhos, possibilitando assim novos horizontes. Há muito ainda o que se descobrir, e somente através das tentativas que se baseiam em fantasias (suposições, induções, deduções, hipóteses, ideias, projetos…) será possível avançar para além do estado em que nos encontramos. Isso vale tanto no plano o micro como no plano o macro.

Num sentido mais amplo, pode se dizer que até mesmo um animal necessita do ficcional criado para conduzir o seu ser. Um bicho irracional pressupõe (fantasia) que pode a qualquer momento ser atacado por um predador, de modo que quando numa situação de encontro com algo que se supõe (fantasia) como um inevitável conflito, o animal assume determinada postura: foge, ataca ou ameaça.

É com e pela fantasia que passamos a ver as coisas de uma maneira diferente. A leitura de um romance pode acarretar numa nova forma de compreender os sentimentos de uma pessoa. O ato de admirar uma pintura pode ensejar numa visão mais detalhada sobre a cultura que nos cerca. Brincar de faz de conta, libertando mesmo que momentaneamente a criança que existe em nós, pode induzir novas perspectivas sobre a sociedade da qual fazemos parte.

A realidade que somos, que nos cerca, da qual fazemos parte, é incompreensível como um todo, portanto, inalcançável. A fantasia auxilia tanto a suportar a ilogicidade da realidade, como também fornece ferramentas para que possamos alcançar coisas que só se tornam concretas através da ficção. Como muito bem disse Charles Kiefer:

Não sabemos por que estamos aqui, nem sabemos se viver aqui neste minúsculo planeta faz algum sentido. O que sabemos, e o que já demonstramos tantas vezes, é que com nosso engenho e arte somos capazes de transformar as adversidades em vitórias, a feiura em beleza, o pântano em campo verdejante.

Todo o aqui mencionado se situa no plano da fantasia. Por mais que cada forma de sua manifestação tenha os seus contornos próprios, com várias nuances e especificidades, dito num sentido amplo, a saber, tudo aquilo que foge do que se diz por real, a fantasia abrange um grau de importância que a coloca como condição existencial para uma compreensão mais abrangente de mundo. Deixemos a arrogância de lado e admitamos. Não se vive apenas pelo real. A realidade é insuficiente. Precisamos da ficção para viver. São as fantasias que nos guiam.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA:

KIEFER, Charles. Para Ser Escritor. São Paulo: Leya, 2010.

KING, Stephen. It: a coisa. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.

 

Fonte da imagem:

http://i.imgur.com/yiiPv.jpg   ( http://www.mediavida.com/foro/juegos/final-fantasy-cumple-25-anos-juguemos-final-fantasy-439158/67 )

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