Verdade que a arte é a verdade

Verdade que a arte é a verdade. Verdade, também, que ela se dá de várias formas, embora seja ela uma só e ignore o que seja bem ou mal. Na verdade da verdade, do bem ou do mal o belo nem conhece. A arte é perfeita, e, se perfeita, não lhe falta nada. Se não lhe falta nada, são-lhe igualmente partes o bem e o mal; e, se um lhes falta, no entendimento mais puro da palavra, falta. Se falta, descaracteriza-se a perfeição já que à perfeição tudo se tem.

Poder-se-ia dizer do belo no absolutamente bom, ou do que é perfeito e belo na concepção de algo que é absolutamente mal. Mas, quando falamos de homens, a falta de um ou de outro dissimula, contradiz, nega e vai contra a sua própria natureza que é bela por si só. Ainda mais, se dizemos que em termos de humanidade não há a hipótese de ignorar bem e mal, nada também se pode ignorar já que bem e mal são concepções humanas de atos ou situações intrinsecamente perfeitas do intocável real.

A moral pode servir como um decepador do membro necessário à copulação da arte. Pela moral, a beleza e a transcendência do sexo jamais aconteceria – decapitar-lhe-ia –, chegando ao contraditório por a sexualidade ser tão normal e inata, ao passo que a moral tão artificial.

Quando se diz, então, que a moral cancela a arte, que para alcançar a arte é preciso ser subversivo, que é preciso do mal para se chegar ao belo, há também uma contradição, pois, havendo uma subversão, esta é da moral que fez do belo uma bifurcação – uma quimera de duas ou mais cabeças que se chamam, dentre outras, de bem e mal, quando em verdade se chamam íntima e uniformemente por “natural”. Concepções do belo, recriadas para a satisfação da paz social, significando dizer que, no âmago, na conceituação mais primitiva do belo, este é o total, e bem e mal são artificialidades fragmentais.

O belo não é a negação do bem para a aceitação do mal ou vice-versa, mas simplesmente a reunião inconsciente de ambas. Se, tendo em conta que somos condicionados à moralidade e à educação na dualidade por toda a vida, quando da quebra da dualidade para reencontrarmos a arte – perfeição, unicidade, totalidade –, quebramo-nos, reencontramo-nos e subvertemos o “nós criado”. Todavia jamais há a subversão do “nós nascido”.

A arte não é espiritual, e poucas vezes se coaduna com a paz social; por tantas vezes, a arte é o nosso reencontro chocante e desesperado e ensandecido com a matéria bruta da mais casta realidade – que não boa, ou má, mas casta. Castidade que, na visão da moral, pode ser absolutamente subversiva, suja, podre, orgânica, nojenta, criminosa e antissocial. Não seria, também, arte?

Distante de qualquer conceituação, a arte assume formas distintas. Negar alguma forma prejudicial à sociedade é compreensível, mas de modo algum é aceitável dizer que não é arte. Realidade que, por ser tão negada por nós, sempre vivendo na ilusão e na busca de ideais, imersos no mundo etéreo de busca por uma perfeição espiritual, supra ou hipermaterial, esquecemo-nos de que a realidade ignorada é a mais bela – sofrida, imperfeita por ser incômoda (incômodo do sentir que nos faz viver, que permite o dom da vida e que nos acompanha e nos diferencia); e não por outro motivo encontramos e enxergamos tal beleza no se ir da vida, quando os ideais não possuem mais importância qualquer.

Descobrimos que a arte, verdadeira, seria uma subversão da própria vida porque a mata; descobrimos que a vida só tem beleza porque um dia, e a cada dia, ameaça acabar. O contrário disso é sonho e ilusão e ideal; o ideal subsiste numa limitação de tempo, histórica, espacial, e se modifica; a ilusão é a verdadeira subversão da realidade e dos sentidos; do sonho, um dia se acorda.

Fazemos do sonho o bem ou o mal, o sonho ou o pesadelo; mas não são eles resquícios e vestígios do que foi ou não foi quando de olhos abertos? Não são os dois frutos da realidade havida? Como dizer que as duas, uma ou outra, é boa ou ruim, apenas porque conforta-nos ou nos incomoda o sono? Ora, a própria confusão no verbo de “ser” ou “não-ser”, para diferenciar dois pontos que “é”, claramente acusam o erro conceitual.

Bem e mal, ambos parte “não-parte” da realidade. De toda forma, o sol quando de olhos abertos é incomparavelmente superior à luz ou às trevas de olhos fechados e, sem a primeira luz, sem a prima e uma realidade, nem sonho e nem pesadelo existiriam – sendo, gerundiosamente, realidade. Querer só o sonho ou tão somente o pesadelo é desvirtuar, igualmente, o real. Querer só a moral é, de igual modo, mutilar a beleza total.

 

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