CARTA AO ARTISTA: Querido Edvard Munch

Caro Edvard Munch, como vai a morte?

Às vezes, o mundo perde tempo demais com as coisas belas, jogando as coisas podres e que necessitam ser resolvidas, para ajudar os pobres desesperados que dão o ultimo fôlego pela manhã, para baixo do tapete. Por anos, a pergunta foi a mesma: qual era o segredo do sorriso de Mona Lisa? Bom, quem realmente se importa em descobrir? Ela estava feliz, animada e com a pureza em seu coração. Por que temos de discutir a felicidade se a pior coisa no mundo ainda é o desespero, solidão, ansiedade e dor? Aí veio em meus olhos, o quadro mais silencioso e barulhento de todos os tempos: O Grito. Esse sim me levantou diversas dúvidas, que o senhor há de responder.

Eu sei. Pesquisei muito tempo o seu significado, por ser o oposto do amor e todo aquele lance de andar pelo por do sol e sentir o grito da natureza e entrar em uma conexão profunda com o mundo que vai além do que podemos enxergar. Eu entendi. Mas as duvidas ainda estão aqui. Na verdade, ainda me parece pouco se firmar a apenas isso ou talvez não seja “apenas” isso. Eu não sei, estou tão desesperado como aquele pobre quadro.

A arte para mim sempre foi uma fuga da dolorosa realidade, fosse ela colocada em uma música pop, uma escultura, um poema ou em um quadro, então foi realmente impactante receber tanta informação de uma vez só em apenas um quadro. Eu estava ali, parado, quando o vi pela primeira vez e que sensação horrivelmente prazerosa, não é? Eu senti incomodo por todos os músculos do meu corpo, meu coração estava acelerado sem motivo algum e sem mais motivo algum eu estava ali sofrendo um ataque de ansiedade, apenas por olhar seu quadro e sua forma bizarra de se expressar. Talvez por achar tudo aquilo realmente lindo ou provavelmente por sentir todos os meus medos expostos e nus, apenas por ver aquele pobre ser andrógeno segurando seu rosto, de forma que parecia que sua pele se derreteria e grudaria junto aos seus dedos quando ele tentasse afastar de sua face. O que você fez comigo?

Aquilo obviamente passou. E eu segui a vida, sabendo da sua importância e conhecendo mais coisas que o mundo tinha a me oferecer, mas, acredite ou não, “O Grito” nunca saiu do meu corpo, havia ali, se misturado com o meu DNA. Você sabe como é o mundo não é mesmo? Temos de escolher uma vida, um caminho, um trabalho, que horas acordar, que horas dormir, que roupa vestir, que corte de cabelo, alguém para beijar, alguém para rir, o chaveiro para nos acompanhar no molho de chaves velho que abre a porta da casa que você escolheu, junto com diversos móveis que você teve de escolher para deixar tudo arrumado e completamente decente para diversos conhecidos e desconhecidos algum dia entrarem na sua casa e vagarosamente julgar o seu habitat enquanto fingem que riem com você, porque eles também tiveram de escolher.

Isso dói e sortudo é aquele que consegue controlar todas essas escolhas como algo natural, como se fosse só mais um sopro de ar normal que te faz sobreviver dia após dia. Já em mim, isso entra embaixo da minha unha, separando a carne dela e meu ouvido fica como se existisse mil abelhas voando em sua volta. Mas, ao invés do zumbido conhecido, apenas palavras jogadas ao vento: “ESCOLHA, MUDE, CRESÇA, GANHE DINHEIRO, NÃO SEJA UM LIXO, NÃO DEIXEM QUE DESCUBRAM QUE POR TRÁS DISSO TUDO VOCÊ É UM FRACASSO”. A ansiedade que isso me causa não é qualquer coisa, muito menos algo inútil.

Por mais que eu possa estar tentando ficar calmo, eu nunca consegui expressar cem por cento do que me apavora em alguma pintura, palavras ou música. Algumas coisas que até tento, como esse lance das palavras que volta e meia formam textos e volta e meia formam poemas. Mas eu nunca consegui expressar tão bem como você conseguiu em “O Grito”, parece que aquela figura andrógena resume tudo, sabe? A dor, a vontade de se desesperar de uma hora para outra, a ansiedade batendo sem propósito algum, as duvidas, os momentos de crise, a vontade de fugir, os remédios controlados, tudo. Tudo está ali, pintado em um quadro de um pobre homem transfigurado de tanto gritar, sem voz alguma, seu grito é tão dolorido que é abafado pelo vazio, pelo silêncio do homem obrigado a se calar, para aceitar o mundo. Eu sinceramente acho tudo isso tão sensível que parece uma corda bamba, que tem de se equilibrar, para não ser nem demais, nem de menos.

Mas, poupando um pouco as minhas excentricidades sentimentais, totalmente pessoais e desnecessárias, ainda exijo respostas, não mandaria isso tudo por nada. Conte-me o que você sentia quando pintou, o quanto de você foi naquilo e como foi ouvir criticas tão duras por algo que tinha tanto de você?

Seu quadro é tão lindo, senhor Edvard Munch, ele me gera tanta coisa e também me controla tanto. Só quero te dizer, que assim como todo homem que busca a fuga das dores na arte, você nunca estará sozinho. Nós reverenciamos sua coragem de expor tanto de si em algo, um ícone como esse, nunca poderá ser esquecido. Afinal, enquanto um homem comum busca por respostas existências, seu quadro ainda fará muito sentido.

Por favor, eu estou ansioso pela sua resposta.

P.S. Não me entenda mal, eu amo a Mona Lisa.

Um grande abraço, de um fã qualquer.

 

Fonte da imagem: http://noticias.universia.com.br/tempo-livre/noticia/2012/10/29/977841/conheca-grito-edvard-munch.html

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