OBRA DE ARTE DA SEMANA: Sant’Anna com a Virgem, o menino Jesus e San Giovannino de Da Vinci


Leonardo da Vinci, Sant’Anna com a Virgem, o menino Jesus e San Giovannino, carvão, lápis negro e gesso branco sobre papel montado em tela, 141,5 x 104 cm, cerca de 1501. Conservada na National Gallery, Londres, Inglaterra.

Que Leonardo Da Vinci é um dos principais nomes da história da arte, que suas contribuições extrapolam os limites da estética, e que podemos dizer que foi um dos primeiros artistas a romper com os cânones da chamada “boa arte”, todos sabem. Embora sua obra considerada mais famosa seja a Mona Lisa, sua importância não reside no resultado final, mas sim no fato de que quando Leonardo a pintou, a grande maioria dos trabalhos possuíam temas considerados elevados, tendo como foco a religiosidade, mitologia e política, e ao retratar a esposa de um comerciante, mostrou que a arte não se presta a um papel institucional, mas sim de valorização humana.

E esse também é o caso da obra escolhida para a coluna desta semana. Existem várias teorias a respeito desse estudo para a obra “SANT’ANNA COM A VIRGEM, O MENINO JESUS E SAN GIOVANNINO”, mas para não alongar muito o texto, escolhi a corroborada por Giorgio Vasari (Arezzo, 30 de julho de 1511 — Florença, 27 de junho de 1574), pintor e arquiteto italiano conhecido principalmente por suas biografias de artistas italianos, sendo considerado um dos primeiros historiadores de arte. Esta teoria diz que Da Vinci produziu o cartão nos primeiros anos do século XVI, por conta própria, com o objetivo de conseguir apoio do governo e transmitir o seu posicionamento político republicano, que era alinhado com as ideias da época. De fato, no texto de Vasari que reforça esta teoria, o historiador menciona uma exposição de dois dias do cartão realizada por Leonardo na Igreja da Santissima Annunziatta. A obra foi recebida com grande admiração por uma multidão de pessoas.

É por esse motivo, que escolhi falar sobre o estudo e não sobre a pintura derivada do mesmo. Primeiramente, porque o cartão atingiu popularidade superior à pintura. Em segundo lugar, nesta que parece ser um simples tema da arte sacra, transmite uma ideia muito poderosa. Ao retirar a solenidade e espiritualidade da cena, Leonardo nos apresenta a família mais importante da tradição cristã, não de maneira elevada, iluminada, sublime, mas apenas como uma família comum em uma cena cotidiana. Poucas pessoas, inclusive cristãs, sabem, por exemplo, que Santa Ana é avó de Jesus, e que a própria concepção de Maria foi marcada pela intervenção divina. A obra mostra a beleza da convivência humana. Não há o peso do martírio, tão pouco a devoção e dedicação religiosas exclusivas.

O que nos leva a um contra ponto interessante, ao analisar a obra sob uma perspectiva política. O artista transmite suas ideias e valores republicanos em detrimento daqueles oferecidos pelo sistema monárquico. Outra reflexão interessante é sobre a criação de Jesus. Na cultura judaica, as mães são responsáveis pela educação das filhas, e essa característica é bem visível em outras representações de Santa Ana, com todos os simbolismos de seu manto marrom, seu pergaminho e a mão esquerda sobre o coração. Aqui Da Vinci nos lembra da importância das mulheres envolvidas em toda a vida de Cristo. Embora a religião tenha suprimido a importância das mulheres ao longo da história, a arte tem o poder de resgatar a importância das mulheres inclusive na formação do caráter de Jesus.

Sobre a técnica empregada, Da Vinci usa o lápis negro e o gesso branco para criar o volume, em uma aula de luz e sombra, que nos lembra da ideia de escultura. A composição é bem equilibrada, onde percebemos mais claramente a triangulação que é o traço marcante das composições do artista e a correta utilização da perspectiva para os elementos ao fundo da cena. Outro elemento interessante, que na obra de Leonardo e Michelangelo se dava à falta de tempo, é o conceito de non finito (não acabado). Podemos ver o esboço da mão esquerda de Maria e dos pés das personagens sem acabamento. Esse tipo de característica influenciou artistas como Rodin a incorporarem o non finito como recurso estético.

 

Sobre a coluna OBRA DE ARTE DA SEMANA: Aline Pascholati, Marina Franconeti e Wagner Galesco se alternam escrevendo sobre obras de arte de diversas épocas às terças-feiras.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s