OBRAS INQUIETAS 40. “O soldado morto” (1789), Joseph Wright

No horizonte, o som distante dos canhões e dos gemidos de cavalos levanta nuvens vermelhas, enchendo o céu de raiva e de dor. Muitas pessoas morrerão hoje, envolvidas em uma guerra que logo será esquecida, mas elas não importam, pois o único drama que importa está na nossa frente e quase escapa despercebido. O olhar do nenê sai dos limites da cena e nos fixa com a sua condenação silenciosa. Ele nos contempla com inocência; quase podemos sentir o toque aveludado da sua pele ainda imberbe de dor. Mal sabe que a sua vida mal começou e acaba de mudar, mal sabe que nunca conhecerá a cor dos olhos do seu pai, o sorriso que ele soltava ao ver a sua mãe ou o tom algo estridente da sua voz ainda tão jovem – e já morta. Com seu olhar repleto de dúvida, o nenê ignora que chegou ao mundo na hora errada e, por isso, foi condenado a uma vida que não pediu. Nenhum de nós sabe a identidade do seu pai morto, nenhum conhece o semblante da mulher imersa no desespero, e isso não importa também, pois a dor de sobreviver em meio a um mundo tão cruel não precisa ter um responsável. O nenê e a sua mãe são peixes nadando em um mar repleto de tubarões. Ninguém pede para nascer, e o desespero da mulher não é somente pelo marido morto, mas pelo filho que carrega nos braços, pois sabe que ele não tem chance alguma. No olhar que o nenê nos dirige, existe uma chama de esperança que logo será apagada e substituída pelo mais genuíno dos horrores: o de existir em um mundo que odeia a vida com todas as suas forças.

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