OBRAS INQUIETAS 44. “Melancolia I” (514), Albrecht Dürer

Tudo tende ao vazio. Ao nada absoluto. À irrelevância. O tempo se arrasta com a paciência de quem sabe ser eterno. Paralisado, o vento suspende a sua caminhada ágil e o ar fede à morte, à imobilidade das águas paradas. Na parede, o Quadro Mágico deixa entrever os mistérios que nunca serão desvendados; enquanto isso, o compasso repousa, indeciso, nas mãos tristes do homem que não sabe para onde ir – ou será um artista à espera da sempre traiçoeira inspiração? A imagem retorce-se lentamente em torno do seu próprio centro, como uma cobra saciada que dorme sob a luz de um sol morto; os animais, os anjos e o céu estão cansados, não conseguem sair da areia movediça caprichosa em que a inação do homem os colocou. Diante da enormidade daquilo que podemos ser e do fracasso inevitável dos nossos sonhos, sentimo-nos insignificantes, incapazes de romper a inércia, incapazes de escapar do buraco negro que mora no nosso peito e diz que não podemos ser nada, que nunca seremos nada, que na nossa lápide estará escrito “nada”. Existe uma beleza tão bonita quanto o sonho, existe uma verdade mais doce do que a esperança? Qual o sentido de viver, se não conseguimos escapar de nossas fraquezas? Se nada acontece, a vida então se repete? Dentro da imagem se esconde o segredo dos erros sempre iguais, da sensação de desalento que às vezes nos acomete, da procrastinação das tarefas, do medo de começar para, então, falhar. A Melancolia é um veneno lento que sufoca a nossa liberdade – é o cadáver silencioso que nos segue dentro da sombra, sempre lembrando que somos humanos, demasiado humanos.

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