“Uma reportagem maldita (Querô)”, de Plínio Marcos

“— Te refresca saber essas bostas?”

Plínio Marcos busca, por meio da palavra, o escancarar das violências. A partir das denúncias que o narrador-personagem faz, somos levados a experimentar do outro lado da espetacularização da violência, em um Brasil individualista e alienado.

Em uma narrativa em primeira pessoa transitando da introspecção à cena, Plínio Marcos constrói o que será fundamental, no plano social, para desnudar a tragédia vivida por um brasileiro marginal em tempos de ditadura militar, sobretudo no que diz respeito à violência. A estrutura da cena transmite ao texto um tempo similar ao de um protótipo da realidade, e também, consegue o discurso direto que não passa pelo filtro do narrador. Nesta relação aumenta-se a confiabilidade do leitor. A introspecção, por sua vez, experiencia uma aproximação à subjetividade da personagem, revelando seus sentimentos; para o nosso romance, revelando as sensações à flor da pele de cada momento por quais passa o narrador-personagem.

O cenário aqui é uma selva, que vai aparecendo através das sugestões animalescas na focalização do narrador: a vaca que me pariu, seu focinho, marujo veado, cadela sarnenta, etc. No caos, poder torna-se sinônimo de força; seja nas microestruturas, representado pelo personagem Tainha que lidera o grupo dos adolescentes marginais; seja nas macroestruturas, representado pelo militarismo ao qual todos obedecem.

Jerônimo da Piedade será chamado por todos de Querô, herança única que tem de seus pais. Aliás, sobre sua mãe, somente vem a saber histórias contadas pelos que viviam com ela: uma prostituta que morreu de tanto beber querosene. Do pai, talvez nem a mãe soubesse quem teria sido. Passivo ao sistema, o marginal é condicionado por este espaço.

De uma contraditória dialética do herói versus o vilão, a polícia construía a imagem de encabeçar o progresso. Todos os culpados criminosos eram presos e pagavam por suas errâncias; enquanto que os inocentes seguiam em frente, livres de todo mal.

O homem duro ou cínico (do seu drama Balada de um Palhaço) é o mesmo que Querô observa nas ruas quando alguém ou ele próprio está sofrendo de violência. O universo é individualista e selvagem, a violência deixa de ser apenas comum tornando-se banal, e em seguida, espetáculo.

O marginal é a válvula de escape de todos os tipos dessa violência. Para todos os âmbitos o vetor do problema aponta o marginal. Se a saúde do país tem problemas, é ele quem deixará de ser assistido; se há fome, ela pertence também a ele.

Em relação à banalidade, além de ela ser aspecto de uma nova configuração da violência, ela é também uma violência sobre a violência. Afinal, ignorar um problema é mais do que deixa-lo existir, é deixa-lo que corrompa àqueles que sofrem suas consequências.

Neste momento, a violência aparece com outra de suas faces, há sadismo generalizado, logo, uma espécie de espetacularização: “Juntou gente às pamparras para ver o lance” (MARCOS, 1976, p. 56).

Selvageria, desumanidade, alienação são tentativas de nomear aquilo que racionalmente não é possível explicar. Não podemos dizer que há leis neste universo, porque não há justiça. Há sim, ordens para serem cegamente obedecidas.

Tão marcada é a cultura do individualismo e de toda sua alienação que o sujeito é incapaz de perceber o que acontece no mundo lá fora. As personagens vão aos poucos desaparecendo no romance, tornando-se tipos, até o final, simples números. Se isso acontece, há que relembrarmos do aspecto de a voz narrativa ser a voz do marginal. O que cria um paradoxo, porque, na posição em que está, lógico seria que houvesse uma forte presença de traços humanos que caracterizassem as personagens, e que isso ocorresse de forma gradativa e mais marcada.

Um dos elementos mais trágicos do romance é a alienação que corrompe até mesmo o narrador-personagem. O ódio de si próprio é transposto ao ódio para o outro. Seus sentidos estão todos sendo corrompidos pelo mal. Para salvá-lo, só mesmo alguns momentos de Navalha na carne (título de outro drama de Plínio).

Logo em sua chegada à cadeia, briga com um garoto chamado por Cocada. Querô morde-lhe o pescoço, em seguida, a barriga, ao mesmo tempo em que torce seu saco. Queria mata-lo e sabia que conseguiria, até que os guardas intervém e castigam a Querô levando-o à cela- surda, ao chiqueirinho, segundo chamavam. Uma cela escura, apertada, com ratos e baratas.

De forma alienada, Querô odiava sua mãe, a filha da puta, a cadela, a puta. Mas anos, na condição de bicho, o fazem sentir o que, provavelmente, teria sentido sua mãe. Sentir também que o mundo é individualista, solitário e que sua mãe estava, assim como ele, esgotada disso.

O narrador tenta resolver o problema do individualismo, mesmo sabendo que não viverá qualquer resultado de sua luta. Ele o faz, exprimindo a violência em sua nudez e crueza para que, minimamente, o leitor compartilhe do sofrimento do outro. Uma reportagem maldita é uma tentativa de reescrita e releitura da História.

Quando as necessidades básicas de sobrevivência estão sendo afetadas pela ordem, não há mais sentido moral, não há culto às boas maneiras, o que aparece, já na superfície, é o instinto animal. Se não há o que comer, o marginal buscará nos lugares mais escondidos onde estaria seu prato de comida, por que não imaginar que o outro já o comera e pretender abri-lo o estômago e coloca-lo ao avesso de sua forma natural? “Espetei até o cabo na barriga e puxei pro lado. Virei as tripas do desgraçado. Ainda lhe dei duas facadas.” (MARCOS, 1976, p. 40)

Seja por nojo, arrepio ou ânsia, o narrador convida o leitor às sensações mais pesadas possíveis “O miolo dele pulou. Devagar, bem devagarinho, o Zulu foi tombando pro lado e desabou. Nem reclamou. Senti um puta fedor de merda.” (MARCOS, 1976, p. 79)

“Era ele ou eu” diz o narrador após o crime. Diz isto porque sente dó daquele outro marginal que morria, e “parecia ser um cara legal”. Não tem escolha neste mundo injusto e selvagem. Matar era preciso, uma vez que ele vinha sendo cercado por dois policiais que o matariam. Queria também uma arma, porque aqui, significaria ter poder, não que Querô quisesse poder para mandar nos outros, só queria sobreviver. Uma maneira de consegui-la foi a que escolheu o narrador.

Sobreviver mesmo na miséria ainda era uma razão para a vida de Querô. A personagem foi capaz de sorrir e sonhar em meio à pobreza, quando lhe ocorre a possibilidade de amar Lica, uma garota com quem troca olhares e sorrisos na igreja. Queria sobreviver… Não seria preciso beneficiar-se do mal de ninguém. Portanto, Querô não deixa que sua ética seja corrompida.

Há uma tênue, mas significativa diferença entre fazer o mal para sobreviver e fazer o mal para beneficiar-se. Este Querô negou quando os policiais o obrigam a trabalhar pra eles, entregando-lhes dinheiro e entregando os que eram contra suas práticas. Preferia matar ou morrer.

Neste segundo momento, a narrativa promove uma inversão dos planos, o que pode passar despercebido com a sofisticação da escrita do autor. Trata-se deste ataque direto e generalizado, que inclui o leitor, e aqui, é representado pela figura do repórter, o do gibi.

A narração da história de Querô é interrompida pelo discurso direto com o repórter. Querô, ferido de bala no confronto com os policiais, está a chorar após reler sua própria história ao repórter. O choro da personagem parece que pouco afeta o espectador. Este, por meio de um jargão popular, que chama à cena o leitor diz: “-Chora. Vai te fazer bem”. (MARCOS, 1976, p. 89) Querô, em sua sensibilidade requintada, chama o leitor não apenas à cena, mas à responsabilidade: “- Vai fazer bem é pra ti.” (MARCOS, 1976, p.89)

O individualismo alienado está na fala popular, na História encerrada, no ler literatura sem refletir a realidade. O narrador coloca seu leitor no mesmo plano das personagens que não se preocupavam com os problemas dos outros e que, pelo contrário, se deleitavam com cada uma das dores.

R
eferências Bibliográficas

HABERT, Nadine. A década de 70: apogeu e crise da ditadura militar brasileira. São Paulo: Ática, 1996.

MARCOS, Plínio. Balada de um palhaço. São Paulo: [s. n.], 1986.

______. Navalha na carne. São Paulo: Círculo do livro, 1978.

______. Uma reportagem maldita: Querô. São Paulo: Símbolo, 1976.

Fonte da imagem:

https://de5enharia.blogspot.com.br/

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