OBRA DE ARTE DA SEMANA: Ciclo de Maria de Médici – O desembarque da rainha em Marselha, de Rubens


Peter Paul Rubens, Ciclo de Maria de Médici: O desembarque da rainha em Marselha, em 3 de novembro de 1600, óleo sobre tela, 394 X 295 cm, 1625. Conservada no Museu do Louvre, Paris, França.

A obra de hoje mostra a chegada de Maria de Médici, filha do duque da Toscana, casada por procuração com Henrique IV, rei da França, à Marselha para se juntar a seu esposo. O casamento, contraído por motivos políticos – e financeiros -, como era o recorrente aos grandes da época, aliou um homem de grande linhagem a uma mulher muito rica, de uma família de banqueiros que conseguiu pouco a pouco se enobrecer através das gerações. Os Médici, inclusive, emprestavam dinheiro à monarquia francesa. Foi a segunda vez que um rei da França se casou com uma Médici, a primeira delas, em um tempo que a família era pouco menos importante, tendo sido Catarina, esposa do rei Henrique II, que à época do casamento não era herdeiro do trono, mas somente mais um dos filhos do rei.

A tela faz parte de uma série de 24 pinturas dedicadas a exaltar a vida da rainha, orgulhosa e de grande ambição política, destinadas a uma galeria em sua morada, no Palácio de Luxemburgo. As obras foram encomendadas em 1621 e terminadas em 1625, quando a rainha inaugurou a galeria que as abrigava na ocasião do casamento de sua filha Henriqueta Maria com o rei Carlos I da Inglaterra. Com a colocação de suas filhas em posições privilegiadas como rainhas de outras monarquias, ela afirmava uma vez mais sua importância. Nessa época, ela tentava magnificar sua imagem, que já havia sido manchada pelas suas disputas pelo poder com o rei seu filho, Luís XIII; poder este que tentou exercer por bem mais tempo do que a minoridade do monarca. Inclusive, por um período ela havia sido até mesmo exilada da corte.

É importante notar que Rubens, um artista intelectual, que possuía um grande conhecimento, repertório artístico e iconográfico, usou de toda sua habilidade para criar imagens que misturam história e alegorias, bem ao gosto da comanditária de difícil e orgulhosa. No caso da pintura em questão, vemos o navio ricamente decorado e esculpido, ornado com o brasão dos Médici, do qual desce a comitiva da soberana, que é recebida pela personificação da França – com elmo e capa com flores de lis, símbolo da monarquia francesa – e a personificação da Cidade. Sobre os presentes, vemos uma figura feminina alada, personificação do Renome – Renommée, em francês, é um adjetivo feminino – que avisa ao rei a chegada de sua esposa e liga a pintura àquela seguinte, que representa o encontro dos esposos. Ainda, no primeiro plano, próximo ao navio, vemos Netuno com seu tridente, sereias, nereides e tritões, que se agitam tais como as águas, contribuindo a dinamizar a cena. As formas carnudas e a carnação muito branca das sereias são típicas da pintura de Rubens.

Quanto a composição, podemos ver que a tela é dividida em duas metades, separadas pela prancha pela qual a rainha desce. A brancura das sereias vai de par com a clareza do vestido prateado da rainha e sua acompanhante, quase do mesmo tom que o céu nublado, enquanto que o tecido vermelho sobre o navio responde àquele da prancha e às pequenas bolotas vermelhas do brasão dos Médici. Tecidos vermelhos aparecem com frequência em obras mitológicas e de história do artista, conferindo vivacidade e expressividade, e, nesse caso, um toque decididamente real.

Toda a pompa não faz jus à realidade da chegada da rainha em Marselha, que ficou furiosa quando descobriu que o rei enviou representantes para encontrá-la em seu lugar na ocasião de sua chegada ao país.

Atualmente, a série é abrigada por uma imensa sala no Museu do Louvre, na qual o espectador pode descobrir a história de Maria de Médici através da sequência de imagens.

Bibliografia:

Luca BACHECHI, Emanuele CASTELLANI, Francesca CURTI, Les chefs-d’oeuvre du Musée du Louvre, Paris, Place des Victoires, 2009, p. 42-45.

História ilustrada da arte: os principais movimentos e as obras mais importantes, São Paulo, Publifolha, 2016, p. 168-169.
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Bernard PHAN, Rois et reines de France, Paris, Éditions du Seuil, 2008.
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Links:

Adeline COLLANGE, “L’Apothéose de Henri IV et la proclamation de la régence de Marie de Médicis, le 14 mai 1610” in Louvre. Consultado em 04/03/218.
https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/l-apotheose-de-henri-iv-et-la-proclamation-de-la-regence-de-marie-de-medicis-le-14-ma

“Petrus Paulus Rubens: Le Débarquement de la reine à Marseille, le 3 novembre 1600” in Base Atlas – Louvre. Consultado em 04/03/218.
http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=25626

 “Rubens et le cycle sur Marie de Médicis” in Grand Palais. Consultado em 04/03/218.
https://www.grandpalais.fr/fr/article/rubens-et-le-cycle-sur-marie-de-medicis

Fonte das imagens:

http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=25626

By Matt Biddulph, commons.wikimedia.org/wiki/File%3ARichelieu_wing_-_Louvre.jpg

commons.wikimedia.org/wiki/File:Peter_Paul_Rubens_035.jpg

Sobre a coluna OBRA DE ARTE DA SEMANA: Aline Pascholati, Marina Franconeti e Wagner Galesco se alternam escrevendo sobre obras de arte de diversas épocas às terças-feiras.

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