O que é doença? Crítica à sociedade no longa ‘Febre do rato’ de Cláudio Assis

“Febre do rato”. A febre da mordida do rato. O mangue. A lama. Nação Zumbi. A cidade. A organização política da cidade. A desorganização política da cidade. O que está à vista. O que está por debaixo da lama. O que forma a lama. O que fazer com a lama. O caranguejo. O homem. A mulher. A nudez e o sexo. O que está escondido. Por quem está escondido. Por que está escondido. Quem quer esconder. Quem quer falar. Quem pode falar. A poesia, o sexo, a polícia, o amor, a cidade, a morte, o sexo, o cheiro, o mau cheiro, a poesia, a bebida, o lixo, o amor.

Em uma cidade imaginária vivia Zizo (Irandhir Santo), poeta e vivedor. Cheirador de cores, escultor de tempos. Um poeta que defendia com o próprio sangue o direito de existir. Com amor, febre, doença e o que não pode ser visto, dito. Assim, nessa imaginação febril Zizo conferia vida àquilo que se pretende matar a todo tempo em uma ordem de existência em que a poesia é relegada à margem e a ordem é trazida para o centro. Não que esse seja o melhor local, porém é o que se tornou cultuado.

Há na narrativa de “Febre do rato” uma mostração da ordem estabelecida que obstaculariza com leis o que é humano. A sujeira é levada para debaixo dos mangues. Os mangues são vida. Escondida vida. Dali surgia a poesia visceral de Zizo. Dali surgiu a música da Nação Zumbi. Em um Recife que é comparado ao inferno pelos personagens, o diretor Cláudio Assis fez falar a voz que ressoava dentro do mangue. Assim como Chico Science e sua Nação Zumbi cantaram o mangue para o mundo, nesse filme, recheado de poesia e verdade, a exclusão do outro foi denunciada com escárnio e amor.

Enquanto Zizo existia com sua arte, o seu entremeio respirava a partir de sua poesia. É interessante perceber que na narrativa a poesia exerce um papel normativo, que direciona o existir das pessoas. Isso fica claro quando a poesia de Zizo reata o romance do enciumado Pazinho, personagem de Matheus Nachtergaele. A poesia de Zizo servia para libertar as pessoas de uma existência oprimida. Mais uma vez a arte se anuncia de maneira a deixar falar aquela fatia da sociedade relegada à periferia da existência.

Doente. Sem controle e febril. O rato Zizo se espreitava pelas frestas estreitas que restam à determinada parcela da sociedade. Sua fala quente e mordaz levava vida a pessoas que estariam relegadas ao mangue. E da lama, que é cria do homem, que se torna lama, como em um infinito trágico de retornar não ao pó, mas à lama, Zizo transforma o dia-a-dia, doentio e febril de pessoas que vivem oprimidas em uma ode ao erro. A anarquia que ele anuncia é o respiro fora do mangue. O momento de vida enquanto a lama não cobre novamente o rosto da periferia. A febre que toma Zizo é o sopro de vida dos ratos que devem ser combatidos a todo o momento.

Até mesmo Chico Buarque já percebera a necessidade de atenção aos ratos e em sua “Ode” faz com que comunguemos com esses nossos irmãos toda a febre e poesia da existência humana. Cheia de paradoxos e cheia de amores. De morte e de vida. Assim, esse “saqueador da metrópole tenaz, roedor de toda esperança, estuporador da ilusão” que é “meu semelhante, filho de deus, meu irmão…” caçoa da cidade em versos que cortam a veia e fazem jorrar o que fica relegado ao mangue. Assim como a Nação Zumbi nos anuncia “que ninguém foge ao cheiro sujo da lama da manguetown”, que “ninguém foge à vida suja da manguetown”, estaria Zizo sujando uma realidade que se quer límpida, mas essa limpidez precisa de um local para onde são lançados os dejetos, o mangue sujo seria esse local inóspito. Contudo, dali ressoa toda a vida que é devolvida à cidade pela poesia.

Não seria apenas a leitura de um homem febril. Sabemos que a febre da mordida do rato é transmitida pela sujeira e falta de asseio de determinados locais. Essa sujeira pode ser percebida de várias maneiras: pela opressão de um estilo de vida que deixa à margem e afoga as diferenças na lama e pela ausência de poesia que simboliza uma febre muito maior: aquela que amolda uma sociedade esquecida da alteridade, que não alucinada, não percebe que no verso nu habita a lucidez do humano – a sua característica de ser anarquicamente para o amor.

 

 

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